A ciclovia e um novo tempo na Avenida Paulista

ciclovia paulista mariana pires

Inauguração da ciclovia da Avenida Paulista. Junho 2015. Foto: Mariana Pires

Domingo passado, a Avenida Paulista foi fechada para carros e transformou-se em palco de uma grande festa para a inauguração da ciclovia que percorre toda a sua extensão. Crianças, jovens, adultos e idosos, de bicicleta, skate, patins ou simplesmente a pé, ocuparam a avenida durante todo o dia.

Além de marcar a celebração da grande conquista que é esta ciclovia – fruto de muita luta de cicloativistas e organizações da sociedade civil e, claro, da clara nova política de mobilidade da gestão atual da prefeitura –, o que vimos domingo talvez seja mais um significativo capítulo da história da avenida-símbolo da nossa cidade.

Aberta em 1891, a Paulista era o mais novo destino residencial da “aristrocracia do café”, das novas fortunas que se formaram com a expansão do complexo cafeeiro no Estado de São Paulo. Com a avenida, foram inauguradas também linhas de bonde que a serviam, mesmo antes de esta ser ocupada. Sua inauguração marca o momento em que São Paulo se transforma em polo econômico e político relevante para o país, e também a emergência de uma nova elite econômico-política, com enorme influência nos destinos do país durante a República Velha. A partir da Paulista, o eixo de expansão residencial das classes abastadas seguirá em direção aos Jardins e ao sudoeste da cidade.

Nos anos 1960 e 1970, a Avenida Paulista vive sua primeira transformação profunda, marcando mais uma vez um novo importante momento da nossa cidade. É quando o capital financeiro e industrial se torna hegemônico e São Paulo passa a ser o principal polo financeiro do país. Nesse momento, a Paulista vive uma rápida verticalização e as grandes mansões residenciais desaparecem para dar lugar às sedes de bancos e grandes empresas. A avenida dos bondes passa a ser a avenida dos carros. É nessa época, também, que grandes intervenções viárias são realizadas, como a implantação das Marginais, do Minhocão, e outras que marcam a era rodoviarista da cidade.

Desde que nasceu, portanto, a Paulista carrega uma forte simbologia, expressando momentos-chave da história de nossa cidade. Hoje ela é palco de manifestações, protestos e celebrações das mais diversas naturezas. Mas o último domingo, dia 26 de junho de 2015, parece marcar uma nova era da avenida e, portanto, da cidade.

Chegamos a um ponto em que a hegemonia do transporte por carro particular alcançou o seu limite. Está claro que é impossível continuar construindo nossa cidade sob esse modelo. Vivemos um processo de demanda cada vez maior por transporte público coletivo, de qualidade e eficiente, aliado ao transporte não motorizado e não poluente. Este movimento se articula à demanda por espaços públicos de estar, encontrar e ficar, rompendo com a captura única e exclusiva das ruas pela circulação.

Assim, grupos e coletivos se organizam para reivindicar melhoria no transporte público, mais ciclovias, melhores calçadas, mais espaço para os artistas de rua, mais parques, mais áreas verdes, mais quantidade e mais qualidade nos espaços públicos em geral. O que vimos domingo na Paulista parece ser um marco desse processo. Foi com festa que a cidade recebeu a ciclovia da sua mais importante avenida, apropriando-se de uma Paulista sem carros.

Utilizo as expressões “parece que” e “pode ser” porque ainda não está claro se essa virada demandada pelos cidadãos paulistanos, à qual a prefeitura tem respondido com políticas e intervenções que vão nessa direção, vai ser permanente e duradoura, e se, assim, a cidade está entrando em um novo tempo.

Mas os dois primeiros dias após a inauguração da ciclovia dão sinais de que sim. Pelo visto, essa ciclovia vai ser intensamente utilizada: na contagem da CET, o uso da bicicleta na avenida já cresceu 300%. No primeiro dia de funcionamento, a ciclovia registrou 249 ciclistas no período da manhã e 614 no período da tarde. A contagem anterior à inauguração registrava apenas 85 ciclistas pela manhã e 169 à tarde. A expectativa é de que esse número aumente ainda mais.

Além disso, depois de avaliar o impacto do fechamento da Avenida Paulista para carros, a Prefeitura agora pretende abri-la para as pessoas todos os domingos. A cidade, sem dúvida, agradece.

*Texto publicado originalmente no dia 2 de julho, no Blog Habitat, do Portal Yahoo.

7 comentários sobre “A ciclovia e um novo tempo na Avenida Paulista

  1. Parece, de fato, tudo muito bacana: a inauguração da ciclovia na Paulista, o reforço a este modal por parte da Prefeitura, o barateamento da mobilidade por meio da bicicleta (pois mesmo o busão está caro), a abertura da avenida aos pedestres nos domingos, etc. Porém, há uma questão ainda não abordada e que se refere à saúde dos ciclistas, todos eles, especialmente em São Paulo, expostos às descargas poluentes de carros e ônibus. A inauguração da ciclovia na Paulista foi super festiva, e inegavelmente positiva sob quase todos os aspectos, mas esteve claro que justo essa festa trazia no seu bojo a omissão desse “pormenor”.
    A Avenida Paulista, tal como se tornou nos últimas décadas, não passa de um imenso corredor poluente, mas, mesmo assim, adotado como “cartão-postal” e, aos domingos, utilizado como uma “praia” às avessas. São idiossincrasias da metrópole rodoviarista.
    Veremos, adiante, se haverá um reforço do poder público no atendimento à avalanche de ciclistas-doentes ou cancerígenos, resultante dessa atual festa.
    Não é ser chato nesse momento, mas estão contando o teor de poluentes na Paulista?
    Talvez seja o caso de se dar início à distribuição de máscaras descartáveis pra os ciclistas paulistanos, tal como se faz com camisinhas através do SUS.

    • Bem lembrado. Mas, e quanto aos pedestres? Também não enfrentamos este mesmo problema enquanto caminhamos nas calçadas de ruas e avenidas movimentadas? E quem está dentro do carro ou do ônibus, em cujo interior a poluição entra e não se dispersa? Se consideramos que o pedestre e principalmente o ciclista estão em deslocamento, quem mais “respira” a poluição é quem está no interior dos veículos.

  2. Embora tenha restrições à implantação das ciclovias, é preciso reconhecer que a cidade é desprovida de intervenções humanizadoras. Assim, uma ciclovia na Av. Paulista tem sim uma dimensão simbólica, já que está numa das avenidas mais emblemáticas de São Paulo. Assim, não é tão relevante a repercussão negativa sobre o trânsito ou sobre a saúde, pela exposição aos gases tóxicos liberados por veículos automotores. Essas ocorrências podem ser sanadas ou absorvidas, ao contrário da progressiva e irreparável falência dos espaços públicos.

  3. Toda “dimensão simbólica” é tão emblemática como ideológica, e não raro perversa. A Avenida Paulista tornou-se símbolo da cidade justamente porque aquele esgoto poluente entusiasma os incautos paulistas, caipiróides, ávidos por um tantinho de Dubai na metrópole.
    Achar que “não é tão relevante” a exposição dos ciclistas aos gases tóxicos… significa ter a cabeça já feita por essa “dimensão simbólica”. Para esses, o câncer chega mais cedo, mas, parece que tudo bem, pois o que importa no agora-agora é ser “emblemático”, “bacana”, “top”, “Vital”.

  4. Esse projeto se estenderá aos bairros pobres ou ficará restrito ao poder aquisitivo alto? Parece-me mais um daqueles projetos para inglês ver.

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