São Paulo realmente precisa do Itaquerão?

Quando falamos em Copa do Mundo no Brasil, um assunto difícil de abordar é a questão do estádio de São Paulo, que está inclusive ameaçando a participação da cidade no evento. Esse assunto é difícil porque envolve diferentes aspectos que, a meu ver, deveriam ser tratados separadamente: a necessidade de um novo estádio para São Paulo, a falta de um estádio para o time mais popular da capital e o futuro do bairro de Itaquera, na Zona Leste paulistana.

Em primeiro lugar, a cidade de São Paulo precisa construir um novo estádio para a Copa do Mundo? Não. O Morumbi poderia perfeitamente ser reformado para o evento, o que significaria economia de recursos financeiros. As razões da decisão da Fifa de não aceitar a reforma proposta pelo São Paulo, aliás, até hoje não ficaram claras. Aparentemente, há uma necessidade muito maior de gerar gastos de bilhões de reais do que de superar problemas técnicos.

Obviamente, o Morumbi tem problemas, a começar por sua localização. Some-se a isso o difícil acesso ao estádio por transporte público. Mas a implementação de um bom projeto de mobilidade seria um ganho para toda a cidade, não apenas para quem usa o Morumbi, seja em dias de jogos, seja em dias de shows, mas também para os moradores, trabalhadores e frequentadores da região.

A segunda questão é: o Corinthians merece ter o seu próprio estádio? Como clube de futebol mais popular da cidade, paixão e alma paulistana, o Corinthians merece, sim, ter seu estádio. Mas será que o estádio do Corinthians não é o Pacaembu? Além de ser extremamente bem localizado, com fácil acesso por metrô e ônibus, o Pacaembu é também o estádio mais bonito do Brasil em termos de arquitetura e inserção urbana. Uma parceria entre o Corinthians e a prefeitura de São Paulo poderia viabilizar esta solução, mantendo o estádio aberto ao público como deve ser. O Pacaembu merece o Corinthians e o Corinthians merece o Pacaembu.

Por fim, em relação à Itaquera: o bairro merece intervenções urbanísticas que proporcionem melhorias para a região? Claro que sim! Itaquera, um dos centros da Zona Leste, a região mais povoada – e historicamente negligenciada – de São Paulo, carece de investimentos urbanísticos há muito planejados e nunca implementados. Mas, seguramente, um estádio não tem a capacidade de transformação urbanística positiva que se quer vender com a construção do Itaquerão.

Em lugar nenhum do mundo, grandes estádios atraem grande densidade de usos e investimentos em seu entorno. Muito pelo contrário – no mais das vezes, acabam gerando uma zona morta ao seu redor, já que ocupam grandes áreas, exigem grandes espaços de estacionamento e áreas de escape e, assim, bloqueiam a urbanidade. Ou seja, uma intervenção urbanística em Itaquera é bem-vinda, mas não será o Itaquerão que proporcionará as melhorias de que o bairro precisa. Itaquera e a Zona Leste merecem algo muito melhor que um estádio que, após a Copa, se tornará um elefante branco.

Infelizmente, ao se misturar três questões muito distintas, esconde-se o que não se quer dizer e impede-se – pela paixão – de se tomar uma decisão a altura de São Paulo, dos corinthianos e dos moradores da Zona Leste.

Texto originalmente publicado no Yahoo! Colunistas.

Conversa com Juca Kfouri sobre os impactos da realização da Copa do Mundo no Brasil

No fim de semana participei do programa de entrevista do Juca Kfouri, no canal ESPN. Conversamos sobre os impactos da realização da Copa e das Olimpíadas no Brasil, tanto do ponto de vista urbanístico, quanto do ponto de vista dos direitos humanos, especialmente do direito à moradia, que é o tema que venho acompanhando como Relatora Especial da ONU.

Clique no link abaixo para ver um trecho da conversa:

Relatora da ONU é convidada do Juca Entrevista

Obras da Copa do Mundo de 2014: mais caras e atrasadas, como previsto

Segundo notícia divulgada pelo Correio Braziliense na semana passada, o primeiro relatório do Tribunal de Contas da União sobre as obras para a Copa de 2014 “aponta atraso no início de obras, estouro significativo em orçamentos, falta de transparência nos atos do governo e irregularidades graves nos projetos.”.

Entre as obras mencionadas no relatório estão reformas e construções de estádios, reformas de aeroportos e projetos de mobilidade. De acordo com o jornal, o TCU concluiu que “são grandes os riscos de aditivos contratuais, sobrepreço, contratos emergenciais e aportes desnecessários de recursos federais, a exemplo das obras do Panamericano de 2007.”

Leia a matéria completa aqui.

O relatório do TCU está disponível no site do órgão. Clique aqui para baixá-lo.