Eleições 2018: invisível nas ruas, insidiosa nas redes

A campanha eleitoral está chegando ao fim e, se há um consenso sobre ela, é de que esta foi uma campanha muito diferente das demais. Em 2018, nada de faixas, placas e bandeiras pelas ruas, nada de camisetas, de adesivos de carros, de cartazes nas casas… Uma campanha invisível, ausente do espaço público, mas onipresente nos subterrâneos do espaço digital.

Não é de hoje, e não começou em 2018, o desaparecimento das campanhas políticas do espaço público das ruas das cidades. Na verdade, desde o final dos anos 1990, auge dos showmícios e guerra de santinhos, a legislação eleitoral tem limitado esta presença, inicialmente em nome do combate à poluição visual e sonora e garantia da tranquilidade dos cidadãos.

Desde 1997, por exemplo, já havia regulação limitando o tamanho de cartazes ou faixas. Em 1999 entrou em vigor a lei que proibiu eventos com apresentação de artistas populares contratados. E foi com a Lei 13.488 de 6 de outubro de 2017, que  os outdoors foram proibidos e os procedimentos de limitação da presença visual nos  logradouros públicos ainda mais detalhados. Particularmente no caso da cidade de São Paulo, estas limitações também vieram de encontro com a Lei Cidade Limpa, que já vigora desde 2006, e que regula a publicidade exterior e que, no caso da capital paulistana já havia proibido outdoors e faixas.

Mas a legislação de 2017 também incorpora outro elemento: em função principalmente da Lava Jato e outras investigações criminais em relação ao papel do financiamento de campanhas por parte de empresas com grande interesse em contratos com os governos, o controle de material impresso e da exposição pública das mensagens publicitárias das campanhas também passa pela identificação e controle de quem financiou. Gráficas e agências de publicidade tiveram seus orçamentos reduzidos, com a vedação da contribuição empresarial. A intenção da legislação neste caso era, entre outras, limitar o abuso do poder econômico nas campanhas.

O que é novo em 2018 é a migração completa da campanha eleitoral do espaço público para o território virtual. E, mais uma vez, esta ocupação é totalmente marcada pela presença do poder econômico, na medida em que a capacidade de distribuir informação neste espaço continua diretamente relacionada à quantidade de recursos financeiros disponíveis. O impulsionamento de conteúdos não é gratuito e custa caro. E fortunas de pessoas físicas, inclusive pessoais, no caso de alguns candidatos, viabilizaram operações massivas de impulsionamento, poluindo o espaço virtual.

O caso da compra de pacotes de redes de WhatsApp por empresários apoiadores de Bolsonaro foi o exemplo mais gritante. Invisível no espaço público, no escurinho do celular, o poder econômico surfou sem controle, nem norma, sob o olhar conivente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ocupadíssimo em controlar cada CNPJ ou CPF impresso em santinhos que quase ninguém viu.

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Dia Mundial do Habitat: mais famílias morando nas ruas

Esta semana é celebrado o Dia Mundial do Habitat, data proposta pela agência da ONU para os assentamentos humanos para chamar a atenção de governos e cidadãos para a situação das cidades do mundo. Mas este ano a data foi ofuscada por outra celebração anual: o World Homeless Day, ou Dia Mundial dos… Moradores de Rua?

A definição precisa de quem são os “homeless” ou, na tradução literal “sem–lar”, já é controversa. A expressão é usada na America de Norte e Europa como aqueles que, não tendo onde morar, vivem nas ruas. Mas, entre nós, assim como em vários outros países do chamado Sul Global, morar nas ruas é apenas uma das faces de uma condição extremamente precária de morar. Por isto prefiro aqui me referir ao dia Mundial dos Sem-Teto.

Este ano, o fenômeno que vemos assinalado em vários países do mundo é o de aumento do número de pessoas sem teto, especilamente em países da America do norte e Europa. Esse número chega a mais de meio milhão de pessoas nos Estados Unidos, de acordo com a última contagem oficial, do início de 2017. Chama a atenção também no relatório norteamericano sobre o tema a mudança no perfil do morador de rua, que antes era composto majoritariamente de pessoas sozinhas, em sua maioria homens, mas atualmente embora ainda majoritário (60% do total) há um aumento muito significativo do número de famílias inteiras vivendo nas ruas.

Na Índia, quase 3 milhões de pessoas vivem nas calçadas. Mundialmente, ainda de acordo com a agência da ONU para assentamentos humanos, o total de pessoas vivendo sem teto é de 100 milhões, enquanto 1,6 bilhão vivem em moradias precárias.

No Brasil, se tomarmos o conceito de homeless de forma mais restrita, morador de rua, o Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) tentou em 2015 fazer uma estimativa nacional e chegou ao número de 100 mil pessoas vivendo nesta condição, concetrados sobretudo nas grandes cidades. Mas o próprio Ipea e todos os que trabalham com o tema apontam para um outro problema, que é a invisibilidade e a dificuldade de apreender claramente esse fenômeno. Não há contagem, não há estatística, o censo tem uma enorme dificuldade de lidar com essas situações de transitoriedade, não fixadas num lugar, tornando as pessoas não vistas, não contadas. E por não serem vistas, nem contadas, não há políticas públicas dirigidas para elas de forma sistemática.

Entre nós também já é visível a presença de famílias inteiras, inclusive com crianças ocupando as calçadas, sem ter onde morar. Não é por acaso que, nesse momento, numa conjuntura internacional em que cresce a concentração da renda e explodem os preços imobiliários, aumenta o número de sem-teto. Trata-se do retrato também da falência das “políticas de habitat”, incapazes de oferecer alternativas de moradia para todos os segmentos sociais.

#elenão vai muito além de Lula, PT e esquerda

(NELSON ALMEIDA/AFP/Getty Images)

Não por acaso imediatamente após as  manifestações convocadas por mulheres no dia 29/10  assistimos a um verdadeiro ataque de interpretações, que procuraram inclusive, relacioná-las à possível subida de Bolsonaro nas pesquisas subsequentes.

Três foram estas estratégias: ignorá-las e residualizá-las, caracterizá-las como expressão de uma “elite branca de esquerda”  e defini-las como atos disfarçados pró PT. Uma última também foi largamente utilizada nas redes: a caracterização dos atos como expressão de mulheres e LGBTT “degenerados”. Esta última não merece nossos comentários e refutações. As anteriores sim. Inclusive porque seu efeito foi claramente a  deslegitimação de um movimento – e portanto uma reação à sua potência transformadora.

A primeira estratégia largamente utilizada pelos grandes meios de comunicação: os atos, quando apareceram na grande mídia, não revelaram sua extensão. Vamos então a eles, considerando só as cidades brasileiras em ocorreram atos. O levantamento feito por  Jonas Medeiros, pesquisador do Cebrap (Centro Brasileiro de Pesquisa para o Planejamento), que partiu das convocações aos atos feitas no facebook, registrou manifestações em 290 cidade através de sua rede. Já o levantamento da Mídia Ninja, checado através de fotografias e vídeos enviados por sua rede, chegou a 358 cidades.

Ainda que utilizem metodologias diferentes, ambos os estudos mostram pontos de convergência. Em primeiro lugar, a extensão, porque as manifestações aconteceram nos 27 estados brasileiros. Depois, num segundo fenômeno que chamou muito a atenção, o fato de terem ocorrido manifestações em cidades de todos os tamanhos. Aconteceram, por exemplo, em 78 municípios com população de até 50 mil habitantes, incluindo – fenômeno incomum no cenário das manifestações de rua – em cidades de três, quatro, cinco mil habitantes.  

Além disso, houve manifestações em todas as cidades com mais de 500 mil habitantes, incluindo não apenas as capitais, mas cidades dos pólos regionais e do interior do país. O estado de São Paulo foi o campeão no número de manifestações, que aconteceram em 59 cidades, seguido por Minas Gerais, com 43, e pelo Rio Grande do Sul, com 27. O mapa aqui postado revela esta extensão – aqui estão mapeados apenas 294 cidades e certamente houveram mais. Apenas os grupos, cuidadosos, ainda não tiveram tempo de acabar o levantamento e checagem. Ou seja, ao contrário do noticiado, trata-se de um movimento extenso e absolutamente espalhado pelo país.

O segundo argumento, amplamente noticiado pelos meios de comunicação, de que se tratava de um ato da “elite branca de esquerda”, foi baseado no levantamento feito pelo professor Pablo Ortellado, da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da Universidade de São Paulo, este cobrindo apenas a cidade de São Paulo. Examinando os dados divulgados pela equipe do Ortellado, infelizmente não é possível corroborar com sua interpretação: apenas 25% dos participantes (e isto em São Paulo apenas!) ganham mais de 10 salários mínimos, e o percentual de  pretas e pardos que compareceram ao ato foi de 30%, o que corresponde a aproximadamente a participação deste grupo na população da cidade de São Paulo. Ou seja, olhando para os dados de sua pesquisa, a composição racial do ato corresponde aproximadamente à composição racial da cidade.

Finalmente, uma narrativa que circulou fortemente nas redes sociais, procurando canalizar a percepção do ato para o anti-petismo, que desde o impeachment da presidente Dilma  tem sido um dos pilares da construção de um movimento de massas contra as agendas identificadas como “de esquerda”, foi a leitura de que se tratou de um ato de “petistas”.

Novamente aqui recorremos aos números apresentados pela pesquisa de Pablo Ortellado para contradizer esta narrativa: a pesquisa mostra que  apenas um terço dos manifestantes do dia 29/09 são militantes ou. simpatizantes do PT . Estávamos presentes simpatizantes de um amplo espectro partidário e, inclusive,  20% dos quais não simpatizam nem se identificam com nenhum partido político.

Ao observar as fotos e vídeos dos atos que circularam no facebook é possível identificar que se tratou de um ato predominantemente feminista, agregando mulheres e homens que consideram que é necessário defender valores como a não discriminação por raça, gênero, a igualdade perante à lei, o uso dos meios legais no Estado de Direito para lidar com os conflitos, a paz e a não-violência.

É  justamente esta agenda que se quer calar nas leituras deslegitimadoras e reducionistas.  Para que a construção de uma alternativa baseada na construção de um bode expiatório (o PT, a “esquerda”) associado a uma máquina de guerra possa triunfar. Isto se chama fascismo. E sabemos como e onde pode terminar.

Eleições 2018: nossas cidades pedem socorro

Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Com estas palavras, o Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Brasil (CAU) e o Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB) iniciam o texto de uma Carta Aberta aos Candidatos nas Eleições de 2018 pelo Direito à CidadeResultado do “Seminário Nacional de Política Urbana: por cidades humanas, justas e sustentáveis”, que em julho reuniu arquitetos e urbanistas em São Paulo, o documento é extenso, contendo 53 propostas, estruturadas em três  eixos: um projeto nacional baseado (1) na territorialização das políticas, (2) governança urbana inovadora e (3) democratização da gestão.  

No campo da territorialização, o que temos hoje são iniciativas num formato único, desconectadas entre si, e específicas para a construção de casas, transporte coletivo, e saneamento, por exemplo. No lugar disso, políticas e programas que considerem a diversidade e a especificidade de cada região, a integração em cada território, que ofereçam assistência técnica gratuita para projetos de construção de habitações de interesse social.  

Em relação ao tema da governança, o documento reforça a necessidade da descentralização na definição e na execução das políticas, propõe o fortalecimento do Ministério das Cidades e o restabelecimento do Conselho Nacional das Cidades.  

Em relação ao tema da gestão, o documento assinala que  é preciso avançar no sentido de garantir que os governos locais sejam mais  fortes, autônomos, transparentes e democráticos, ampliando os mecanismos de controle social por parte da sociedade.  

O documento afirma também a necessidade de revisão da Lei de Licitações, especialmente na incorporação por parte desta legislação de poder contratar obras sem que os projetos tenham sido previamente detalhados. Desde as obras para preparação das 12 capitais que sediaram a Copa do Mundo 2014 e as Olimpíadas 2016, o Estado recorre ao regime direto de contratação de empreiteiras. Dessa forma, o poder público pode  contratar obras, sem que haja apresentação prévia de um projeto detalhado.

Incluída em nome da “celeridade” nos processos de contratação públicos, tema de fato relevante, a adoção deste mecanismo entrega para as empreiteiras as definições do que se fará nas cidades. A Carta Aberta aposta na direção contrária: cidades planejadas e projetadas, de forma solidária e inclusiva, como um dos pilares da necessária construção democrática do país.

Confira em detalhes as 53 propostas da Carta Aberta:

1. Projeto nacional baseado na territorialização das políticas públicas

  • Assegurar investimentos massivos em infraestrutura urbana e em serviços públicos e sociais nas periferias;
  • Criar uma política habitacional por meio de programas diversos, inclusive locação social;
  • Fomentar o uso da Lei de Assistência Técnica Pública e Gratuita para o Projeto e Construção de Habitações de Interesse Social;
  • Retomar os programas de urbanização de favelas;
  • Investir em segurança pública associada às políticas de desenvolvimento urbano inclusivo;
  • Investir na ampliação, integração e qualificação da rede de transporte público de massa de forma integrada à produção de moradia social;
  • Criar o Fundo Nacional de Desenvolvimento Urbano Integrado visando articular os recursos para as regiões metropolitanas;
  • Valorizar os centros históricos, adotando políticas ambientais e culturais que preservem seu patrimônio; estimulando o uso de imóveis e terrenos ociosos; promovendo a mobilidade urbana não-motorizada e a qualificação dos espaços públicos;
  • Democratizar o acesso ao crédito imobiliário para possibilitar a atuação de pequenos empreendedores tecnicamente habilitados;
  • Promover o apoio técnico para o planejamento das cidades médias em processo de crescimento demográfico;
  • Fomentar a produção da agropecuária familiar e a pesca para fortalecer as pequenas cidades;
  • Enfatizar a dimensão ambiental no planejamento urbano e territorial a partir dos ecossistemas nacionais e suas especificidades;
  • Investir na ampliação e qualificação da rede ferroviária e hidroviária visando maior integração do território nacional.

2. Governança urbana inovadora

  • Garantir a autonomia técnica do Ministério das Cidades;
  • Restabelecer o Conselho Nacional das Cidades;
  • Descentralizar a definição e execução das políticas públicas para o desenvolvimento urbano, a partir de uma política nacional que possibilite a incorporação de políticas regionais e locais para garantir a sua efetividade;
  • Revisar a Lei de Licitações com o objetivo de garantir uma maior transparência na contratação de obras públicas;
  • Cumprir as metas previstas da Agenda 2030, especialmente o Objetivo 11 (“tornar as cidades e os assentamentos humanos inclusivos, seguros, resilientes e sustentáveis”).

3. Democratização da gestão dos territórios, em especial

  • Fortalecer o governo local das cidades, que deve prevalecer, sem prejuízo do desenvolvimento regional e nacional;
  • Restabelecer e ampliar os mecanismos de participação popular nas decisões afetas às políticas públicas que tenha ação direta sobre o direito à moradia, ao transporte público de qualidade e à cidade;
  • Disponibilizar as informações de banco de dados georreferenciados e em formato aberto, democratizando o acesso e possibilitando a análise pela sociedade.

Eleições 2018: por um Congresso que nos represente  

Foto: Mulheres Negras Decidem

Para além das enormes perplexidades e desafios envolvidos nesta eleição, uma das questões centrais presentes neste pleito é a dimensão  sentida e expressa claramente entre nós, brasileiros e brasileiras, de que os nossos representantes “não nos representam”.

Há varias formas de pensar o tema da representatividade dos mandatos políticos. Uma delas – talvez a mais simples – é examinar os indicadores demográficos, e imediatamente constatar que alguns grupos específicos, como as mulheres, mas também negros e negras,  são muito sub-representados no nosso Congresso.

As mulheres são hoje 10% dos congressistas, apesar de compor mais de 50% da população;  negros e negras, que são 53% da população, são também apenas 10% dos congressistas, incluindo Câmara dos Deputados e  Senado. Destes, o grupo mais sub-representado é o das mulheres negras: com a licença de Benedita da Silva, pioneira na cena política, atualmente deputada federal eleita no Rio de Janeiro, e exercendo mandato pelo Partido dos Trabalhadores, mulheres negras constituem 0,4% do Congresso, apesar de serem quase um quarto da população brasileira total.

Quais as razões da sub-representação destes grupos? Será que mulheres, negras e negros não se candidatam a cargos eletivos? É interessante observar que, neste pleito, assim como nas eleições de 2016 e 2014, quase metade das candidaturas foram apresentadas por negras e negros. A presença de mulheres candidatas também é alta. Porém, apesar de haver tantas candidaturas, são muito poucos os eleitos e eleitas destes grupos, majoritários na população, mas minoria no comando político.

As razões para isto estão diretamente relacionadas às marcas da desigualdade, que impactam  várias dimensões da vida social e econômica  – por exemplo mulheres ganham menos que homens, negros ganham menos que brancos, e mulheres negras  menos do que mulheres brancas. Esta marca está presente também na distribuição dos recursos da política. Nos partidos, assim como na vida, homens brancos concentram os recursos necessários para estruturar as campanhas. Isso somado à exiguidade de recursos pessoais das candidatas e candidatos em eleições. O que reforça que quem tem o poder econômico tem também grande poder de comando.

Entretanto, não necessariamente a presença de mulheres, negros e negras, com mandatos políticos no Congresso traz  para dentro dos espaços de poder institucional as pautas e agendas específicas destes grupos. Por tanto, para além da representatividade, existe uma outra questão, que é da representação. Aí reside talvez um fenômeno mais novo e potente do nosso cenário político: nesta eleição temos uma presença mais marcante de candidatos e candidatas cujas campanhas estão centradas nos temas do feminismo, negritude, racismo, misoginia, e que claramente identificam seus mandatos com estas pautas.

Particularmente importante a presença de um grande grupo de  candidatas negras que vêm das periferias e das favelas de Belo Horizonte, São Paulo, Rio de Janeiro, Fortaleza, Recife, entre outras cidades,  comprometidas com o feminismo negro, com a luta ontra o racismo e as pautas ligadas aos direitos humanos e ao direito à cidade, uma vez que estes são temas indissociáveis. O assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL-RJ), na noite de 14 de março, e portanto nesta sexta-feira completando seis meses sem resposta, quando saía de um evento no qual discutiu negritude, representação e feminismo, foi sem dúvida um dos detonadores da ampliação desta presença no cenário político. Sua morte, marcada pela violência política, racismo e misoginia, ao invés de apavorar as mulheres, levantou um espírito “do luto à luta”, e contribuiu para o lançamento de muitas Marielles neste pleito.

Estas são mulheres que viveram literalmente  na pele a violência, a exclusão, que passaram pelo mundo da arte, da cultura, da educação e sairam de uma posição de humilhação para uma ação ativista, lançando-se corajosamente na esfera pública. São elas  –  assim como as feministas, os negros e LGBTT – que, quando eleitos, vão mudar o país.

Para quem quiser estas conhecer estas candidaturas, sugiro aqui alguns sites aonde se pode encontrá-las. Mulheres negras comprometidas com sua representação: Mulheres Negras Decidem, do Rio de Janeiro; As Muitas, de Belo Horizonte. Para as candidaturas femininas e feministas, Ela Candidata e Campanha de Mulher. Para as candidaturas comprometidas com a pauta LGBTT #votelgbt. Não encontramos sites que registram as candidaturas de negros.

Smart cities, possibilidades e pesadelos para a democracia

foto: Arvin Febry @arvinfebry

Todo o marketing em torno das smart cities, as tais cidades inteligentes (e há muito marketing, porque por trás delas estão grandes corporações vendendo tecnologia para os governos municipais) fala em cidades humanas e democráticas, a partir da possibilidade de interação do cidadão com o governo e de como essa interação pode promover melhoria da qualidade de resposta das políticas públicas às pessoas.

Entretanto, o que estamos vendo é diferente. A chamada mineração de dados garante o marketing segmentado, ou seja, a partir do percurso do usuário da internet pela rede, é possível descobrir suas preferências e assim, se apropriando (sem pagar para nós!) dos dados que produzimos, as empresas nos bombardeiam com propagandas específicas. Todos já devem ter vivido isto ao, depois de procurar alguma coisa na internet, passa depois  semanas recebendo propaganda daquela coisa. Se já se trata de uma apropriação de dados privados de muitos para os negócios de poucos, é ainda mais problemático se entram também nestes sistemas a disponibilização e articulação com os sistemas públicos de informação, como os dados policiais, judiciais e outros. E isto já começou a acontecer na China.

O governo central chinês lançou um grande plano em 2014 para criar um sistema centralizado de “crédito social” até 2020. Este sistema  articula os dados que os cidadãos produzem no seu comportamento cotidiano com os dados que o governo tem a respeito deles. É um sistema de pontuação, e quem assistiu a série Black Mirror sabe muito bem do que estamos falando –  a ficção se tornando realidade. Este sistema coleta dados sobre a honestidade que as pessoas têm em relação aos programas governamentais( por exemplo se tem multas de trânsito ou não, se deve impostos ou não) , a integridade comercial (capacidade de pagar suas dívidas), social (não se envolver em brigas, bebedeiras, não ter amigos perigosos), jurídica (qualquer passagem na policia ) para criar um sistema de pontuação que pune os desviantes e gratifica os normalizados.

Desde 2015, de forma experimental, oito companhias estão trabalhando nestes sistemas. Através de aplicativos como o Sesame Credit ou o Honest Shanghai, as pessoas são pontuadas e, dependendo dessa pontuação, elas podem ser bloqueadas quando reservam um quarto de hotel, impedidas de acessar certos empregos e até mesmo seus filhos impedidos de se matricular em escolas.

Na  Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU/USP), vários estudantes e professores  tem se debruçado de forma crítica sobre os riscos que essas estratégias, aparentemente visando construir cidades humanas e democráticas, aprofundem os mecanismos de vigilância e promovam mais segregação. Quem tem interesse pode acompanhar pelo menos dois trabalhos recentemente produzidos, um o vídeo Smart, produzido pelo aluno Andre Deak, como parte da disciplina da professora Giselle Beiguelman, e outro assinado pelo mestrando Gabriel Figueiredo, sob orientação do professor Artur Rozenstraten, chamado Cidades inteligentes no contexto brasileiro: a importância de uma reflexão crítica.

Ocupações crescem também na extrema periferia de São Paulo

A verdadeira explosão no número de ocupações em imóveis vazios na área central, tema que emergiu no debate público a partir do incêndio e desabamento de um edifício ocupado, tem acontecido também nas extremas periferias de São Paulo, sobretudo nas zonas leste, norte e sul da cidade. Os motivos são, primeiro, um aumento vertiginoso nos preços de terrenos desde 2006, impulsionado pelo boom imobiliário e aumento da disponibilidade de crédito na cidade, desacompanhado de qualquer política fundiária e medida de regulação.

Entre 2006 e 2013, embora os salários e rendimentos dos mais pobres tenham crescido na cidade, os preços de imóveis e aluguéis cresceram em um ritmo muito mais intenso. Em seguida, principalmente a partir de 2014/ 2015, um agravamento da crise econômica, com crescimento do desemprego e diminuição da trajetória de melhoria das condições salariais, agravou ainda mais este descompasso.

Resultado: cada vez mais gente não tem a mínima condição de pagar aluguel.

Mas se em São Paulo essa já é uma característica histórica, as políticas públicas de moradia infelizmente contribuem para que o problema não apenas não seja resolvido, ou enfrentado, mas piorado. As estratégias de atendimento às famílias que mais precisam são escassas, e o programa  Minha Casa, Minha Vida, única alternativa presente na cidade,  está completamente interrompido, especialmente na modalidade voltada para as faixas de renda mais baixas.

E o quadro se agrava mais com a operação de remoções conduzida pelos governos municipal e estadual. Sabemos, por exemplo, que as ocupações precaríssimas que estão nos terrenos da franja norte da cidade, sobretudo a região de Taipas, Brasilândia, são em sua maioria constituídas por pessoas que foram removidas dos assentamentos em que viviam para a construção do Rodoanel, e que  não receberam nenhum tipo de oferta de moradia definitiva digna. 

Outras ocupações precaríssimas de terrenos vazios também podem ser observadas nos extremos norte e sul da cidade.

De acordo com o Observatório de Remoções da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU/USP), apenas no ano de 2017, 14 mil famílias foram removidas de suas casas, e há pelo menos outras 30 mil ameaçadas de despejo por morar no perímetro de obras públicas. Como resultado, a população mais pobre está ameaçada de viver permanentemente na transitoriedade.

É o caso de algumas famílias que estão na ocupação Douglas Rodrigues, na Vila Maria, famílias que já passaram por oito remoções, e que hoje, estando a ocupação novamente sob ameaça, caso esta se concretizar , sofreriam a nona remoção. É um quadro de vulnerabilidade extrema, porque moradia é também um lugar basicamente a partir do qual as pessoas, sobretudo as mais carentes, estabelecem uma rede de proteção e sobrevivência.

Esse assunto foi tema da minha coluna “Cidade para Todos”, na Rádio USP.  Ouça aqui.

Leia também: Ocupações irregulares são regra, não exceção e Como surge uma ocupação.