Zezéu: no céu, os anjos vão votar em você

Cercado de gente, no meio da cantoria, no movimento, tendo a seu lado sua amada Lola. Assim era Zezéu Ribeiro em seu elemento… Nunca a sisudez nem a empáfia do político engravatado, nem a arrogância do dirigente partidário poderoso,  Zezéu fez política, construiu seu  partido, o PT da Bahia, foi parlamentar e Secretário porque gostava de gente, porque acreditava que seria possível mudar o Brasil, porque amava as cidades.

Arquiteto de formação, se engajou em todos os fronts de luta pela reforma urbana por onde passou, defendendo a moradia popular e o direito à cidade.

Não esqueço o dia em que o conheci. Visitando a Câmara Municipal de Salvador, nos anos 1990, perguntei na portaria onde era seu gabinete de vereador. Um senhor grisalho abriu um sorriso e disse: “minha filha, é fácil, veja aí uma porta com um bocado de coisas grudadas, é lá mesmo”.  Quando entrei, lá estava ele cercado de “causas” – de terreiros de candomblé que lutavam para não perder suas casas a professores brigando por melhores condições de ensino, de grupos que resistiam a mais uma demolição de um casarão do séc XVIII a movimentos então nascentes por moradia.

Hoje, dia em que choro sua morte, me lembro da última vez em que nos encontramos. Foi em Salvador, em 2012, quando Zezéu era Secretário de Planejamento do Estado da Bahia e eu Relatora da ONU para o direito à moradia visitando as cidades sede da Copa do mundo, preocupada com as remoções. Tomei um susto: não conseguia ver no meu querido amigo a alegria e gaiatice que eu conhecia, não encontrava o brilho no olhar que dava esperança a seus interlocutores, conclamando-os a segui-lo. Saí triste de nosso encontro. Sei que Zezéu já lutava há anos com uma condição débil de saúde, mas sei também o quanto os últimos anos foram de desilusões políticas duras.

Agora Zezéu começa sua mais nova campanha no céu. Já vejo ele sentado, no meio das nuvens, falando para algum anjo que acaba de passar por ali: “ó, menino,  chame aqui pra mim aquele pessoal que está sem casa, vamos ver como podemos dar um jeito nisso”. E em pouquíssimo tempo, lá estarão os anjos entoando, em coro: “Zezéu , vou votar em você”.

Severiano Porto, uma arquitetura do lugar, em extinção

Na semana passada, dia 19 de fevereiro, o arquiteto Severiano Porto completou 85 anos. Nascido em Minas Gerais, viveu grande parte de sua vida entre o Rio de Janeiro, onde se formou arquiteto nos anos 1950, e Manaus, onde desenvolveu as grandes obras que o projetaram internacionalmente e que o levaram a ser conhecido como “o arquitetoda Amazônia”.

Nesses tempos de uma arquitetura de linguagem internacional padronizada, sem qualquer vínculo com os lugares onde os projetos são implementados, em que muitas vezes não conseguimos identificar se estamos em Miami, no meio do deserto em Dubai ou nos manguezais da Cidade do Panamá, a obra de Severiano Porto merece ser lembrada porque é justamente o oposto disso: uma arquitetura com fortes elementos regionais, relacionados à cultura ribeirinha, e ao mesmo tempo com linguagem modernista e técnica contemporânea.

A madeira, por exemplo, é um material que tem forte presença nas obras do arquiteto. Imagine que hoje, em plena Amazônia, a Caixa proíbe nos projetos de habitação social do Programa Minha Casa Minha Vida a utilização desse material. Aliás, os conjuntos habitacionais do programa são um bom exemplo de uma arquitetura produzida em série, um carimbinho que se reproduz em qualquer cidade do país, sem qualquer relação com o ambiente do lugar.

De alguns anos para cá, infelizmente, algumas obras de Severiano Porto em Manaus já foram demolidas, outras certamente estão sob ameaça. Um exemplo é o Estádio Vivaldo Lima, um dos primeiros trabalhos do arquiteto, derrubado após 40 anos para dar lugar à Arena da Amazônia, um dos estádios da Copa do Mundo e outro exemplo de arquitetura do não lugar. Além do estádio, já foram demolidos também um restaurante e a casa onde o arquiteto morou antes de voltar definitivamente para o Rio de Janeiro, onde vive hoje. Não faz muito tempo li que o Centro de Proteção Ambiental da hidrelétrica de Balbina, um dos mais belos projetos do arquiteto, está em ruínas…

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Foto: Marcos Costa (https://marcosocosta.wordpress.com). Centro de Proteção Ambiental de Balbina.

São obras de Severiano Porto o campus da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), a sede da Superintendência da Zona Franca de Manaus (Sufram), o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa); a sede do Banco do Estado da Amazônia, o campus da UNAMA (em Belém), entre muitas outras, incluindo restaurantes, pousadas, parques. A cidade de Manaus, seus moradores e todos os brasileiros devem se orgulhar desse legado… e lutar para preservá-lo. *Texto originalmente publicado no Yahoo!Blogs.

Crise no metrô: o que não foi dito

Desde que começou a operar, em 2011, a linha 4-amarela do metrô de São Paulo tem sido avaliada por muitos como um exemplo de sucesso de parceria público-privada (PPP). O que temos lido na imprensa nas últimas semanas, porém, é motivo para colocar uma pulga atrás da orelha: obras paradas, estações atrasadas, ameaças de rescisão contratual, consórcio culpando o governo, governo culpando o consórcio…

Se o contrato com o consórcio Isolux Córsan-Corviam for mesmo rescindido e outra licitação tiver que ser realizada, as obras das estações Higienópolis-Mackenzie, Oscar Freire, São Paulo-Morumbi e Vila Sônia provavelmente só serão reiniciadas em 2016.

Afinal, qual o problema dessa PPP? Por que um projeto cujas obras foram iniciadas em 2004, com prazo inicial de entrega em 2009, talvez venha a ser concluído somente em 2018?

*Leia coluna completa no site da Folha.

Desastres não são naturais

Em comemoração aos seus 94 anos, a Folha de S. Paulo convidou colunistas para opinarem sobre temas atuais, buscando pontos de vista distintos sobre cada assunto. Participei deste especial com um texto sobre a crise hídrica em São Paulo, que compartilho a seguir.

Resposta à pergunta: O governador Alckmin é culpado pela crise hídrica em São Paulo?

Sim

Pobre governador, como poderia prever uma seca tão grave como a que vem ocorrendo na  região metropolitana de São Paulo e outras áreas do Sudeste há pelo menos dois anos? De fato, este, como outros desastres ligados a fenômenos da natureza como terremotos e inundações não são controláveis, mas suas conseqüências, e, sobretudo, seus efeitos sociais e econômicos podem ser evitados ou, ao menos, minimizados.

No caso da atual crise hídrica, o governo do Estado de São Paulo é sem duvida o maior responsável não pela falta de chuva, mas pelos enormes danos que já estamos sofrendo a partir desta. Por quê?

O governo do estado é responsável pela política de saneamento, recursos hídricos e meio ambiente de São Paulo, além de ser ao mesmo tempo o regulador e maior acionista da Sabesp.

*Leia coluna completa no site da Folha.
* Veja nesta página todos os temas e opiniões.

Chuva, suor e… o patrocínio daquela marca de cerveja?

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Já se foi o tempo em que São Paulo ficava vazia e tranquila no período do carnaval. Há algunsanos, o carnaval da cidade está mudando, graças à presença de muitos blocos nas ruas, arrastando cada vez mais gente pra brincadeira… A expectativa é que, até o final de fevereiro, 2 milhões de pessoas participem do carnaval de rua paulistano, já que este ano foram mais de 300 os blocos cadastrados.

Diante desse expressivo crescimento, muitos desafios são colocados para a prefeitura, que desde o ano passado decidiu entrar para apoiar e organizar a festa. Como garantir infraestrutura, segurança, banheiros, limpeza, agentes de trânsito, atendimento médico, divulgação, entre tantos outros requisitos para que o carnaval ocupe as ruas com muita folia e o menor transtorno possível?

Uma das polêmicas que sempre cercam a festa é a questão dos patrocinadores. Agora que o carnaval de rua de São Paulo começa a crescer, essa questão vai aparecer cada vez mais. Porque, claro, quando você junta muita gente num mesmo evento, imediatamente este se transforma em alvo de ações de marketing e propaganda, além de possível fonte de renda para seus promotores ou os que aproveitam a festa para vender seus produtos. É aí que começa uma verdadeira “guerra” de interesses comerciais.

Vamos lembrar o que aconteceu em Salvador: a lógica da venda dos abadás que dão acesso aos blocos com cordões de isolamento, além de privatizar a rua, só promoveu exclusão: quem tem dinheiro paga para ter conforto e não se misturar com o “povo”, que fica espremido do lado de fora do cordão. Aliado aos camarotes dos patrocinadores – frequentados por políticos, celebridades e gente rica –, tudo isso fez com que o carnaval da Bahia perdesse muito da sua força e da vitalidade popular que tinha até os anos 1980 para se transformar, majoritariamente, em negócio.

Esta opção, no caso de São Paulo, está proibida. Os blocos podem ter camisetas ou fantasias que os identifique, mas não podem “isolar” quem decidiu comprá-las das outras pessoas. Desde o ano passado, a prefeitura proibiu tais cordões e a comercialização de abadás. Ou seja, a cidade de São Paulo, até agora, tem optado por um carnaval como o de Recife/Olinda ou o do Rio de Janeiro: popular, aberto e não excludente.

Mas, então, como é que se banca um carnaval em que todos tenham o direito de brincar e usufruir da festa igualmente?

Botar 300 blocos na rua requer gastos, infraestrutura de apoio, planejamento e organização. Por isso é fundamental que prefeituras e governos estaduais organizem a festa. E como o poder público não quer tirar recursos de creches, hospitais e escolas, a solução é a busca de parceiros privados e patrocinadores.

Nessa busca, porém, os maiores blocos às vezes disputam com a própria prefeitura o financiamento dos grandes patrocinadores. Lembro bem, em meados dos anos 2000, a “chave-de-braço” entre a Prefeitura do Recife e a direção do Galo da Madrugada, o maior bloco da cidade, para conseguir garantir um patrocínio centralizado pela prefeitura para investir na infraestrutura e redistribuir os recursos para todos os blocos… Acontece que muitas empresas, em geral, de cerveja, buscam garantir seu nome e presença nos desfiles que vão ter maior visibilidade, deixando a demanda por um patrocínio mais geral na mão…

Em São Paulo, em outubro do ano passado, a prefeitura publicou edital de chamamento público para empresas interessadas em patrocinar o carnaval de rua. Na ausência de candidatas, o prazo foi prorrogado para janeiro, com possibilidade de propostas livres, ou seja, sem necessidade de cumprimento às exigências de quantidades estipuladas no edital. No fim das contas, uma única pareceria foi firmada, no valor de R$ 500 mil, para uma festa que custará R$ 4 milhões. Mas, desde a semana passada, já teve bloco desfilando com cartazes pregados nos postes e balões de propaganda de cerveja, o que, aliás, é proibido por aqui em função da Lei Cidade Limpa.

Além do mais, o problema não é só garantir a infraestrutura. Botar bloco na rua tem custos. Os blocos pequenos, que são a maioria, se viram como podem, com vaquinhas entre os integrantes e financiamentos coletivos para pagar gerador, amplificador, carro de som, motorista, bandas, orquestras etc. Outra opção é vender camisetas e realizar festas para arrecadar fundos. Mas nem sempre essas ações são suficientes…

No Rio de Janeiro, este ano, alguns blocos anunciaram que não vão desfilar por falta de recursos. São blocos de médio porte, que não conseguem se bancar sozinhos, apenas com vaquinhas, e nem atraem grandes patrocinadores. Em Olinda, onde centenas de blocos e troças carnavalescas desfilam todo ano, acompanhadas das tradicionais orquestras de frevo, o poder público apoia as agremiações cadastradas, mas não as impede de captar outros recursos. No entanto, há uma exigência: os blocos não podem ser patrocinados por empresas concorrentes dos patrocinadores oficiais da festa.

Pelo que temos visto nos últimos anos, o carnaval de rua de São Paulo deve crescer ainda mais, o que significa a necessidade de cada vez mais esforços, por parte do poder público, para planejar, organizar e articular parcerias, de forma a garantir uma festa realmente aberta, popular, sem nenhum tipo de restrição ou exclusão. De outro modo, corremos o risco de ver toda a energia espontânea que vem tomando conta da cidade nessa época ser capturada por outros interesses e se transformar em mero negócio, como já aconteceu em outros lugares. Sem dúvida, não é o que a cidade parece desejar.

Foto: Flickr/Overmundo (via Yahoo).

*Texto originalmente publicado no Yahoo!Blogs.

 

Dramas e delícias do carnaval

Nos últimos anos, o Carnaval de rua de São Paulo está vivendo um verdadeiro boom… o número de blocos cadastrados para receber apoio da prefeitura neste ano cresceu bastante em relação ao ano passado: foram 300. Em 2014 foram 200 e em 2013, apenas 60. O notável crescimento do Carnaval de rua faz parte de um movimento mais amplo em curso na cidade, de reivindicação dos espaços públicos e de apropriação de tais espaços como locais de encontro, cultura, esporte e festa.

Esse movimento está presente das fervilhantes calçadas da avenida Paulista – palco para as mais diversas artes – aos túneis da região central que, nas noites de fins de semana, viram cenário de festas. Está presente também em praças e parques cada vez mais frequentados e utilizados para diversas atividades, de festas de aniversário a ensaios de grupos musicais, além das práticas esportivas. Trata-se de uma mudança cultural que não apenas transforma os modos de ver e viver a cidade, mas também seus próprios habitantes.

*Leia coluna completa no site da Folha.