Democracia, 30 anos

No marco dos 30 anos do fim da ditadura militar, a BBC Brasil convidou algumas pessoas para analisar os avançamos que tivemos no país de lá pra cá e o que ainda precisa avançar. Confira abaixo a matéria.

Democracia, 30 anos: Lula defende reforma política e democratização da mídia para país avançar mais

15 de março
Mariana Schreiber
Da BBC Brasil em Brasília

Há 30 anos, em 15 de março de 1985, a posse do presidente José Sarney colocava fim oficialmente à ditadura militar. A BBC Brasil convidou lideranças em diferentes setores para opinar sobre quais são os principais avanços colhidos em três décadas de democracia e em que áreas se avançou pouco.

Um dos que aceitaram o convite foi o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Assim como outros entrevistados, ele destacou o aumento da liberdade de expressão e a redução da desigualdade social como importantes conquistas desse período.

Para que o país avance mais, Lula defendeu a democratização dos meios de comunicação e a realização de uma reforma política que estabeleça o financiamento público das campanhas eleitorais em substituição ao financiamento por empresas.

O comentário do ex-presidente tem como contexto o momento de fraqueza do governo de sua sucessora, Dilma Rousseff, que está pressionada pelo noticiário negativo em torno do escândalo da Petrobras (de onde recursos teriam sido desviados para financiar partidos).

A BBC Brasil também convidou Marina Silva e as principais lideranças do PSDB (Fernando Henrique Cardoso e Aécio Neves), mas eles não responderam às perguntas encaminhadas.

Especializado em qualidade da democracia, o cientista político José Álvaro Moisés destacou como avanços a estabilidade econômica e o controle da inflação – e apontou como grave problema a corrupção nos governos.

A urbanista Raquel Rolnik também criticou a continuidade do sistema de financiamento de campanhas por grandes empresas, o que, na sua opinião, tem colocado as decisões do Estado sob o comando de grupos privados.

O problema da violência, principalmente contra os mais pobres, foi lembrado por Jailson de Souza, coordenador do Observatório de Favelas. Já Monica de Bolle, ex-economista do FMI, considera que houve pouco progresso no sentido de dar mais voz às “minorias” e às mulheres.

Mais pessimista, Guilherme Boulos, liderança do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto, disse que os avanços da democracia “estão em permanente ziguezague, alternando ganhos pontuais e retrocessos”, e citou como exemplo a “criminalização das manifestações”.

Confirma abaixo a os comentários completos:

1) Luís Inácio Lula da Silva, ex-presidente

Principais avanços: Eu acho que o maior avanço do país nesses 30 anos foi a conquista, consolidação e aprofundamento da democracia. As pessoas poderem se expressar, se organizar e escolher seus representantes. Só na democracia um trabalhador ou uma mulher podem chegar à Presidência da República. Só com democracia, com organização e pressão do povo foi possível reduzir a pobreza, diminuir a desigualdade e tirar o Brasil do Mapa da Fome da ONU.

Avanços limitados: Eu acho que após 30 anos, precisamos de uma reforma política, extremamente necessária para o país e para recompor a vitalidade da política. É necessário esse salto de qualidade na democracia e na transparência, que pode fortalecer a confiança da sociedade nos seus representantes e nas instituições. Para isso, o meu partido, o Partido dos Trabalhadores, propõe, por exemplo, financiamento público de campanha.

E não só isso, outro aspecto no qual não conseguimos avançar foi na democratização dos meios de comunicação de massa. O Código de Telecomunicações é de 1962, muito distante de hoje. São seis famílias que detém quase o total do mercado dos meios de comunicação. Isso ainda precisa avançar muito.

2) José Álvaro Moisés, especialista da USP em qualidade da democracia

Principais avanços: Houve avanços importantes nos direitos civis, políticos e socias. Aumentaram as liberdades de ir e vir, de expressão e religiosa. Os ciclos eleitorais para a escolha de governos se sucedem segundo as regras constitucionais e garantem a alternância no poder. A estabilidade econômica e o controle da inflação mudaram para melhor as condições de vários segmentos populacionais, e uma maior atenção à questão social resultou na melhora de alguns índices que medem as desigualdades.

Avanços limitados: Práticas de abuso de poder, como a crescente ocorrência do fenômeno da corrupção, indicam que o império da lei ainda não está completamente estabelecido. É evidente que o processo de formulação, implementação e avaliação de políticas públicas demandadas pela sociedade enfrenta limites sérios quanto à sua eficiência e eficácia.

Em muitas áreas de atividade governamental o planejamento ainda está ausente e permanecem desperdícios que, por sua vez, são agravados pela malversação de fundos e pela corrupção, em todos os níveis.

3) Jailson de Souza, coordenador do Observatório de Favelas

Jailson de Souza (Foto: Dvulgação)
Ativista diz que país precisa melhorar segurança pública e sistema penitenciário

Principais avanços: O processo de democratização é a grande conquista desde o fim da ditadura, em seus dois níveis: a consolidação das instituições republicanas e o avanço da democratização social, com a inserção de dezenas de milhões de pessoas no mercado. Nesse campo, precisamos avançar em termos de participação política e maior representatividade das instituições governamentais.

Avanços limitados: Nada é mais urgente do que superar a banalização da violência letal e do encarceramento (prisões), que têm crescido de forma acelerada e atingem principalmente jovens pobres, negros, com baixa escolaridade. Esses fenômenos – sustentados na guerra às drogas – são a maior tragédia do país nas últimas décadas e precisam ser enfrentados em todas as esferas sociais. Eles colocam em questão o nosso processo de democratização, numa perspectiva plena.

4) Monica de Bolle, diretora do think tank Casa das Garças e ex-economista do FMI

Monica de Bolle (Foto: Divulgação)
Economista elogia solidificação da democracia e processo de inclusão social

Principais avanços: Uma área em que se avançou muito – e que acaba tendo repercussão nas instituições, na economia e na solidificação da democracia – foi o processo de inclusão social. Claro que muitos ainda se sentem à margem da democracia, então tem muito ainda o que avançar.

Mas acho que hoje existe uma percepção entre as pessoas, em todas as faixas de renda, de que o país é delas e elas têm nas mãos a possibilidade de mudá-lo pelas vias democráticas. Houve uma mudança colossal também em termos de solidez econômica. A estabilização foi uma demanda da população, muito claramente expressa nas urnas nos anos de 1990.

Avanços limitados: Avançamos muito timidamente na inclusão de vozes das minorias – e tem minoria que nem minoria é, como o caso das mulheres. De um modo geral, a mulher ainda é muito pouco representada, em diversas áreas.

5) Guilherme Boulos, liderança do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto

Principais avanços: Os avanços no atual período democrático foram mitigados. Houve avanços econômicos, sociais e nos direitos civis, mas que estão em permanente ziguezague, alternando ganhos pontuais e retrocessos. Por exemplo, o atual Congresso Nacional, altamente reacionário, ameaça direitos conquistados no último período. Assim como a retomada de uma política econômica neoliberal ameaça ganhos sociais. Mesmo o direito à manifestação está sempre ameaçado por projetos de lei restritivos e criminalização pelo judiciário e as forças de segurança. A estrutura social do país permaneceu intacta nestes 30 anos, o que bloqueia avanços firmes em outras áreas.

Avanços limitados: Poderíamos elencar alguns aspectos arcaicos que permaneceram intocados no período democrático – o sistema político patrimonialista; o acesso à terra rural e urbana; o monopólio dos meios de comunicação e a estrutura tributária regressiva (carga tributária mais elevada sobre os mais pobres). As reformas de base pleiteadas no tempo do presidente João Goulart (1961-1964) – política, tributária, agrária, urbana – permanecem lamentavelmente atuais. E igualmente travadas.

6) Raquel Rolnik, urbanista e ex-relatora especial da ONU para habitação

Raquel Rolnik (Foto: Divulgação)
Urbanista diz que serviços públicos evoluíram nas três últimas décadas

Principais avanços: Evidentemente, avançamos nas liberdades civis e políticas. No campo específico da política urbana, tivemos avanços no marco regulatório, com a Constituição Federal (1988) e o Estatuto da Cidade (2001). Eles definiram a função social da cidade e da propriedade, incluíram o direito à moradia, reconheceram a existência dos assentamentos informais (favelas) e o direito de eles serem integrados à sociedade. Ou seja, o direito a ter direitos: direitos à água, à luz, à escola, aos serviços públicos.

Avanços limitados: Apesar dos avanços regulatórios na política urbana, muito pouco foi de fato implementado. Por que? Porque não houve uma ruptura com o nosso sistema político tradicional, contaminado pela mentalidade colonial-escravocrata que ainda impera no país.

Aqui, o Estado é um espaço para exercício de negócios privados. Esse processo não foi rompido, pelo contrário, se fortaleceu. À medida em que avançou a democracia e os partidos tiveram que concorrer no mercado dos votos, a questão do financiamento das campanhas fortaleceu muito os agentes privados. Isso é muito claro na atuação das empreiteiras e das concessionárias de serviços públicos: a decisão sobre a política urbana se dá no âmbito do acordo entre esses agentes e os agentes políticos, para que empresas forneçam os financiamentos das campanhas e os agentes políticos possam se reproduzir no poder. Partidos de esquerda que ganharam força, na medida que foram ampliando sua participação institucional e parlamentar, pactuaram com a manutenção deste modelo para poder governar.

Chapa “Urbanistas por São Paulo” é eleita para o CMPU

Caros/as colegas,

Graças ao apoio de vocês, a chapa “Urbanistas por São Paulo” foi eleita para compor o Conselho Municipal de Política Urbana (CMPU) pelo segmento “instituições acadêmicas e de pesquisa”. Ocupará comigo a vaga de titular o professor Valter Caldana, da FAU-Mackenzie, e teremos como suplentes os professores Eduardo Nobre (FAU-USP) e Denise Antonucci (FAU-Mackenzie).

As eleições ocorreram no último domingo, em todas as subprefeituras, e mais de 16,5 mil eleitores compareceram às urnas. Essa foi a primeira vez que os paulistanos puderam eleger diretamente seus representantes no CMPU. O mandato dos novos conselheiros será de dois anos, com a possibilidade de uma única recondução.

O CMPU passa agora a ter 60 membros, conforme previsto no novo Plano Diretor de São Paulo. São 12 integrantes a mais do que na gestão anterior. As reuniões do conselho ocorrem a cada dois meses e são abertas à participação da população.

*Leia mais sobre as eleições pra o CMPU no portal gestão urbana.

A (necessária) virada da Virada Cultural em São Paulo

Desde 2005, já foram realizadas dez edições da “Virada Cultural” em São Paulo, oferecendo 24 horas ininterruptas de programação cultural, com espetáculos de música, dança, teatro, exposições, concertos, exibição de filmes, entre outras atrações, gratuitas, para todos os paulistanos.

A Virada Cultural cumpriu um papel importante no atual movimento de apropriação da cidade por seus moradores. Ocupando as praças e ruas do centro, ajudou a reestabelecer um elo – simbólico e real – dos cidadãos com o espaço público e, mais particularmente, com o velho e belo centro da cidade. Sendo festa aberta e pública, a Virada contribuiu ainda para construir um ethos de cidade também como espaço de encontro e festa, historicamente esmagado pela São Paulo máquina de produção que não pode parar.

Entretanto, cabe a pergunta: dez anos depois, e em tempos difíceis de contenção de gastos e cortes nos orçamentos – a Virada Cultural significa um investimento altíssimo, de cerca de R$ 14 milhões –, será que não está na hora de rever esse modelo?

Hoje me parece muito mais necessário apoiar a imensa quantidade de artistas e coletivos culturais em seus movimentos de ocupação dos espaços públicos com cultura, arte e lazer, além de fortalecer e abrir para estes a enorme rede de equipamentos culturais existentes em toda a cidade – muitos dos quais em precárias condições –, do que promover shows de artistas famosos nas ruas do centro.

É possível fazer uma Virada mais autônoma e bem mais barata! Um bom exemplo disso é a Fête de la Musique, realizada pela primeira vez em 1982, em Paris, e que hoje acontece anualmente em diversas cidades não apenas na França, mas também em muitos outros países, sempre na mesma data, 21 de junho, primeiro dia do verão europeu.

A organização – a cargo do Ministério da Cultura e das prefeituras, no caso da França – incentiva a participação de músicos amadores e profissionais, organizações e coletivos. Para participar, o artista ou o coletivo deve elaborar um projeto, de acordo com os princípios da festa, e inscrevê-lo por meio de um site.

Entre os princípios estão o fim não lucrativo do evento – todas as apresentações devem ser gratuitas –, a diversidade de práticas musicais e a realização de apresentações ao vivo, a participação de artistas amadores e profissionais, o estabelecimento de um pagamento máximo de cachê (que era de 610 euros em 2013) e a proibição de patrocinadores individuais.

As apresentações podem ser realizadas em bares, cafés e restaurantes, mas também em espaços públicos como parques, praças e ruas peatonais. Hospitais, presídios, escolas, museus e outros tipos de estabelecimento também são palco para o evento. Uma vez selecionados os projetos, a organização disponibiliza a programação e a divulga nos meios de comunicação.

Este é apenas um exemplo de novas possibilidades. O fato é que está na hora de a Virada, em sintonia com as mudanças vividas nas cidades nos últimos dez anos, dar uma virada e se reinventar.

*Publicado originalmente no Yahoo!Blogs.

Parque Augusta e o sentido do público

A indignação geral com a corrupção, essa abominável apropriação do que é público para transformar em riqueza privada, é eloquente quando se trata de desviar recursos do Orçamento, mas é cega, surda e muda em casos que, embora em contextos distintos, também configuram apropriação do público pelo privado.

Vejamos o caso do parque Augusta: o terreno pertence a incorporadoras, mas nele há um resquício de mata atlântica, um respiro teimoso de natureza em um mar de concreto e cimento, que foi declarado e reconhecido –formal e legalmente– como “área de usufruto e apropriação pública, preservada até o final dos tempos”.

Fechado ilegalmente no final de 2013, o parque foi ocupado no início deste ano por moradores e usuários que tinham o objetivo não de se apropriar do terreno, mas sim de abri-lo ao uso comum, como deve ser.

Os proprietários, então, demandaram a “reintegração de posse” na Justiça, que, a partir de leitura que ignora a dimensão do bem comum, decidiu ordenar a saída dos “invasores” –ou seja, os usuários da área pública–, declarando, assim, que um bem público inserido em área privada pode ser privatizado. E ponto.

Na semana passada, a “reintegração” foi executada e os donos, imediatamente, já cercaram a área com tapumes. Examinando com atenção, esse caso é ilustrativo da perversa relação entre a coisa pública e o privado em nosso país.

Tenho acompanhado o debate sobre o parque e sei que a recusa da prefeitura em desapropriar o terreno –com a qual concordo– vem de posicionamento político que não vê sentido em gastar R$ 70 milhões para comprar um parque que já é público. O discurso veiculado pela imprensa, porém, dá a entender que a prefeitura simplesmente não dispõe desse valor para a desapropriação.

Com isso, parte do movimento em defesa do parque vê como “solução” utilizar o dinheiro desviado pelo ex-prefeito Paulo Maluf (PP-SP), que agora está sendo em parte recuperado, para pagar os proprietários e, assim, viabilizar o parque. Ora, essa posição apenas reitera o círculo perverso da apropriação privada do público: Maluf se apropria do dinheiro público, que, quando recuperado, servirá para remunerar a apropriação privada de um bem público!

Alguns argumentam que o fato de o parque não corresponder à totalidade do terreno impede uma equação que garanta a natureza pública desse bem comum. Eu discordo.

Nosso Plano Diretor prevê um instrumento chamado transferência de potencial construtivo, que confere aos proprietários de áreas destinadas à preservação ambiental –caso do parque Augusta– o direito de utilizar, ou de vender para alguém que o utilize, o potencial construtivo não utilizado ali, em outros terrenos da cidade. Transferido o potencial, o terreno pode ser integralmente doado para constituir um bem comum (o jardim de um condomínio não é um bem comum!).

Dessa forma, respeitando os direitos dos donos e cumprindo com a função social do terreno, é possível contribuir com a ruptura da cultura da apropriação privada dos bens públicos, a mesma que impede hoje o acesso a tantos outros bens de uso comum, como praias e ilhas, e que é a base cultural e política da corrupção.

*Coluna originalmente publicada no Caderno Cotidiano da Folha.

Professores da FAUUSP e FAU Mackenzie concorrem ao CMPU

Pela primeira vez, os cidadãos paulistanos poderão eleger diretamente seus representantes no Conselho Municipal de Política Urbana (CMPU). Foi o novo Plano Diretor de São Paulo, aprovado em julho do ano passado, que redefiniu a composição e a forma de eleição do órgão. Antes, os nomes eram indicados pelo prefeito.

No próximo dia 15, portanto, todo cidadão com título eleitoral em situação regular poderá participar das eleições para os representantes da sociedade civil no conselho, nos seguintes segmentos: movimentos de moradia; associações de bairro; entidades acadêmicas e de pesquisa; organização não governamental; e entidade religiosa.

No segmento “entidades acadêmicas e de pesquisa”, os professores Raquel Rolnik e Eduardo Nobre, da FAUUSP, junto com os professores Valter Caldana e Denise Antonucci, da Universidade Mackenzie, montaram a chapa “Urbanistas por São Paulo” (chapa 31) para representar os professores e estudantes universitários no conselho.

Composta por professores que acompanham e participam do debate público da política urbana, nossa chapa defende a ideia de uma cidade plural, includente e bela, onde outros valores – para além dos valores econômicos – estejam presentes e guiem as decisões sobre política urbana, e se compromete não só com a defesa de uma cidade para todos, mas também em divulgar, publicizar e discutir os temas em debate no conselho, incluindo-os em uma agenda de formação não só de estudantes de arquitetura e urbanismo, mas também dos moradores de São Paulo envolvidos nas lutas pelo direito à cidade.

Lembramos que o CMPU é um dos principais fóruns onde são debatidos os planos e projetos urbanísticos para a cidade, antes de serem enviados à Câmara Municipal. Além disso, o conselho acompanha e intervém na política urbana, decidindo sobre aspectos que não estejam claros ou que não foram suficientemente desenvolvidos em sua implementação. A eleição direta dos representantes da sociedade civil é, portanto, importantíssima para permitir maior representatividade do conselho.

O dia 15 de março, portanto, será um importante momento da vida democrática de nossa cidade. Conheça as chapas, participe das eleições e fortaleça o Conselho Municipal de Política Urbana!

Candidatura: Chapa Urbanistas por São Paulo / Número: 31
Nomes: Valter Caldana (titular) e Denise Antonucci (suplente)
Entidade: Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie
Nomes: Raquel Rolnik (titular) e Eduardo Nobre (suplente)
Entidade: Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo

Confira abaixo algumas informações práticas sobre as eleições:

Local de votação: serão 31 locais de votação, um em cada subprefeitura. Clique aqui para saber onde você deve votar.

Candidatos: clique aqui para conhecer todas as chapas.

Documentos: no dia da votação você deve apresentar um dos seguintes documentos: RG original; Título de eleitor original ou certidão de quitação eleitoral original; Carteira Nacional de Habilitação; Documento de identificação de órgãos de classe.

Para mais informações, acesse o site: http://gestaourbana.prefeitura.sp.gov.br/cmpu/

Conversa com Fernando Túlio sobre eleições para o CMPU

No dia 15 de março, serão realizadas as eleições para o Conselho Municipal de Política Urbana (CMPU) do município de São Paulo. Todos os cidadãos com título de eleitor poderão votar em uma chapa/candidato da sua escolha.

O observaSP conversou com o arquiteto e urbanista Fernando Tulio Salva Rocha Franco, secretário-executivo do CMPU, sobre o Conselho e as eleições. Confira a seguir.

observaSP – O que é o Conselho Municipal de Política Urbana (CMPU)?

O CMPU é um conselho definido pelo Plano Diretor que tem como principal função debater a política urbana do município, ou seja, os instrumentos da política urbana, em processo de revisão participativa, e também os projetos, sobretudo aqueles de ordenamento e reestruturação urbana. É o meio pelo qual a sociedade civil se envolve com a política urbana do município. O conselho é composto, majoritariamente, pela sociedade civil eleita de forma direta.

O que o Conselho decide e quais serão as principais pautas da próxima gestão?

As principais pautas são vinculadas à revisão participativa do marco regulatório, instrumentos de política urbana que estabelecem as principais regras para o funcionamento da cidade como um todo. No momento está em discussão no Executivo a revisão participativa da Lei de Zoneamento, que ainda vai para a Câmara Municipal. Os Planos Regionais também devem ser revisados além de debatidos os Planos de Bairro, depois de consultados os Conselhos Participativos das Subprefeituras.

Outra pauta bastante importante que está em discussão são os projetos urbanos articulados ao Plano de Metas. Tem a requalificação da Área Central, a Macroárea de Estruturação Metropolitana, os Eixos de reestruturação e projetos de desenvolvimento locais como os Territórios CEU.

É uma agenda bem extensa, e a gente espera que o fortalecimento do Conselho, em curso, aprofunde o debate destas e das novas pautas.

Qual a diferença do CMPU para o Conselho das Cidades?

O CMPU debate a política urbana, especialmente a revisão do marco regulatório e os projetos urbanos. O foco está no desdobramento da política urbana, a cidade, seus instrumentos e projetos relacionados. O Conselho das Cidades trata de pautas mais amplas, como a questão da mobilidade, da água etc.

As reuniões do CMPU são abertas?

Sim. Conforme definido pelo Plano Diretor, as reuniões do conselho são abertas a todos que quiserem participar.

Como os conselheiros são eleitos?

O Conselho possui representação de 11 segmentos da sociedade civil. Algumas destas vagas tiveram apenas um candidato inscrito e foram preenchidas automaticamente. Outros cinco segmentos têm mais candidatos do que vagas e por isso haverá eleições. São eles: associações de bairro, movimentos de moradia, entidades acadêmicas e de pesquisa, além de organizações não governamentais e entidades religiosas. A lista dos candidatos está disponível no site.

Cada eleitor tem direito a um único voto e poderá escolher o segmento em que deseja votar. Isso foi decidido para simplificar o processo eleitoral, atrair o maior número possível de eleitores, e para garantir que o eleitor tenha maior compromisso na votação e eleição do seu representante no conselho.

Até então os conselheiros eram indicados pelo poder Executivo. Por que isso mudou?

O Plano Diretor de 2002 definia que boa parte dos conselheiros da sociedade civil era indicada pelo Executivo. A eleição direta por meio de votação foi um compromisso da atual gestão, incorporado à revisão do Plano Diretor de 2014 como forma de tornar o conselho mais democrático.

Os candidatos estão organizados em chapas?

Para os segmentos que têm mais de uma cadeira no Conselho, o edital previu a possibilidade de composição de chapas. Assim, o movimento de moradia tem 4 cadeiras no Conselho e 2 chapas concorrentes. O mesmo ocorre para as associações de bairro. As entidades acadêmicas têm 2 cadeiras e também 2 chapas. Já para as ONGs e as entidades religiosas, que têm apenas 1 cadeira no conselho, as candidaturas são individuais.

Como vão funcionar as eleições?

As eleições vão acontecer no dia 15 de março, das 9h às 17h. Vão ser 31 locais de votação e o eleitor tem que ficar atento, porque ele não pode votar em qualquer um destes locais, mas somente de acordo com sua Zona Eleitoral. Foi disponibilizada uma ferramenta no site Gestão Urbana, e com o número do título de eleitor é possível descobrir o local exato onde vai ser realizada a eleição.

Todos que votam em São Paulo e estão cadastrados no Tribunal Regional Eleitoral podem votar. É necessário levar um documento oficial original de identificação com foto e o título de eleitor.

*Saiba mais: http://gestaourbana.prefeitura.sp.gov.br/cmpu/       

Zezéu: no céu, os anjos vão votar em você

Cercado de gente, no meio da cantoria, no movimento, tendo a seu lado sua amada Lola. Assim era Zezéu Ribeiro em seu elemento… Nunca a sisudez nem a empáfia do político engravatado, nem a arrogância do dirigente partidário poderoso,  Zezéu fez política, construiu seu  partido, o PT da Bahia, foi parlamentar e Secretário porque gostava de gente, porque acreditava que seria possível mudar o Brasil, porque amava as cidades.

Arquiteto de formação, se engajou em todos os fronts de luta pela reforma urbana por onde passou, defendendo a moradia popular e o direito à cidade.

Não esqueço o dia em que o conheci. Visitando a Câmara Municipal de Salvador, nos anos 1990, perguntei na portaria onde era seu gabinete de vereador. Um senhor grisalho abriu um sorriso e disse: “minha filha, é fácil, veja aí uma porta com um bocado de coisas grudadas, é lá mesmo”.  Quando entrei, lá estava ele cercado de “causas” – de terreiros de candomblé que lutavam para não perder suas casas a professores brigando por melhores condições de ensino, de grupos que resistiam a mais uma demolição de um casarão do séc XVIII a movimentos então nascentes por moradia.

Hoje, dia em que choro sua morte, me lembro da última vez em que nos encontramos. Foi em Salvador, em 2012, quando Zezéu era Secretário de Planejamento do Estado da Bahia e eu Relatora da ONU para o direito à moradia visitando as cidades sede da Copa do mundo, preocupada com as remoções. Tomei um susto: não conseguia ver no meu querido amigo a alegria e gaiatice que eu conhecia, não encontrava o brilho no olhar que dava esperança a seus interlocutores, conclamando-os a segui-lo. Saí triste de nosso encontro. Sei que Zezéu já lutava há anos com uma condição débil de saúde, mas sei também o quanto os últimos anos foram de desilusões políticas duras.

Agora Zezéu começa sua mais nova campanha no céu. Já vejo ele sentado, no meio das nuvens, falando para algum anjo que acaba de passar por ali: “ó, menino,  chame aqui pra mim aquele pessoal que está sem casa, vamos ver como podemos dar um jeito nisso”. E em pouquíssimo tempo, lá estarão os anjos entoando, em coro: “Zezéu , vou votar em você”.