Ocupações crescem também na extrema periferia de São Paulo

A verdadeira explosão no número de ocupações em imóveis vazios na área central, tema que emergiu no debate público a partir do incêndio e desabamento de um edifício ocupado, tem acontecido também nas extremas periferias de São Paulo, sobretudo nas zonas leste, norte e sul da cidade. Os motivos são, primeiro, um aumento vertiginoso nos preços de terrenos desde 2006, impulsionado pelo boom imobiliário e aumento da disponibilidade de crédito na cidade, desacompanhado de qualquer política fundiária e medida de regulação.

Entre 2006 e 2013, embora os salários e rendimentos dos mais pobres tenham crescido na cidade, os preços de imóveis e aluguéis cresceram em um ritmo muito mais intenso. Em seguida, principalmente a partir de 2014/ 2015, um agravamento da crise econômica, com crescimento do desemprego e diminuição da trajetória de melhoria das condições salariais, agravou ainda mais este descompasso.

Resultado: cada vez mais gente não tem a mínima condição de pagar aluguel.

Mas se em São Paulo essa já é uma característica histórica, as políticas públicas de moradia infelizmente contribuem para que o problema não apenas não seja resolvido, ou enfrentado, mas piorado. As estratégias de atendimento às famílias que mais precisam são escassas, e o programa  Minha Casa, Minha Vida, única alternativa presente na cidade,  está completamente interrompido, especialmente na modalidade voltada para as faixas de renda mais baixas.

E o quadro se agrava mais com a operação de remoções conduzida pelos governos municipal e estadual. Sabemos, por exemplo, que as ocupações precaríssimas que estão nos terrenos da franja norte da cidade, sobretudo a região de Taipas, Brasilândia, são em sua maioria constituídas por pessoas que foram removidas dos assentamentos em que viviam para a construção do Rodoanel, e que  não receberam nenhum tipo de oferta de moradia definitiva digna. 

Outras ocupações precaríssimas de terrenos vazios também podem ser observadas nos extremos norte e sul da cidade.

De acordo com o Observatório de Remoções da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU/USP), apenas no ano de 2017, 14 mil famílias foram removidas de suas casas, e há pelo menos outras 30 mil ameaçadas de despejo por morar no perímetro de obras públicas. Como resultado, a população mais pobre está ameaçada de viver permanentemente na transitoriedade.

É o caso de algumas famílias que estão na ocupação Douglas Rodrigues, na Vila Maria, famílias que já passaram por oito remoções, e que hoje, estando a ocupação novamente sob ameaça, caso esta se concretizar , sofreriam a nona remoção. É um quadro de vulnerabilidade extrema, porque moradia é também um lugar basicamente a partir do qual as pessoas, sobretudo as mais carentes, estabelecem uma rede de proteção e sobrevivência.

Esse assunto foi tema da minha coluna “Cidade para Todos”, na Rádio USP.  Ouça aqui.

Leia também: Ocupações irregulares são regra, não exceção e Como surge uma ocupação.

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4 comentários sobre “Ocupações crescem também na extrema periferia de São Paulo

  1. Alem de insistir em resolver problemas ignorando as causas as políticas públicas fe habitação incorrem no erro de sempre: a uniformização de soluções para um país gigante e diverso como o nosso.

    Outro erro é ignorar a capacidade de produção de água das cidades. Nas grandes metrópoles essa capacidade encontra-se esgotada ou perto do limite. São Paulo já extrapolou sua capacidade há muito tempo. Hoje, a disponibilidade de água per capita no estado é da ordem de 2,2 m3/habitante. Igual à de Pernambuco no semi-árido nordestino. Porém em nome da campanha essa realidade costuma ser omitida nos discursos eleitorais.

    E por último vem a questão ambiental. As invasões e ocupações ocorrem em áreas ambientalmente protegidas. Um verdadeiro estupro da lei consumado por líderes que organizam essas invasões. Mas não só eles. O crime organizado já instalou-se nessas frágeis regiões loteando e vendendo terras públicas ou abandonadas e cobrando taxas das famílias. Some-se a esse quadro desolador as milhares de famílias que constroem por conta própria suas moradias agredindo ainda mais o já fragilizado meio ambiente. E para piorar, vem o poder público construindo hospitais de grande porte ou equipamentos como CEUs, induzindo a população à ocupação e adensamento de bairros ainda em formação. Mais tarde esses novos bairros exigirão mais equipamentos como asfalto, saneamento transporte, escolas, etc que são o insumo de políticos oportunistas. A cidade não importa.

    É assim que a mancha urbana vem crescendo. Mas ainda há quem acredite que as soluções estão aqui mesmo. Basta destinar bilhões para mitigá-los retroalimentando a espiral de crescimento da cidade.

    Como tenho dito, a solução para o problema da moradia em SP passa por uma visão sistêmica de país. Até agora, nenhum dos candidatos tem essa percepção

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