459 anos: Celebrando a maior crise urbanística da história da cidade de São Paulo

O aniversário da cidade é sempre uma oportunidade para balanços: como a cidade é vista e vivida por seus moradores? Temos algo a comemorar? Como se trata de São Paulo, a maior e mais contraditória cidade brasileira, o discurso da pujança, do poder, da diversidade, da energia e da intensa dinâmica (e outros consagrados superlativos) esbarra numa espécie de mal-estar generalizado em relação a sua condição urbanística. Usufruir da cidade é uma espécie de corrida de obstáculos cotidiana na qual é necessário abstrair a poluição, o trânsito, o congestionamento, os buracos, os atropelamentos, a enchente, a feiura e o descaso que atingem – evidentemente com intensidades muito diferentes – o conjunto das pessoas que vivem e circulam na cidade.

A (i)mobilidade parece ser o sinal mais evidente da crise e, de fato, não se trata apenas de uma “percepção”, mas da realidade de um sistema de transporte e circulação totalmente incompatível com os fluxos da cidade. Na verdade, a situação atual da mobilidade nada mais é do que a crise de uma política urbana constituída exatamente para enfrentar a primeira grande crise urbana que São Paulo viveu, na década de 30.

Até os anos 1920, o transporte era coletivo e sobre trilhos – bondes e trens. Em 1933, a cidade tinha uma rede de bondes com 258 km de extensão, três vezes maior do que a extensão atual do metrô, em uma cidade com, então, 888 mil habitantes. Nesse mesmo período, a cidade vivia sua primeira grande crise de moradia, durante a qual o modelo de vilas e cortiços de aluguel foi gradativamente substituído pelo loteamento de bairros distantes. Desde a década de 1920, foi implantado na cidade um projeto de remodelação viária voltado para dar suporte a e aumentar a velocidade de circulação de carros e caminhões, implementado por sucessivas administrações municipais e estaduais.

Na década de 1930, diante da ameaça de perda do monopólio e dos problemas de lucratividade com o sistema de bondes, a Light propôs um novo acordo ao governo municipal, apresentando, dentre outras medidas, um plano de construção de uma rede de trânsito rápido com calhas para as linhas de bonde (algumas subterrâneas). Ao mesmo tempo, o então engenheiro municipal Prestes Maia propunha o Plano de Avenidas, composto por um sistema de vias formando uma grelha “radioperimetral”, que acabou por estruturar o crescimento da cidade ao longo das décadas seguintes.

A concepção urbanística proposta por Prestes Maia se opunha a qualquer obstáculo físico para o crescimento, viabilizando um modelo de expansão horizontal ilimitado, que se combinou perversamente com a autoconstrução na periferia como “solução” para o problema da moradia em um contexto de grande migração para a cidade. Ao contrário dos bondes e trens, o transporte via ônibus era flexível, pois seu raio de influência não era limitado pela distância entre as estações. Assim, foi constituído um modelo urbanístico que conduziu o desenvolvimento da cidade. Este breve post não nos permite demonstrar outros elementos deste modelo (como verticalização e zoneamento) e sua relação com a própria lógica política de administração da cidade. Mas não há a menor dúvida de que hoje esse modelo encontrou seu limite.

O que temos para celebrar neste aniversário é, por incrível que pareça, a crise! Só um mal estar como o que atualmente vivemos nesta cidade, aliado à imensa capacidade econômica, técnica e cultural presentes em São Paulo, é capaz de abrir espaços para a ruptura e superação de seu modo de fazer cidade.

 

Texto publicado originalmente no Yahoo! Blogs.

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13 comentários sobre “459 anos: Celebrando a maior crise urbanística da história da cidade de São Paulo

  1. Concordo com tudo o que foi colocado, menos com o título. Por que tanto fel?

    Uma das coisas mais destrutivas que encontramos em São Paulo é a mania dos paulistanos em falar mal da sua cidade. Pior: fazem isso na frente dos jovens. semeando pessimismo e rejeição na sua relação com a cidade. Quando crescem, seus projetos de vida resumem-se em ir embora daqui. Alguns vão para o exterior e assim São Paulo vai perdendo seus talentos.

    São Paulo não precisa de mais pedradas. Precisa de soluções. A primeira coisa a fazer é parar de difamar a cidade e ir à luta. O IAB por exemplo pode muito bem descer do salto alto e bater na porta do governo pedindo mais participação dos arquitetos nas tomadas de decisões. A hora é já. São Paulo tem novo prefeito, um sujeito jovem e, imagino eu, de mente aberta, louco para mostrar a que veio.

    Sugestão: mude o título para: São Paulo 459 anos. Problemas e soluções.

    • Rogério, eu acredito que críticas fazem a gente mudar e melhorar. A vida é assim, e aprendemos com nossos erros.

      O caso de São Paulo, relatado pela Raquel, mostra sucessivos erros de gestão e ações que trouxeram resultados gradativamente negativos, como o investimento desmedido em prol do automóvel individual.

      São Paulo é uma cidade cheia de coisas boas e ruins. Temos que valorizar as coisas boas, e ao mesmo tempo apontar os defeitos na tentativa de corrigí-los. Os “talentos” que fogem de São Paulo deveriam se inspirar nas críticas e buscar mudanças, soluções. E obviamente, as críticas devem atingir os ouvidos dos nossos jovens. São eles que construirão o futuro, e portanto devem saber o que fazer e o que não fazer.

      O título resume o raciocínio da autora, justificado nos fatos históricos apontados. Foi, talvez, a frase que mais causou reflexão na minha leitura. É evidente que vivemos uma crise e que devemos buscar alternativas. O sistema estabelecido até o momento, característico daqueles tempos desenvolvimentistas, modernistas, está defasado. É hora de reconhecer que, de fato, vivemos a maior crise urbanística da história e virar a mesa.

      • Meu caro Caio

        Fazem 35 anos que moro nessa cidade. Há 35 anos que escuto esse mesmo discurso nocivo que pouco contribui para melhorar as coisas na mais difamada cidade desse país. Diagnósticos já temos demais. Precisamos de remédios.

        Graças à imagem negativa de São Paulo construída há décadas pela televisão, as crianças crescem com a noção de aqui é o pior dos mundos. Enclausuradas pelos pais, viciadas em internet, games e comidas calóricas, afastam-se do espaço público, ignorando a cidade. Só quando chegarem perto dos 30, 35 anos vão compreender que é possível desfrutar das coisas boas que existem em São Paulo apesar dos gigantescos problemas.

        São Paulo, que tem as melhores cabeças pensantes do país e uma universidade classificada entre as 200 melhores do mundo não pode ficar presa ao imobilismo. Alguma coisa não está funcionando no diálogo entre arquitetos e governo. Precisamos começar por aí. Com a palavra, o IAB.

        grande abraço.

      • “Fazem 35 anos” é de doer. O correto é ‘Faz 35 anos’. Desculpem o erro na minha resposta ao Caio..

  2. Imobilidade urbana e cegueira total da população. O modelo imobiliário continua ferozmente avançando nas periferias, criando bairros “modelos”, de preferência na beira das marginais (Campo Grande, Jardim Marajoara e novos empreendimentos em terrenos de antigas fábricas). Todos modelos dependentes de carro como meio de transporte. Não “prevejo” mudanças a curto prazo.

  3. Pingback: 459 anos: Celebrando a maior crise urbanística da história da cidade de São Paulo (via Blog da Raquel Rolnik) | Beto Bertagna a 24 quadros

  4. Não fugimos… É a lógica de toda a pretensão que se quer! Sim falo por metáforas para obter as chaves que rompem os lacres desta dimensão de ideias geridas e auto sustentadas por uma sustentabilidade que me agrega como financeiro, padrinho, excluído, programas difusos de questões mantenedoras da mão de obra barata, gestões corruptas e a bem do capital dos outros atos de improbidade… Temos, SNUC, APP, APA, Código Florestal e a FUNAI não enquadra as terras remanescem das Tradições e cultura dos Índios Guarani Kaiova e outras nações detentoras das diversidades da proteção de seus conteúdos, minerais, animais e vegetais… Sendo necessário que nos multipliquemos na proteção de seu legado diferencial, a reserva natural deste patrimônio para com a anuência de sua integração suas descendências seja feita a utilização dos recursos, Os índios são o povo mais diversos e especializados do planeta e não precisam de carro, trânsito ou remédios ou hospitais…Todas as palavras utilizadas representam também uma só palavra para a mobilidade, RESPEITO!

  5. O que vc acha da troca do modal Onibus nos corredores por Trams modernos com piso rebaixado no mesmo nivel da via ?
    Como os fabricados pela Siemens, Alstom e outros fabricantes, não seriam eles a substituir os antigos onibus a diesel e atrair novos usuarios para o trasnporte coletivo ?

    • Excelente ideia.

      Aliás, isso já existe na Europa há anos. Os Light Rails como são conhecidos, rodam em espaços exclusivos semelhantes aos nossos corredores de ônibus, mas com um diferencial importante: o piso de concreto é substituído por grama e tem até flores em certos trechos. Pense nisso em uma cidade carente de espaços permeáveis como São Paulo.

      Se fizermos uma comparação, os Trams ganham em tudo dos poluentes e barulhentos ônibus articulados.

      1 – Conforto. Graças ao deslizar macio proporcionado pelo contato das rodas de ferro com os trilhos, o veículo não trepida. Compare com os pneus dos ônibus que deformam de acordo com buracos e lombadas. Que diferença!

      2 – Acessibilidade. O Light Rail estaciona perfeitamente encostado à plataforma, garantindo acesso fácil para idosos, crianças, deficientes e mães com seus bebês. Assim como no metrô, o piso do vagão fica no mesmo nível da plataforma, permitindo o embarque e desembarque sem auxílio das mãos.

      3 – Custo de implantação. Bem menor que o metrô e um pouco maior que os ônibus articulados. Porém ao contrário dos ônibus, não necessitam de constante renovação da frota. Os Trams europeus continuam iguais há décadas.

      4 – Manutenção. Não necessitam de constante manutenção com troca de peças, pneus e óleo de motor. Imagine quantos pneus são trocados por dia em SP para manter rodando em segurança a frota de 15.000 ônibus!

      5 – Poluição. Melhor nem comentar. Os Trams levam ainda a vantagem de não produzirem calor, ao contrário dos ônibus cujo motor ainda é o velho modelo à explosão. Você já observou quando está na calçada em um dia de calor e o ônibus para no ponto? O calor emanado pelo motor é semelhante a uma churrasqueira. Certa vez na televisão o físico Josè Goldemberg chamou atenção para esse fato que passa despercebido mas contribui para aumentar o efeito de ilha de calor na região central da cidade.

      6 – Tecnologia. Como possuem alto grau de eletrônica embarcada, os Light Rails permitem a automação do sistema, algo difícil para os ônibus. O funcionamento dos atuais corredores de ônibus depende exclusivamente do condutor que por sua vez depende dos que estão á sua frente. As filas de ônibus junto ao ponto tornam-se inevitáveis.

      Algumas cidades brasileiras que serão sedes da copa 2014 já estão trabalhando para a implantação dos VLT – Veículo Leve sobre Trilhos – ou Trams, ou Light Rail. Mas em São Paulo, a cidade mais cobiçada do país isso não será nada fácil.
      O lobby das montadoras de carrocerias de ônibus aliadas aos fabricantes de chassis e motores não vai largar o osso assim tão fácil.

  6. Concordo com o texto. Nos propõe reflexões sobre o problema. Nas entrelinhas estão propostas de soluções. Basta lê-lo e traçar metas a partir dessa leitura. O caso é sério, é preciso alguma mudança. Não sou de São Paulo, mas nasci e tenho famíliares nessa cidade. Venho encontrando aqui no interior muitas pessoas que estão vindo para cá em busca de melhor qualidade de vida. Se estivesse bom não aconteceria isso. Claro que não estamos desprezando o que a cidade possui de bom. Mas quando ando por ai, tenho a sensação de … “nostalgia”. Vamos lutar para recuperar a capital da modernidade e tecnologia… e outras tantas coisas boas que esta cidade nos oferece.

  7. É, minha gente, decisões políticas nos afetam por um longo prazo; é hora de começar a tomar parte nelas. As audiências públicas da Sehab estão aí pra isso…

  8. Volta e meia constatamos que o modelo econômico vigente não nos serve mais. E a maioria concorda com isso, eu inclusive. Mas quanto ao modelo político que temos e que também não tem dado conta dos problemas; os questionamentos são menos frequentes, e a questão acaba se resumindo a ideologias partidárias. A cidade de São Paulo não pode ser vista e administrada como um organismo independente. A grande São Paulo é um todo. Ao mesmo tempo, a dimensão das grandes metrópoles torna a relação governo x cidadão extremamente distante. Como pensar em democracia participativa, por exemplo; quando estamos falando de 20 milhões de pessoas? Na minha opinião, um ponto importante na busca por mudanças positivas é admitir que os modelos estruturais (economia e política) que temos não nos servem mais. Infelizmente não há sinais de que esses aspectos serão revistos a curto e médio prazo.

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