Será que conseguiremos evitar a instalação de um estado de exceção no Brasil durante a Copa e as Olimpíadas?

Ontem e hoje participei de um seminário sobre impactos urbanos em megaeventos esportivos, promovido pela FAU-USP, pelo Núcleo de Direito à Cidade do Departamento Jurídico XI de Agosto e pela Relatoria da ONU para o Direito à Moradia Adequada. Entre os participantes, havia pesquisadores da Grécia e da África do Sul, que já realizaram Jogos Olímpicos (Atenas) e Copa do Mundo. Também ouvimos o relato dos Commonwealth Games (os jogos das ex-colônias britânicas), que acabaram de acontecer em Nova Déli, na Índia.

Além da preocupação com os impactos urbanos, houve também toda uma discussão sobre violações de direitos no âmbito destes megaeventos. Entre os vários elementos colocados, acho que a principal preocupação, que deixou muitos participantes, assim como eu, chocados, é o fato de que, em função dos jogos e principalmente durante a sua realização, os países se comprometem a fazer uma espécie de suspensão da legislação em vigor em relação a vários aspectos.

Muitas vezes a justificativa para isso é a necessidade de fazer rapidamente as obras, de concluí-las a tempo para os eventos. E aí questões importantes como avaliação de impacto ambiental, procedimentos de licitações, e uma série de coisas que normalmente são exigidas, de repente não existem mais. E isso acaba provocando graves violações de direitos em muitas situações.

Ouvimos relatos principalmente de violações de direitos trabalhistas, especialmente na construção civil; ouvimos também relatos sobre o controle das áreas em volta dos locais dos jogos, da proibição do comércio local, inclusive da proibição de circulação de pessoas em determinadas áreas. Essas questões todas somadas caracterizam o que foi chamado no seminário de uma espécie de estado de emergência ou de exceção.

E a preocupação numa situação como essa é: até onde vai isso? Que tipo de controle a sociedade pode exercer? Onde estão as informações? E esta foi também uma das questões apontadas, a falta de transparência, a não disponibilidade das informações. O que vai acontecer? Onde? Quem vai ser atingido? Qual o prazo? Ao menos descobrimos que isso não é algo exclusivo do Brasil. Todos esses processos de realização de megaeventos como Copa do Mundo e Olimpíadas se dão dessa forma segundo as experiências relatadas.

Ninguém sabe nada, ninguém informa nada e as decisões são tomadas num âmbito que ninguém sabe exatamente qual é, mas que muitas vezes é bem diferente do âmbito normal de tomada de decisões já conhecido da população. Essa é uma preocupação muito grande. Será que no Brasil vamos conseguir fazer de forma diferente? Pelo que vimos até agora, não estou muito otimista. Mas ainda é tempo.

Impactos Urbanos e Violações de Direitos Humanos nos Megaeventos Esportivos: seminário dias 8 e 9

Nos dias 8 e 9, será realizado em São Paulo o seminário “Impactos Urbanos e Violações de Direitos Humanos nos Megaeventos Esportivos”, que está sendo organizado pela Relatoria Especial da ONU para o Direito à Moradia Adequada em parceria com a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP e o Núcleo de Direito à Cidade do Departamento Jurídico XI de Agosto. Veja mais informações no boletim especial da Relatoria sobre o evento.

Por falar neste assunto, no mês passado dei uma entrevista ao Jornal Brasil de Fato sobre megaeventos e direito à moradia. Confira abaixo:

A moradia do pobre ameaçada pela Copa e pelas Olimpíadas

Relatora da ONU para o direito à moradia adequada afirma que somente com mobilização é possível frear despejos

06/10/2010 Eduardo Sales de Lima
da Redação

A realização de grandes eventos esportivos vem sempre acompanhada por violações aos direitos humanos. Especificamente no setor de moradia, os problemas sobressaltam-se ainda mais. Isso é o que conclui a relatora especial da Organização das Nações Unidas (ONU) para o direito à moradia adequada, Raquel Rolnik.

Para ela, as comunidades mais atingidas e desrespeitadas por grandes eventos esportivos são justamente as de menor renda. A relatora da ONU cita exemplos de remoção em massa no Cazaquistão, na Índia e na China, por conta de eventos desse tipo.

Rolnik destaca que, por meio de mobilização popular, ainda é possível evitar os despejos autoritários tão comuns no Brasil. E isso já está ocorrendo. Organizações sociais urbanas de todo o país realizaram, entre os dias 20 e 24 de setembro, a Jornada de Lutas Nacional contra Despejos.

Potencializadas, agora, pela realização da Copa do Mundo e das Olimpíadas, em 2014 e 2016, respectivamente, as remoções massivas de comunidades pobres, em decorrência de obras de infraestrutura, tendem a se intensificar. Em entrevista, Rolnik elucida essa e outras questões.

Brasil de Fato – Trata-se de um mito o fato de que a realização de grandes eventos valorizam as cidades-sede e melhoram os indicadores socioeconômicos?
Raquel Rolnik –
A pergunta central que deve ser feita é “benefício para quem?”. Esses grandes eventos esportivos geram oportunidades de negócios. Isso implica uma movimentação do ponto de vista dos negócios, da dinamização econômica dessas cidades. Agora, toda a discussão é quem será beneficiado por isso. E a resposta vai depender fundamentalmente do conjunto de políticas que serão implementadas por essas cidades e, nos eventos de jogos olímpicos, no Rio de Janeiro. Vamos depender muito da capacidade de organização da sociedade civil. Um exemplo é o caso da cidade de Vancouver, no Canadá, sede dos Jogos Olímpicos de Inverno, ocorridos em fevereiro de 2010, que tinha uma proposta inicial e que teve toda uma mobilização social que obrigou os promotores do evento a reverem seus planos e suas posições e incorporarem uma agenda muito mais social a partir dessas intervenções.

Você destaca em sua relatoria da Organização das Nações Unidas (ONU) que um dos setores que serão mais atingidos será o da moradia. Mas os projetos urbanísticos relacionados às cidades-sede da Copa do Mundo no Brasil poderão sofrer mudanças com mobilização social, sobretudo os relacionados à moradia?
Isso é uma questão constante nas cidades que sediaram eventos desse tipo. A remoção em massa, decorrente das grandes obras, não somente da construção ou reforma de estádios, mas também das obras de infra-estrutura em conjunto, promovendo reurbanização e melhorias na mobilização das cidades, atinge especialmente as comunidades de mais baixa renda e os assentamentos informais. Eles são muito vulneráveis às situações de remoção na medida em que a situação da propriedade é muito menos reconhecida no âmbito jurídico do que a propriedade privada registrada no cartório.

Ou seja, quando as obras de infraestrutura ligadas aos estádios envolvem propriedades privadas, vão envolver compensação, vão envolver um pagamento em relação àquela casa e muitas vezes o pagamento é razoável. O que acontece é que quando se trata de comunidade de baixa renda, normalmente, os direitos são muito pouco reconhecidos, mesmo o direito à moradia estando escrito na Constituição, como no caso brasileiro.

Nós já estamos assistindo às propostas de remoção em Belo Horizonte (MG), em Fortaleza (CE), no Rio de Janeiro (RJ), em São Paulo (SP). Em várias cidades do Brasil isso já está acontecendo sem a adequada compensação com propostas de assentamento. Até o momento isso é um dos grandes problemas, dos grandes perigos na realização desses eventos aqui no Brasil, violações no campo do direito à moradia.

Você sabe quantidade de famílias que já foram ou serão atingidas?
Eu estou tentando montar uma base de dados. Mas não há informação, é uma caixa preta. Como é possível que projetos que estão sendo apresentados para acontecerem por cima de comunidades sequer disponibilizam a informação de quantas famílias vão ser afetadas, e qual será o destino dessas famílias. Essa informação não existe, ela não está disponível.

O que eu sei, inicialmente, é que, no Rio de Janeiro, sessenta comunidades seriam de alguma forma atingidas por obras ligadas à Copa do Mundo a às Olimpíadas. Isso pode ser parcialmente, pode ser totalmente. Mas quantas pessoas estão nessas comunidades, qual o tamanho delas, o que irá acontecer, nada disso se sabe, não se tem dados. E isso é o elemento básico na questão do direito à moradia, que é o direito de todos os atingidos de saber quando tal projeto fica pronto, qual a proposta, e o direito, inclusive, de participar da discussão de alternativas dessas propostas. Sempre têm alternativas que vão remover menos, o contrário do que está acontecendo no Brasil hoje.

Se há essa caixa preta sobre os impactos sobre a população, então há muito menos informações sobre os recursos que seriam destinados a essas comunidades, e a melhoria e ampliação dos equipamentos públicos que serão utilizados no local onde essas pessoas serão alocadas.

Tenho acompanhado todos esses projetos para a Copa e isso posso te dizer com muita segurança. Acompanho os protocolos que têm sido assinados entre o governo federal, os governos estaduais e prefeituras que envolvem a Copa do Mundo. Nenhum deixava claro qual será o destino da família. O meu grande temor é que a maior parte das famílias receba simplesmente o “cheque-despejo”. Joga na mão delas um cheque, às vezes, de R$ 5 mil, de R$ 3 mil, de R$ 8 mil, que todos nós sabemos que é absolutamente insuficiente para sequer comprar um barraco de favela.

Num processo sem discussão, essas famílias ficam sem escolha. É o que aconteceu na Copa da África do Sul, não?
É inadmissível que no Brasil, considerando a importância dos movimentos sociais por moradia, da luta pela terra, mesmo assim, nós vamos repetir aqui o que, por exemplo, acabamos de testemunhar na Índia, em Nova Deli, as consequências das reformas urbanas causadas pelo Commonwealth Games [que ocorrerão entre os dias 3 e 14 de outubro]. No Cazaquistão, em decorrência dos Jogos Asiáticos de Inverno (2011), na África do Sul, por causa da Copa do Mundo, especialmente na Cidade do Cabo, e na China, devido aos Jogos Olímpicos de Pequim, de 2008, ocorreram desrespeitos semelhantes em relação à moradia.

O que aconteceu?
É muito difícil ter os números exatos para dizer exatamente quantos foram os atingidos. Se fala num número de um milhão de pessoas removidas em função, não apenas das estruturas dos Jogos Olímpicos de 2008, mas também por causa de toda a transformação urbanística da cidade. Normalmente, na política chinesa, as famílias são removidas para conjuntos habitacionais na extrema periferia da cidade.

Mas a situação chinesa é melhor do que essa que testemunhamos em Nova Deli, por causa do Commonwealth Games, onde favelas foram inteiramente removidas e simplesmente não houve nenhuma alternativa de reassentamento para milhares de famílias.

No Cazaquistão, onde eu acabei de estar agora, para construir os estádios que serão utilizados pelo Jogos Asiáticos de Inverno, muitas famílias que viviam em assentamentos informais e que foram removidas receberam uma compensação financeira, mas essa compensação foi completamente insuficiente para elas poderem adquirir uma moradia digna com esses recursos. Estou falando de duzentas, trezentas famílias.

No caso da África do Sul, a localidade que eu acompanhei mais foi a Cidade do Cabo, onde existia uma favela enorme, com 20 mil moradores. O governo já havia, há muitos anos, anunciado a intenção de urbanizar essa favela. E o que acabou acontecendo é que pessoas que foram removidas para habitações temporárias – para que ficassem nessa condição provisória até a reurbanização e redesenho do assentamento – até hoje permanecem nessa condição provisória. Muitos residem em “casas” que apelidadas “microondas”, porque são contêineres feitos de metal. Os prédios novos nesse assentamento acabaram não indo para a população que morava lá antes, mas sim para uma população de maior renda.

Tudo isso são exemplos de como a questão da moradia tem sido tratada em decorrência de grandes eventos. E é tudo o que se prenuncia no Brasil se rapidamente não houver uma mobilização dos próprios assentados e de todas as redes de movimentos sociais para induzir a realização de uma política de direito à moradia.

O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) é a instituição que, em teoria, deveria fomentar o desenvolvimento social do país. Afinal de contas, não seria a grande oportunidade dele exercer sua função social em relação a essa questão da moradia?
Essa questão do BNDES é ainda mais grave do que o modo como você está colocando. O governo brasileiro assumiu a posição de que o dinheiro público seria utilizado para obras de infraestrutura e mobilidade. Em relação aos estádios, seria pegar empréstimos de um banco público para investir nos estádios e, ao investir nos estádios, depois pagar de volta ao banco. Ele estaria atuando exatamente como ele atua hoje em vários ramos empresariais. Isso já acontece. Entretanto, está entrando dinheiro público sim, de uma maneira completamente indireta, mas eu vou citar alguns exemplos.

É o caso do estádio do Atlético Paranaense, em Curitiba. O Atlético, um clube privado, que teoricamente iria fazer a reforma de seu estádio, falando que iria se endividar, não iria pegar dinheiro do BNDES de acordo com que a FIFA pedia. Tem esse detalhe. A Fifa é a entidade mais corrupta de que se tem notícia. Ela consegue ser mais corrupta do que os governos. A Fifa exige reformas muito além do necessário, porque isso gera caixinha para seus dirigentes.

Tantos os projetos de reforma da Arena da Baixada, do Atlético Paranaense, e do estádio do Morumbi, do São Paulo, são semelhantes. Os dois clubes fizeram a proposta de reforma, que ia custar menos do que a Fifa queria, entre R$ 200 e R$ 300 milhões. A Fifa virou e falou que não, que não podia ser essa reforminha, teria que ser uma reforma maior, que gastasse algo em torno de R$ 500 milhões. No caso da Arena da Baixada, eles trabalham com o potencial construtivo do terreno [títulos imobiliários disponibilizados pela prefeitura de Curitiba e pelo estado do Paraná para promover a participação de investidores privados. A construtora que será contratada pelo Atlético Paranaense terá esses títulos como fiança. O valor máximo do potencial a ser cedido ao clube é R$ 90 milhões] onde está a arena, de modo que o investidor que está ali possa vender esse potencial construtivo, algo completamente delirante do ponto de vista jurídico.

Raquel Rolnik é urbanista, professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP) e relatora especial da Organização das Nações Unidas (ONU) para o direito à moradia adequada.

Copa do Mundo e moradias populares

Segue abaixo interessante matéria sobre Copa do Mundo e moradias populares, com dados do relatório sobre megaeventos esportivos e direito à moradia que apresentei ao Conselho de Direitos Humanos da ONU em março deste ano. O autor é o Marcelo Semer e o texto foi publicado esta semana no site da revista Carta Capital.

Euforia da Copa ignora moradias populares

Eventos esportivos fazem empresários e políticos eufóricos, mas ignoram habitação popular e deixam rastros de prejuízos sociais

Por Marcelo Semer*

Os corintianos estão eufóricos com a escolha do futuro estádio de Itaquera para a abertura da Copa 2014.

Os políticos também estão, com a liberação pelo Senado do limite de endividamento de Estados e municípios para a realização das obras.

E, sendo assim, os empresários certamente ficarão eufóricos, tanto mais com a sugerida flexibilidade nas licitações e a redução de impostos de materiais para as construções, forma indireta de investimento público.

Não estarão eufóricos, todavia, muitos moradores de comunidades vizinhas aos estádios ou de pontos de passagens de futuras linhas de transporte.

Estudo divulgado pela Relatoria da ONU para o Direito à Moradia põe a baixo o mito de que a realização de grandes eventos esportivos valorizam os municípios sede, agregando indicadores sócio-econômicos positivos.

Raquel Rolnik, a brasileira que é responsável pelo departamento na ONU, têm alertado para os prejuízos sociais costumeiramente suportados pelas cidades que organizam os grandes jogos.

Estes vão desde o encarecimento desproporcional dos imóveis, empurrando mais pobres à exclusão, até a retirada forçada de moradias populares.

Só na Olimpíada de Pequim, cerca de um milhão e meio de pessoas foram deslocadas de suas residências.

A África do Sul assistiu à constrangedora remoção de um bairro inteiro, com habitantes alojados em contâineres. O retrato bizarro, mas real, parecia o do filme Distrito 9, ficção em forma de documentário, que descreve a favelização de alienígenas numa espécie de “apartheid” extra-terrestre.

Especula-se que a Copa 2014 possa resultar em gastos diretos e indiretos de cerca de quarenta bilhões de reais ao país. Muitos deles, como se sabe, sairão ostensiva ou disfarçadamente, dos cofres públicos, habitualmente econômicos com outras despesas consideradas nem tão essenciais, como saneamento básico e habitação.

Para ler o texto completo, clique aqui.

Quais os impactos socioeconômicos de um evento como a Copa do Mundo?, no Sem Fronteiras

O programa Sem Fronteiras, da Globo News, apresentou esta semana edição especial sobre os impactos socioeconômicos de megaeventos esportivos como a Copa do Mundo.

Mais uma vez fui entrevistada sobre como este tema se relaciona com o direito à moradia adequada. O vídeo pode ser visto na íntegra no site da Globo News.

Entrevista à Radio Vatican: “África do Sul: o lado oculto da Copa do Mundo”

Segue abaixo o áudio (em francês) da entrevista que dei ao jornalista Thomas Chabolle, da Radio Vatican, sobre a Copa do Mundo e o direito à moradia.

Fonte: Radio Vatican

Kicked Out for the Cup?

Matéria da revista Newsweek para a qual fui entrevistada sobre megaeventos esportivos e direito à moradia.

Kicked Out for the Cup?

South Africa is accused of clearing Cape Town slums to clean up for the big event.

Victor Gumbi sits pensively beside a smoldering fire in a newly cleared lot, literally in the shadow of the recently renovated Ellis Park Stadium, one of the many venues where South Africa will host the World Cup football tournament, which kicks off this week. South Africa billed the world’s most popular sporting event as a boon to development that would help lift millions out of poverty, but Gumbi, a 35-year-old day laborer, says things are only getting worse. Not long after South Africa was awarded the tournament, an entire city block in the neighborhood where he lives was slated for destruction as part of a larger urban-regeneration scheme around the stadium, as Johannesburg began preparing for the throngs of tourists expected to come pouring in over the next few weeks. Late last year, the run-down building where Gumbi was squatting was torn down, leaving him in a small, jerry-built shack in the middle of a block of half-demolished houses that local residents have nicknamed “Baghdad.” Now many residents who’d been living in the area’s abandoned buildings for well more than a decade feel they’re being forced out because of the World Cup. “They want to hide us. They don’t want the Europeans seeing the people living here, so they demolished these dirty houses,” says Gumbi, who’s convinced he’ll be removed once and for all before the games actually begin.

Johannesburg city officials deny that any removals have taken place specifically for the tournament. Nevertheless, allegations of forced evictions for the World Cup have been sprouting up all over the country. Local headlines accuse South African police of rounding up the homeless and dumping them miles away (a charge the police deny), while residents from across Cape Town claim they’ve been relocated from their squatter settlements and dilapidated buildings to a temporary camp on the outskirts of town before the football fans arrive. In this case as well, the city dismisses such accusations, but it wouldn’t be the first time people have been uprooted in advance of a global sporting event. When Seoul hosted the 1988 Olympics, an estimated 15 percent of the population was displaced as a result of the capital’s overhaul. And 20 years later, it’s thought that far more than a million residents in Beijing found themselves in the path of a bulldozer in the run-up to the 2008 summer games. Now a recent report on such mega-events by the United Nations’ special rapporteur on adequate housing, Raquel Rolnik, states that in many current cases human rights are going out the door as host cities, including Cape Town, are being cleaned up to appeal to spectators.

For South Africa, the first World Cup on African soil was supposed to be different. Initially heralded as an opportunity to raise standards of living for the country’s roughly 25 million impoverished citizens, organizers laid out a development agenda for ensuring that benefits trickled down to the lowest rungs of the socioeconomic ladder. Since then the country has invested more than $4 billion in stadiums and upgrading its airports and other infrastructure. But in recent weeks government ministers have sought to play down expectations over its economic payoff, while commentators warn of being left with nothing but “white elephant” stadiums after the games end. For starters, the global recession has caused a dramatic reduction in the number of projected visitors, down nearly 25 percent to 373,000. And as the kickoff approaches, FIFA’s demands for a commercial exclusion zone around the venues for its official sponsors such as McDonald’s and Coca-Cola have come as a blow to thousands of South Africa’s street traders, who say they’re being pushed out for the monthlong event. President Jacob Zuma has pleaded with South Africans not to air the country’s problems in front of World Cup visitors, but with the opening match just days away, angry protests over evictions and substandard living conditions have flared up in many cities and squatter settlements.

Perhaps nowhere is that frustration more palpable than in Cape Town. Rolnik reports she received numerous complaints—more than anywhere else in South Africa—about residents being forced out for the World Cup and relocated more than 16 kilometers outside of town in a “temporary relocation area” known as Blikkiesdorp, or Tin Can Town. With Table Mountain as a backdrop, the sprawling, remote camp consists of about 1,700 identical metal huts on a wide plain of gravel surrounded by heavy concrete fencing. Housing-rights campaigners contend that plans to move people to these relocation areas, far from schools and job opportunities, are in violation of international human-rights standards, and newcomers complain of ill treatment by the police and freezing temperatures. “Why couldn’t they have put us somewhere else instead of here?” asks Francisco Green, whose family had just been relocated from a hostel they’d been squatting in near Cape Town’s newly refurbished practice stadium. “It was much better where we lived. We’re going to go through our first winter, and I think it’s going to be a disaster.”

Several miles away from Blikkiesdorp is the most prominent example of forced evictions cited in the U.N. report: a vast conglomeration of shacks known as the Joe Slovo informal settlement (named after the anti-apartheid activist and former housing minister). The settlement lines the highway between Cape Town and the city’s international airport, making it one of the first sites greeting incoming visitors. Because of its high visibility, it was targeted for a national pilot project shortly after the country was awarded the World Cup in 2004. The project would have completely razed the shacks and moved as many as 20,000 people to a temporary camp to make way for new, more attractive housing. Critics say the project was nothing more than an attempt to beautify the city for 2010, and angry residents last year won a Constitutional Court ruling that imposed such costly conditions on the eviction order that the government dropped the plan to move them, but only after several thousand people had already been evicted.

It’s not clear how many of the recent evictions would have taken place even if the World Cup had never come to South Africa. When the African National Congress came to power with Nelson Mandela as president in 1994, it promised to build a free house for virtually everyone living below the poverty line as a means of redressing the effects of apartheid, which essentially restricted nonwhites from owning property and living in cities. In practice, this new government housing has only pushed many poor blacks from urban centers to low-income ghettos miles outside of town. Now, with a mounting backlog and limited funding, the program that began by building actual homes is often reduced to warehousing people in rural transit camps, some far worse than Blikkiesdorp. Rhodes University professor Richard Pithouse says that there are currently 100 court cases challenging evictions in Durban, and that none of them can be connected to the World Cup, although the link has been made in the press. “This idea that mega-events lead to evictions has become very popular,” says Pithouse. “This is very worrying because people were being evicted long before we got the World Cup, and they will be evicted for a long time afterward.”

Critics say that political leaders in many emerging economies see no place for the poor in their vision of “world-class” cities, the kind fit to host major international events. Illustrating this, Marie Huchzermeyer of the University of Witwatersrand says South Africa is misinterpreting the U.N.’s Millennium Development Goal for improving the lives of slum dwellers. The U.N. meant to encourage nations to bring services like water and electricity to informal settlements, but South Africa took this as a mandate for “eradicating slums”—a phrase recently used by Zuma’s new minister of human settlements, Tokyo Sexwale. The country has set a target for slum-free cities by 2014, and Huchzermeyer says its approach is being mimicked from Morocco to Angola and Zimbabwe. That’s a troubling prospect for a continent in which the majority of the urban population lives in slums.

Rolnik warns that as more developing countries vie to host global sporting events, the greater the risk that slum-clearance campaigns will become more aggressive. The 2010 Commonwealth Games will be hosted in Delhi, where Rolnik’s predecessor, Miloon Kothari, reported that 300,000 people have been removed to make the city “slum-free” by the opening ceremony later this fall. The 2014 World Cup and the 2016 Olympics will take place in Brazil, where Rolnik reports that 35 “informal communities” already face eviction for the event, and this in a vibrant democracy with a long history of recognizing the rights of “informal settlers.” Rolnik says the International Olympic Committee did cooperate with the U.N. report, and agreed to begin including protections against evictions in its bidding process. FIFA, says Rolnik, never responded to repeated U.N. requests over several years for information. FIFA told NEWSWEEK that it “never requested any move or ‘cleaning-up’ of areas in any host city” for this year’s World Cup. However, it’s also unclear whether it has done anything to prevent it.

For people like Victor Gumbi in Johannesburg and those still living in the Joe Slovo informal settlement in Cape Town, such as 64-year-old Nonqaba Lujalajala, the threat of the World Cup has felt very real. Lujalajala built her diminutive shack in Joe Slovo shortly after the fall of apartheid, a time filled with pride and optimism for the future. Today, 16 years later, she says she’s glad football fans from all over the world will be confronted with the reality of her situation on their way to the games. “I’m still starving here,” she says, and now visitors will see South Africa as it really is, not how some of its leaders had hoped it would appear.

This story was supported by the Henry Demarest Lloyd Investigative Fund at the Center for Investigative Reporting.

Fonte: http://www.newsweek.com/2010/06/04/kicked-out-for-the-cup.html

Entrevista para o blog De Olho em 2014: “Para Raquel Rolnik, relatora da ONU, FIFA é uma ‘caixa-preta'”

Raquel é relatora das Nações Unidas para moradia adequada: "a Fifa não me responde" (Crédito: Milton Bellintani)

“A Fifa é uma caixa preta.” Quem diz isso é a relatora especial das Nações Unidas para o direito à moradia adequada, Raquel Rolnik, em entrevista concedida especialmente para o De Olho em 2014. A afirmação se refere à falta de resposta da entidade a seguidos convites para debater o impacto do Mundial do Brasil nas cidades anunciadas como sedes de jogos, em especial sobre as comunidades de baixa renda. “Falta transparência sobre os critérios de escolha e avaliação adotados, entre outros problemas”, diz.

No vídeo com a primeira parte da entrevista ao Blog, Raquel Rolnik explica que a ONU se preocupa com a qualidade do legado que os megaeventos esportivos deixam. “E essa é a razão pela qual as cidades se interessam em sediá-los.”

Para efeito de comparação, a urbanista, que também é professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP), diz ter procurado o COI (Comitê Olímpico Internacional) a fim de discutir esse assunto. “Ali, encontrei receptividade. Já a Fifa nunca respondeu às solicitações da relatoria especial da ONU.”

Para saber mais sobre o trabalho da urbanista, acesse o Blog da Raquel Rolnik.

Na próxima terça-feira (25), na segunda parte da entrevista, Raquel destaca: “Mundial não é balcão de negócios”

Para ver o vídeo com a entrevista, clique no botão abaixo:

Ver vídeo.

Fonte: De Olho em 2014 / Portal Terra