Prefeito de Manaus despreza demanda por moradia digna

Hoje fui surpreendida por uma matéria do Estadão sobre uma discussão do prefeito de Manaus, Amazonino Mendes, com uma mulher que mora em uma área de risco da cidade. À alegação da moradora de que não poderia deixar o local porque não havia outro para onde ela pudesse ir, o prefeito respondeu com um “Então morra!”.

A discussão foi exibida pela TV Amazonas e já está disponível no youtube. Abaixo, segue também a matéria do Estadão.

”Então morra”, diz prefeito

Amazonino discute com moradora de área de risco de Manaus e ironiza origem paraense

22 de fevereiro de 2011

O prefeito de Manaus, Amazonino Mendes (PTB), discutiu ontem com a moradora de uma comunidade onde uma mulher e duas crianças morreram soterradas. O prefeito disse que as pessoas na comunidade Santa Marta, na zona norte da capital do Amazonas, ajudariam a prefeitura “não fazendo casas onde não devem”.

Uma moradora não identificada retrucou, destacando que “a gente está aqui, porque não tem condição de ter uma moradia digna”. Exaltado, o prefeito então respondeu: “Minha filha, então morra, morra.”

A moradora retrucou. Disse que, se é assim, “então vamos morrer todos”. Amazonino então perguntou sua origem. Quando a moradora respondeu que havia vindo do Pará, o prefeito encerrou a discussão dizendo: “Então pronto, está explicado.”

A discussão foi ao ar, na íntegra, no jornal do meio-dia da TV Amazonas, repetidora da TV Globo, e foi colocada no site de vídeos YouTube. O Estado procurou a moradora que aparece no vídeo no início da tarde de ontem, mas ela havia saído para trabalhar. A Assessoria de Imprensa da prefeitura informou que a Defesa Civil está cadastrando as pessoas na área de risco para providenciar casas alugadas.

Vaias. Em 26 de novembro do ano passado, durante visita a Manaus do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Mendes foi vaiado durante seu discurso. “Nunca na minha vida sofri esse tipo de constrangimento. Se o Amazonino não tiver a aprovação do povo, vocês vão ter outro prefeito, porque eu vou sair”, reclamou o prefeito de Manaus, depois da vaia, referindo-se a ele mesmo. “Eu vou mandar fazer uma pesquisa. Se for negativa, renunciarei ao meu mandato.”

A gestão e o planejamento do solo parece que não fazem parte da política urbana no Brasil

Ontem à tarde participei do Jornal da Globo News, novamente falando sobre a questão das chuvas. O vídeo está disponível aqui.

A apresentadora Leilane Neubarth começou a entrevista me perguntando o que pode ser feito para mudar essa situação. Segue abaixo a transcrição do trecho inicial:

Essa tragédia tem a ver com o fato de que a ocupação do território se dá de forma completamente negligente. No fundo nós estamos construindo cidades sem nenhuma consideração em relação à vulnerabilidade dos espaços. E quando se fala nisso, imediatamente, as pessoas pensam: “mas por que é que esse povo foi morar em área de risco?”.

Nós precisamos entender que não foi dada nenhuma oportunidade para que os moradores urbanos brasileiros pudessem se instalar num local com qualidade, urbanidade e segurança. Na verdade, a maior parte das nossas cidades foi autoproduzida por seus moradores nos piores lugares, que são os lugares mais baratos, já que o salário dos trabalhadores brasileiros jamais foi suficiente pra cobrir o custo da moradia numa área adequada.

Mas essa tragédia na região serrana do Rio de Janeiro está mostrando que não são só os bairros populares irregulares e autoconstruídos que estão sujeitos a esse tipo de problema. Nós vimos condomínios de luxo desabando, instalados em áreas inadequadas.

E isso leva a uma outra questão, que é a gestão do solo urbano. E esse é um problema ainda não tocado. Fala-se em política de habitação, em construção de casas, em saneamento, em obra disso e daquilo, em dinheiro para isso e aquilo, mas a gestão e o planejamento do solo é um assunto que parece que não faz parte da agenda de política urbana no Brasil.

A gestão é precária e os efeitos disso é o que nós estamos vendo agora, e que se repete todos os anos e vai continuar se repetindo se esse modelo e essa lógica não for superada.

Cidade de Deus nunca mais

Publicado no Jornal do Brasil
 
Belo e forte filme brasileiro, Cidade de Deus concorre neste domingo à premiação máxima da Academia de Hollywood em quatro categorias, tendo como principal personagem um lugar real, captado da obra de Paulo Lins e levado às telas por Fernando Meirelles. Para quem vê tudo de fora, parece tratar-se de mais uma favela violenta, habitada por gente pobre e controlada pelo tráfico de drogas. Entretanto, através das lentes do cinema, Cidade de Deus perturba o espectador, ao contar sua história.
 
A narrativa começa nos anos 60, governo Lacerda, quando o conjunto habitacional começa a ser construído, para abrigar moradores removidos de favelas, com o objetivo de extirpar o que era considerado desde o início do século XX uma espécie de ”chaga urbana”.

A dualidade cidade/favela começa aí: em 1900 a favela estava para a cidade assim como o sertão de Canudos estava para o litoral: bárbaro, ameaçador, agreste e miserável. Mas é só a partir dos anos 40, que a política para a favela entra na prática e no discurso das políticas públicas do país. Removê-las e em seu lugar construir a alternativa da casa própria produzida pelo Estado passou a ser a palavra de ordem da política habitacional.

O artigo está disponível aqui.