Voto no primeiro turno não foi “Nordeste vs. o resto do Brasil”

por Raquel Rolnik e Aluizio Marino

Ao contrário do que vem sendo propagado em muitas análises e circulado pelas redes de Whatsapp, o voto do primeiro turno para a eleição presidencial não se expressou como uma divisão simplificada entre a região Nordeste e o resto do Brasil.

Mapa 1

A visualização dos votos por Estados (Mapa 1) , imagem a partir da qual esta interpretação foi construída, simplifica a divisão territorial dos votos no país. Nela, uma mancha vermelha concentrada no Nordeste – à exceção do Ceará – mostra um reduto que resiste a um mar de verdes, que se espalham pelo restante do país. Mas não foi exatamente esta a realidade das urnas . Em uma eleição onde uma leitura simplificada e reducionista acerca da complexidade da crise que o país atravessa tem dado o tom e é fortemente mobilizada para transformar a insatisfação reinante em anti petismo, é importante ler as nuances e complexidades, inclusive do mapa eleitoral.

A divisão dos votos por município ajuda a compreender tal complexidade. Bolsonaro venceu em 2.848 cidades, Haddad venceu em 2.614 municípios, e Ciro foi vitorioso em 103. Dois mapas territorializaram estes votos logo após o primeiro turno: o Mapa 2, elaborado pelo G1 e o Mapa 3, elaborado pelo portal Nexo. A diferença entre os dois está na forma de representação: no Mapa 2 todo o território dos municípios está pintado pela cor que predominou nos votos daquela localidade; no Mapa 3 cada cidade é um ponto, cuja dimensão é proporcional ao número de votantes . Entretanto, ambos evidenciam uma geografia mais complexa. Ao contrário do binarismo de uma leitura que opõe sudeste Centro Oeste Norte e Sul vs. nordeste, o que vemos são Estados com regiões bem distintas.

No Amazonas, onde a diferença entre os dois primeiros colocados foi de apenas 58.904 votos, Haddad saiu vitorioso em 60 das 62 cidades (96,7%). Assim como no estado de Tocantins, onde o petista ganhou em 107 das 139 cidades; porém Bolsonaro obteve a maior quantidade de votos válidos por ter sido vitorioso na capital e cidades com maior número de eleitores. O mesmo ocorreu no Amapá, onde Haddad, embora tenha menor quantidade de votos válidos, leva a melhor em 13 dos 16 municípios (81,2%).

A leitura da votação por município em Minas Gerais e no Paraná mostra uma clara regionalização. No Paraná, Haddad levou vantagem principalmente nos municípios do sudoeste do estado, e em Minas Gerais no Norte, zona da Mata e ponta do triângulo mineiro.

Uma leitura mais acurada das dinâmicas regionais regionais é necessária para nos ajudar a ler estes mapas. Provavelmente , sobretudo lendo o Mapa 3, é possível levantar a hipótese de que o candidato do PSL foi claramente vitorioso nas regiões dominadas pelo agronegócio e perdeu nos espaços aonde predomina uma agricultura familiar e outras formas de produção. No Mapa 3, a mancha lilás que se expande na direção centro oeste norte corresponde aos vetores de expansão do agronegócio, sem duvida aderentes às pautas de relaxamento dos controles ambientais defendidos pelo candidato. Mas isto é apenas uma leitura de uma parte da votação. Nas grandes cidades, inclusive algumas capitais do Nordeste, como Recife, a vitória de Bolsonaro certamente tem outras explicações, que nesta rápida leitura não temos ainda condições de fazer.

O mais importante entretanto é desmontar a versão de “todos contra o Nordeste”, que não corresponde à realidade, e assim como em outras frentes e fronts simplificadores, e portanto mentirosos, desta campanha (“tementes a Deus vs. ateus”; “comunistas vs. defensores do mercado”) procurar avançar em uma leitura menos simplificadora e portanto um voto mais consciente.

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Eleições 2018: meus votos vão para…

Se você ainda não decidiu em quem votar, revelo aqui meus votos neste primeiro turno, apresentando alguns candidatos e candidatas que talvez você não conheça:
::. Presidente
50 – Guilherme Boulos/Sonia Guajajara – PSOL
::. Governadora
50 – Professora Lisete
(e a campanha pelo voto útil em Marcio França, anti Skaf e Doria, cresce!)
 
::. Senado
131 – Eduardo Suplicy e
500 – Silvia Ferraro
 
::. Deputado Federal
(duas sugestões)
 
5088 Mandato Cidadanista/Celio Tourino e
5075 – Douglas Belchior
 
::. Deputada Estadual
(duas sugestões)
50900 – Bancada Ativista/ Mônica Seixas e 13222 – Adriano Diogo
 
Tenho dicas para o Rio de Janeiro também:
 
::. Governador
50 – Tarcisio
 
::. Senador
500 – Chico Alencar e
131 – Lindebergh Farias
 
::. Deputada Federal
5008 – Luciana Boiteaux
 
::. Deputada Estadual
65013 – Tainá de Paula

Os lugares da cidade de São Paulo que marcaram a revolução de 1932

Pelo menos duas avenidas (23 de maio e 9 de julho) marcam no território da cidade a presença da Revolução Constitucionalista de 1932. Mas na paisagem da capital paulista vários outros locais referenciam a memória de um conflito armado que se tornou o grande mito da história do Estado de São Paulo, celebrada desde 1997 com um feriado.

Foi em 23 de maio de 1932 que centenas de pessoas saíram às ruas para protestar contra o governo provisório de Getúlio Vargas. Na mesma noite, os protestos se intensificaram. Um comício de estudantes da Faculdade de Direito do Largo São Francisco tentou invadir o clube 3 de outubro — formado por tenentes que apoiavam o golpe de Getúlio —, que funcionava na sede do partido PPP (antiga Liga Revolucionária), na rua Barão de Itapetininga, esquina com a praça da República. O grupo foi recebido a balas. Cinco jovens morreram no confronto: Mário Martins de Almeida, Euclides Bueno Miragaia, Dráusio Marcondes de Sousa e Antônio Américo Camargo de Andrade. Orlando de Oliveira Alvarenga, também ferido, veio a falecer meses depois. Seus corpos e de outras centenas de mortos na Revolução estão sepultados no Obelisco do Ibirapuera.

A morte dos quatro estudantes, Martins, Miragaia, Dráuzio e Camargo (MMDC), simbolizou um marco para a mobilização estudantil, a qual se somaram lideranças políticas, militares paulistas e civis que já estavam, desde 1931, articulados em torno da Liga de Defesa Paulista, sediada na esquina da rua da Boa Vista com o largo São Bento, no anexo do Hotel do Oeste. No dia seguinte à morte dos estudantes é fundada uma sociedade secreta do movimento constitucionalista no restaurante Pocilipo, na rua das Flores, na Sé. Uma dos bastiões do grupo, que se intitulou MMDC, ficava no Edifício Clube Comercial, no Anhangabaú. O comando ficava na Faculdade de Direito.

A eclosão do movimento ocorreu em 9 de julho, às 23h30 , em frente à Chácara do Carvalho, sede da 2ª Região Militar, seguida pela tomada de outros pontos estratégicos como Companhia Telefônica, dos Correios e Telégrafos, da Rádio Educadora e da Rádio Record.

Ao movimento, liderado pelo MMDC, uniram-se o PRP, o Partido Democrático e a grande imprensa paulista, que defendiam a volta ao poder do candidato dos paulistas, Júlio Prestes, eleito à presidência, mas que não pode tomar posse, impedido pela Revolução de 1930 de Getúlio. A aliança entre o movimento constitucionalista e a oligarquia paulista contrariada com o alijamento do poder sustentou então um conflito armado que duraria quatro meses, mobilizando mais de 200 mil voluntários entre soldados e grupos de apoio, em vários fronts no interior do Estado, e que acabou sendo derrotada pelas tropas federais.

Como as fronteiras do estado foram fechadas, não havia como adquirir armamento para o conflito fora do país. Assim, muitos voluntários levaram suas armas pessoais, e engenheiros da Escola Politécnica do Estado (hoje EPUSP) e do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) passaram a desenvolver armamentos a serem produzidos pelo próprio estado para suprir as tropas, como autos e trem blindados, munição e armamento. Para financiar o esforço de guerra, São Paulo criou moeda própria, lastreada pelo ouro arrecadado pela campanha “Ouro para o bem de São Paulo”, também chamada de “Ouro para a vitória”.

Com o fim do confronto armado, temendo que os fundos levantados durante a campanha que ainda sobravam, acabassem nas mãos do governo federal, o governo paulista doou-os à Santa Casa, que, com parte deles, construiu o Edifício Ouro para o Bem de São Paulo, no Largo da Misericórdia, no centro da cidade. O prédio tem treze andares, o mesmo número de listras da bandeira paulista, assim como uma forma ondulada que sugere uma bandeira ao vento.

Esta geografia dos acontecimentos de 1932 na capital não pretende interpretar o conflito, que teve motivações de diversas naturezas. A adesão das elites paulistas ao movimento pode ser atribuída à perda do domínio político de São Paulo que, até a ascensão de Getúlio Vargas se alternava no poder nacional por meio de seu Partido Republicano com Minas Gerais, desde a proclamação da República. São Paulo também era responsável pela maior parte do orçamento do País, em função da economia do café, desenvolvida principalmente em terras paulistas. Os paulistas temiam portanto perda de controle sobre as decisões referentes à política econômica, mas também setores desta mesma oligarquia rejeitava a legislação trabalhista em formulação no governo de Vargas.

Por outro lado, a pauta de redemocratização e da volta de um Estado de direito no Brasil era parte fundamental da agenda dos revolucionários de 1932, que rejeitavam a ditadura imposta por Vargas. Porém, com exceção do estado de São Paulo, no restante do país prevalece a versão de Getúlio Vargas e seus apoiadores sobre o conflito, isto é, a tese de que foi uma conspiração orquestrada pela elite paulista para derrubá-lo e que com o fracasso desse objetivo inicial, a rebelião teria assumido um caráter separatista.

As interpretações sobre derrotados e vencedores também varia: uma nova Constituição foi finalmente promulgada em 1934 e algumas reivindicações dos paulistas, como a nomeação de um interventor civil e paulista para governar o estado, foi atendida por Getúlio. E a Avenida 9 de julho, símbolo inconteste da Revolução de 1932, foi inaugurada em 1938… por Getúlio.

A cada remoção, uma nova ocupação

Por Raquel Rolnik

Estamos vivendo uma emergência habitacional em São Paulo, como não se via há mais de uma década, pelo menos. Em outras palavras, por absoluta falta de acesso à moradia no mercado formal, e diante da ausência absoluta de políticas públicas para este segmento da população, estão se multiplicando as ocupações e os novos assentamentos, tanto nas periferias quanto nos edifícios abandonados de bairros centrais.

A afirmação do título não é vazia: por conta do trabalho que a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo vem desenvolvendo, via Observatório de Remoções, em conjunto com outras entidades e coletivos no Fórum Aberto Mundaréu da Luz, soubemos de pelo menos uma família que, depois de ser removida da sua casa, na quadra 36, região dos Campos Elíseos, pelo governo do Estado e diante de nenhuma alternativa concreta de onde morar, instalou-se no edifício Wilton Paes de Almeida. O edifício, quando construído, foi um marco na arquitetura e engenharia brasileiras. O arquiteto Roger Zmeckol concentrou todo o peso de sua estrutura em apenas alguns pontos centrais, podendo assim implantar a primeira fachada inteiramente de vidro da cidade. O prédio, inaugurado em 1968, foi sede de várias empresas, até que seus proprietários endividados acabaram cedendo o edifício para a União. Desocupado, transformou-se em casa para mais de 300 pessoas quando desabou na madrugada da última terça-feira, 1º de maio.

Assim como essa, muitas outras famílias que habitam a região central da cidade estão perdendo suas moradias. Pontualmente chamo a atenção para aquelas famílias moradoras das quadras 36, 37 e 38, área em que, por meio de uma Parceria Público-Privada (PPP), vai ser construído o novo Hospital Pérola Byington. De acordo com o Plano Diretor de São Paulo, esta região é uma Zona Especial de Interesse Social (ZEIS), e portanto destinada à produção ou à melhoria de habitações sociais.

A recusa ao cumprimento da lei, e ao diálogo com os cidadãos, acontece neste momento em que é fundamental ampliar a política social, de apoio à moradia. Mas o que tem acontecido é o oposto: a retração dos investimentos públicos, aliada a uma política de remoções que não oferece nenhuma alternativa sustentável, de longo prazo às famílias. Com isso, para onde mais poderiam ir as pessoas que são forçadas a sair de suas casas? Que fique bem claro: cada remoção é estímulo para uma nova ocupação. E a resposta do Estado? Por enquanto, criminalizar os que mais sofrem.

Esse assunto foi tema da minha coluna “Cidade para Todos”, na Rádio USP.  Ouça aqui.

Novos ônibus, nenhuma intervenção urbanística: um velho problema

Por Raquel Rolnik, com Pedro Mendonça, graduando na FAUUSP e pesquisador do Labcidade.

Maior concorrência do setor no mundo, com contratos da ordem de R$ 66 bilhões, a licitação para o transporte coletivo na cidade de São Paulo propõe um modelo interessante: um sistema estrutural percorrendo grandes avenidas, corredores e faixas exclusivos até o centro da cidade; um sistema perimetral, uma novidade, com veículos de tamanho intermediário interligando um bairro a outro, até os grandes corredores; e um sistema local, que opera com veículos pequenos.

Entretanto, o edital de licitação lançado esta semana pela Secretaria Municipal de Mobilidade e Transporte não vai dar conta de cumprir com a promessa de maior fluidez e redução no tempo das viagens. Isso porque ele não está sendo lançado juntamente com a viabilização de novos corredores exclusivos, que são uma intervenção urbanística essencial para a circulação dos ônibus do sistema estrutural, maiores, articulados, mais rápidos.

Como chegamos aqui? O ano de 2013 é fundamental para entendermos. Foi quando venceram os contratos de concessão com as empresas de transporte. Em junho daquele ano, a cidade de São Paulo parou diante das manifestações de cidadãos que reivindicavam, dentre outras pautas, a revisão da tarifa e do sistema de transporte público. Por pressão da sociedade, a prefeitura contratou uma auditoria que encontrou, por exemplo, que as margens de lucro dos concessionários eram extremamente elevadas. Por isso um dos elementos que entraram na nova concorrência foi a diminuição dessas margens, de 15% para menos de 10%.

O edital para novas concessões deveria ter saído ainda em 2013, mas o Tribunal de Contas do Município (TCM) bloqueou a licitação, apontando várias irregularidades, entre elas o fato dos contratos terem duração de 20 anos. Para efeito de comparação, em Londres, por exemplo, a licitação do transporte público é feita por lotes – e não a cidade toda de uma vez –  e a cada cinco anos, o que dá muito mais controle sobre a qualidade do serviço, além de poder ir incorporando inovações. Quando finalmente o TCM liberou a licitação, a cidade já se encontrava sob a gestão Doria, também interessada em reduzir o prazo da licitação. Mas foi essa questão, principalmente, que acabou segurando novamente a licitação, já que isto requereria uma alteração de uma lei pela Câmara Municipal. A resistência a esta alteração de prazo, provavelmente por pressão dos atuais concessionários do serviço, se reflete no texto do edital lançado nesta semana pela gestão Bruno Covas, porque voltou para 20 anos o prazo de vigência dos contratos. As críticas não se encerram aí: o edital favorece muito os atuais concessionários, pois elas possuem garagens próprias, e novos concessionários teriam que pagar pela desapropriação para poder instalar as suas.

Por outro lado, o edital lançado esta semana prevê um corte muito menor no número de linhas de ônibus, se compararmos esta com a primeira proposta apresentada ainda na gestão de Doria, em dezembro do ano passado. Em consulta pública por 75 dias, o texto recebeu 8.500 questionamentos, afirma a SMT, e dentre as queixas, 92% estavam relacionadas à extinção de linhas. Foi novamente, portanto, por pressão da sociedade, que esta mudança ocorreu.

Esse assunto foi tema da minha coluna “Cidade para Todos”, na Rádio USP. Ouça aqui.

FAUUSP 70 anos: a arquitetura, o urbanismo e o design brasileiros

Na semana passada, foi inaugurada a exposição FAU 70 anos no Centro Cultural Maria Antonia que registra e celebra a trajetória da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAUUSP). Nela, é possível acompanhar uma linha do tempo que vai da criação da escola, em 1948, até os dias de hoje, ressaltando momentos marcantes deste percurso. A linha inicia com o período de funcionamento da escola na Vila Penteado, um palacete residencial localizado no bairro de Higienópolis, projetado no início do século XX e doado à USP nos anos 1930. Ali foi criado um curso de arquitetura e urbanismo a partir da combinação da tradição da engenharia politécnica e das belas artes. A história continua com a mudança do curso para a Cidade Universitária, em 1969, para ocupar o edifício de autoria de Vilanova Artigas que, ao mesmo tempo, era uma escola e um projeto de ensino. A linha do tempo também ressalta as reformas curriculares de 1962 e 1968, que definiram projeto pedagógico presente até os dias de hoje, no qual a arquitetura se define como espaço intelectual de convergência das artes, das humanidades e das técnicas. Esta estrutura curricular incorporou, progressivamente, e de forma pioneira o ensino do urbanismo, do desenho industrial, da programação visual e do paisagismo.

O relato também percorre os anos 1970, quando é criada a pós-graduação em arquitetura e urbanismo, cujo programa de doutorado foi o primeiro e até 1998, o único nesta área no Brasil . Os anos 1970 foram também marcados por uma intensa atividade de resistência cultural e política contra a ditadura militar – que tem na enorme fotografia do Salão Caramelo inteiramente tomado por uma assembleia estudantil seu ícone mais forte. A exposição também destaca a expansão e consolidação dos espaços de pesquisa nos anos 1980; a construção de um edifício anexo para abrigar os laboratórios de modelos e ensaios, gráfica e audiovisual, e a construção de um canteiro experimental, que, nos anos 1990, concluem não apenas o conjunto de edificações, mas também o de práticas de ensino na escola. Já neste século a criação do curso de graduação em design e, posteriormente, de sua pós-graduação, bem como a implementação do primeiro programa de residência em urbanismo e a introdução das cotas para alunos de escolas públicas, pretos, pardos e indígenas,completam esse panorama.

Percorrer o espaço da exposição é entrar em contato com uma produção ampla e diversa, “da colher à cidade”, como definia Walter Gropius a proposta de ensino da Bauhaus, uma das fontes de inspiração do modelo de ensino da FAU: a busca por uma formação que permita a atuação em várias escalas e suportes.Uma formação humanista, com amplo espaço para a experimentação artística e a busca por excelência acadêmica.

Para além da produção individual de seus professores, alunos e ex-alunos – reconhecidamente profícua e diversa –, nestes 70 anos a FAU se destaca por sua contribuição fundamental à produção de conhecimento e a própria configuração dos campos da arquitetura, do urbanismo e do design brasileiros. Uma dessas contribuições, particularmente, foi a associação de uma escola, no sentido prático de um estabelecimento de ensino, com uma “escola”, corrente de pensamento dentro da arquitetura. Trata-se da chamada Escola Paulista ou Brutalista de Arquitetura Moderna, grupo de arquitetos e pensadores da arquitetura brasileira que constituiu, a partir dos anos 1950, um movimento no interior do modernismo. O prédio da FAU, projetado por Vilanova Artigas, no campus Butantã da USP, é uma das principais expressões e inspirações dessa escola.

Mas, talvez, uma das características mais relevantes da FAU seja sua enorme capacidade de renovação e reinvenção no presente. Não se trata, portanto, de um movimento “do passado”, do extinto século XX, com suas promessas de modernidade, mas de um léxico – e também, eu diria, de uma ética que se reatualiza diante dos desafios do presente.

Para além dos elementos construtivos e de linguagem, quero chamar a atenção aqui para outra característica central da Escola Paulista: a relação da arquitetura com o urbanismo ou do edifício com o lote e a cidade. A reflexão e debate sobre cidade – e seu planejamento – está presente desde o projeto inicial de criação da FAU com a proposta de organização de um Centro de Pesquisas e Estudos Urbanísticos (CEPEU), instalado em 1955 e dirigido por Anhaia Melo entre 1957 e 1961. Até o início dos anos 1970, quando foi extinto, o CEPEU mantinha um vinculo com o projeto acadêmico da escola mas também envolveu-se em assessorias diretas para municípios paulistas. A extinção do CEPEU marca o fim da existência de um escritório de planejamento urbano dentro da escola, mas de forma alguma elimina a presença da FAU nas discussões, elaboração – e implementação – de políticas públicas –e forma que sua trajetória é indissociável da história do planejamento urbano e das políticas habitacionais na cidade de São Paulo e no Brasil.

Também destaco, na trajetória da FAU, a própria constituição de um pensamento no campo do design e de seu ensino, que tem suas origens no início dos anos 1960 no Brasil, com a criação da Escola Superior de Desenho Industrial no Rio de Janeiro, mas também com a introdução dos então denominados cursos de “desenho industrial” dentro da grade curricular obrigatória na FAUUSP. Decisão estratégica tomada na reforma curricular de 1962, os professores de DI, pioneiros e autodidatas, investiram em suas próprias especializações fora do país para poder oferecer esta formação na escola.

Poderiamos apontar ainda varias outras decisões estratégicas tomadas pela escola – como a criação da sequencia de paisagismo, o investimento na estruturação da pesquisa acadêmica através da organização de laboratórios e grupos de pesquisa, a incorporação de um espaço de experimentação de processos construtivos. Estes são apenas alguns elementos que não apenas mesclam a história da FAUUSP com a própria história da arquitetura, urbanismo e design brasileiros como também desafiam a septuagenária FAUUSP a se reinventar – como o fez , em diversos momentos, com a participação de docentes, discentes e funcionários , sem jamais perder sua raiz humanista, pluralista, e profundamente comprometida com a cidade e o país.

 

Esse assunto foi tema da minha coluna “Cidade para Todos”, na Rádio USP. Ouça aqui.