Intervenção na Cracolândia: Luz para quem?

Fotos do gif: @fernando_bizerra_jr, @tababenedictofotografo, jornalistas livres e Márcio Fernandes de Oliveira/Estadão

Desde o último domingo (21), está ocorrendo uma operação de enormes proporções na chamada “cracolândia”, em São Paulo, envolvendo ações policiais antitráfico, internação de dependentes químicos, interdição e demolição de imóveis, marcada por forte aparato policial e uso da violência. O ponto mais emblemático e trágico dessa operação foi a derrubada da parede de uma pensão com pessoas ainda dentro do prédio. Três delas ficaram feridas.

Digo “a chamada cracolândia” porque essa forma de identificar o bairro da Santa Ifigênia, na região da Luz, tem sido parte da máquina que tenta a todo custo destruir o bairro, que conta com alguns dos patrimônios históricos mais antigos da cidade, e eliminar sua atual dinâmica de ocupação (que envolve, entre outros, o maior polo de comércio de eletrônicos da América Latina) para, em seu lugar, erigir a “Nova Luz”, local de torres brilhantes, centros culturais, cafés e restaurantes gourmet.

É bom lembrar que, embora ali já existisse um foco de tráfico de drogas e a presença de população de rua, o que foi fundamental para que o bairro se deteriorasse foi a ação da própria Prefeitura, que em 2007 fechou o Shopping Luz e, em 2010, demoliu esse prédio e outros imóveis, deixando a região em ruínas. Além disso, a manutenção do bairro, como a coleta do lixo e a reforma permanente de espaços públicos, necessárias para manter a qualidade de qualquer lugar, foi sendo negligenciada. Foi justamente nesse processo que o bairro virou a “cracolândia”, atraindo para lá também pessoas negligenciadas, abandonadas, envolvidas pela drogadição do álcool e do crack.

A operação policial que ocorre agora, teoricamente, objetivava prender traficantes que, de fato, existem e que evidentemente devem ser enfrentados. Mas, na prática, além de expulsar e dispersar os usuários de drogas, culminou na lacração de imóveis onde moravam ou trabalhavam não apenas estes dependentes químicos, mas muitos indivíduos e famílias de baixa renda, a maioria em cômodos alugados em imóveis encortiçados, alternativa de moradia disponível no centro da cidade para quem tem parcos rendimentos. A lacração – e demolição – se deu sob a alegação de existência de problemas construtivos que, na verdade, já eram de conhecimento da Prefeitura há muito tempo.

Tudo isso ocorre sem que o governo municipal ofereça nenhuma resposta sobre onde essas pessoas irão viver daqui para frente. Muito menos sobre o destino dos dependentes químicos. A dispersão, obviamente, já criou “cracolândias” em outros lugares, porque os dependentes não deixam de existir. O que fica evidente nas falas do prefeito João Doria e do governador Geraldo Alckmin é o desejo de atingir a “solução final”: a demolição dos atuais imóveis e uma limpeza social radical da área.

Mas a grande questão é: para que executar essa limpeza? A resposta o próprio prefeito já deu: para implantar o plano urbanístico Nova Luz.

É bom lembrar que já houve uma tentativa de implantar um plano semelhante naquela região. Na gestão de Gilberto Kassab, o plano apresentado pressupunha demolir 60% do bairro, que seria desapropriado por empresas privadas para que fossem construídas no lugar torres de apartamentos e comerciais, de forma que a rentabilidade com os novos potenciais construtivos oferecesse oportunidades econômicas para as construtoras. Mas vale ressaltar que essas torres não atenderiam as demandas por moradia das pessoas que hoje vivem no local, mas, sim, de outras, com maior poder de compra.

O que se quer agora é retomar esse projeto, que foi rejeitado e derrotado pela população e não foi posto em prática. Não por acaso, o prefeito João Doria postou um vídeo em seu Facebook, na sexta-feira (19), dizendo que tinha se reunido com o arquiteto Jaime Lerner e o ex-presidente do Secovi, Claudio Bernardes, para tratar desse projeto e que a cidade teria novidades em breve. O Secovi, Sindicato das Construtoras, já tinha inclusive anunciado que havia contratado o arquiteto para desenvolver o projeto e doá-lo à cidade.

Na manhã de ontem (24), o prefeito e o governador tentaram realizar uma coletiva de imprensa na região da Luz – que desde domingo vive um verdadeiro estado de guerra, com helicópteros e presença ostensiva de tropas policias –, mas foram impedidos por manifestantes contrários à ação. A resistência ao projeto e ao tratamento dado aos dependentes químicos tem vindo de vários lados, desde trabalhadores e pesquisadores do campo da saúde mental, radicalmente contrários à medida, a assistentes sociais, entre outros. Na tarde de ontem, a Secretaria Municipal de Direitos Humanos foi ocupada e a chefe da pasta, Patrícia Bezerra, pediu demissão por não concordar com a ação truculenta do município e do estado.

Na coletiva, que por fim aconteceu na sede da prefeitura, Alckmin e Doria, ao lado de secretários, falaram sobre a Parceria Público-Privada (PPP) Habitacional prevista para a região, que, segundo eles, já tem 2 mil unidades em construção (mas que na verdade são menos de 1.500), tratando-a como solução para ocupar um bairro vazio. Cabe ressaltar que não apenas o bairro não está vazio, mas conta com 12 mil moradores, entre eles crianças que brincam entre os escombros da guerra instaurada pela prefeitura e governo do estado. E mais: essa PPP habitacional não oferecerá alternativa de moradia para esses moradores, que, como já ressaltamos, vivem nos cortiços da região. Ao dirigir 80% da demanda para quem trabalha na região e mora em outros lugares e permitir a construção de moradias para famílias com mais de seis salários mínimos de renda, esta PPP definitivamente não atende quem mais necessita de moradia no bairro.

Ou seja, não é de se estranhar que o secretário de Obras da Prefeitura diga que não tinha atentado para a presença de moradores no prédio que teve a parede demolida enquanto estes dormiam. Para a atual gestão, as pessoas que vivem na região, o patrimônio histórico presente, a saúde e vida dos dependentes químicos não importam diante do potencial de negócios que o bairro representa.

Também falei sobre esse assunto na minha coluna na Rádio USP. Ouça aqui.

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6 comentários sobre “Intervenção na Cracolândia: Luz para quem?

  1. Raquel, Parabéns como sempre pela sua excelente analise da deterioração planejada da região e pelo seu alerta ao paulistano.
    As intervenções atuais ocorreram em pleno bairro dos Campos Elíseos, mas para a prefeitura, só interessa difundir a denominação “Luz” – sabemos porque!
    Quanto ao prefeito João Dória, deveria pensar melhor antes de ressuscitar projetos de Gilberto Kassab que já está bem enredado com a Lava Jato, AIB e outras mazelas…

  2. Que droga!
    Tudo de novo!
    Retrocedemos aos tempos do Kassab!
    Retrocedemos à maior Droga, isto é, ao Nova Luz!
    Talvez seja o caso de refletir a respeito de qual Droga atacar primeiro: o Crack ou a Droga que lhe dá origem e que se conhece pelos nomes de especulação imobiliária, de intervenção policial-urbanística, de negligência à Saúde Pública, de corrupção acordada entre empresários e Poder Público, de Secovi, de Jaime Lerner, de Cláudio Bernardes, de Kassab, de Serra, de Dória…?

  3. Concordo com o texto em alguns pontos.
    A degradação começou com a demolição da antiga rodoviária. Melhor teria sido deixá-la em paz e apoiar a atividade comercial que existia ali trazendo movimento de pedestres e vida para a área. Muito mais interessante do que a abominável ‘nova Luz’, um implante plástico danoso para a história da rua Santa Ifigênia.

    Porém, ao contrário do que sugere o artigo existe um projeto de construção de HIS para o local:
    http://sao-paulo.estadao.com.br/noticias/geral,terreno-de-antiga-rodoviaria-na-luz-ganhara-moradias-populares,10000021551

    A esquerda porém sempre tem uma visão coitadista das mazelas sociais. Quem deve saber o destino que tomarão aquelas pessoas não é a prefeitura mas as próprias pessoas. Afinal, não foram elas que escolheram o vício do crack? Ou foram obrigadas pela prefeitura?

  4. Experiências de sucesso no tratamento dos dependentes do crack. Observe que os viciados são tratados fora do ambiente urbano. É onde eles tem contato com o céu, a terra e espaço de sobra, coisas que não existem em uma cidade grande como São Paulo. Uma enxada nas mãos e a emoção de protagonizar o milagre da produção de alimentos que em seguida vão à mesa fazem o resto do trabalho.

    http://istoe.com.br/182366_5+EXPERIENCIAS+DE+SUCESSO+CONTRA+O+CRACK/

    • Ótima análise, Celso P., assim como a da Raquel.
      Infelizmente, novamente se debatem diagnósticos, históricos e prognósticos que caminham todos para olhares diferentes: político, humano, urbanístico.
      Acho uma vergonha que tenham que contratar o Escritório Jaime Lerner para tal missão, quando temos centenas de bons arquitetos e urbanistas com experiências, ideias e conceitos suficientes para aprofundar, adensar a análise e propor alternativas, ou seja, Dória nem recorre aos que estão dentro do problema e da cidade, prefere um tratamento essencialmente plástico, associado aos interesses do setor imobiliário e com grande receio de enfrentar resistência político-partidária.
      Como arquiteto e urbanista até escrevi uma carta ao Escritório Jaime Lerner, achei que, de repente, estivessem precisando de colaboradores preparados que conhecessem e morassem na cidade, mas jamais obtive qualquer retorno.
      Não há dúvida de que uma ação na Luz, precisa considerar todos estes aspectos, mas não pode superestimar apenas um deles.
      Uma pena, mas continuamos como sempre fomos, vaidosos, despeitados, presunçosos, onde caráter, discernimento e respeito não parecem caber no mesmo lugar.

      • Meu caro Vital Kuriki

        O projeto que começou a ser construído agora em 2017 é do arquiteto paulista Mario Biselli e contempla 1208 apartamentos sendo 40% de HIS, 40% para as famílias de renda média e 20% para a construtora. É a primeira PPP no país. Se ninguém atrapalhar deverá ficar pronto em 2020.

        veja aqui

        http://www.saopaulo.sp.gov.br/spnoticias/alckmin-anuncia-construcao-de-conjunto-habitacional-no-centro-de-sao-paulo/

        A TV Record exibiu no ultimo domingo uma longa reportagem sobre a desocupação da cracolândia. Pela primeira vez a mídia deu voz a quem mais interessa o fim daquele inferno: os moradores do bairro. Uma moradora relatou que a cracolândia produz doentes mentais não só entre os viciados mas também entre os moradores que habitam os prédios cercados por lixo, ratos e traficantes. Imagine a tortura de ter que entrar e sair de seus apartamentos diariamente.

        Infelizmente porém, a questão da cracolândia foi partidarizada. Afinal, estamos em São Paulo a cidade mais cobiçada do país.

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