Como diminuir a emissão de carbono e o que isso tem a ver com nossa vida cotidiana?

O acordo fechado na Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas (COP 16), que acabou de acontecer em Cancun, no México, é um acordo entre países com o objetivo, basicamente, de diminuir as emissões de gases de efeito estufa para evitar maiores problemas que os que já estão acontecendo em relação às mudanças climáticas no mundo e, também, teoricamente, para promover uma economia de baixo carbono, ou seja, uma economia que emite poucos gases de efeito estufa e que, portanto, poderá cumprir mais facilmente as metas de redução das emissões de que trata o acordo.

Tudo isso, obviamente, está relacionado a uma política global, principalmente com a matriz energética mais utilizada no mundo, que é o petróleo, o grande emissor de gás de efeito estufa. Mas tem a ver também com o elevado padrão de consumo das nossas sociedades.

Eu chamo atenção para esse ponto porque trata-se de uma dimensão da questão da redução da emissão de gases de efeito estufa que tem a ver diretamente com iniciativas locais, mais próximas da nossa vida cotidiana. E tem toda relação, por exemplo, com o projeto Cidades em Transição (Transition Towns), um movimento criado na Inglaterra e que já chegou ao Brasil.

Essas e várias outras iniciativas de redes e organizações internacionais e nacionais procuram introduzir uma nova cultura justamente no nível local, comunitário, com o objetivo de promover uma prática de vida cotidiana e uma economia com menos emissão de carbono.

Essa nova cultura passa pela diminuição do desperdício, pela reciclagem do lixo, e também pela drástica diminuição do padrão de consumo, por exemplo, através das trocas solidárias. Há um incentivo para que as pessoas troquem mais e comprem menos e, portanto, para que se produza menos, pois sem a redução do padrão de consumo, muito dificilmente, mesmo produzindo tecnologias mais verdes, conseguiremos reduzir a emissão de carbono.

Questões como a diminuição da erosão e do desmatamento também têm a ver com essa nova cultura, já que as florestas verticais absorvem o carbono da atmosfera. Tudo isso, portanto, tem a ver com os acordos da COP 16 e também com a soma da prática cotidiana. É importante, então, ter uma dimensão cotidiana e local no acordo de redução de emissão de carbono? É importante introduzir uma nova cultura como propõe o projeto Cidades em Transição? É muito importante. Mas isso basta? Não, não basta.

Podemos usar o exemplo da própria Vila Brasilândia onde o projeto foi lançado sábado no Brasil. A Vila Brasilândia pode ficar superlegal, supersustentável, mas todo mundo, para sair da Vila Brasilândia e ir para qualquer lugar, já que lá não existem os empregos, as oportunidades de consumo e de desenvolvimento humano que estão em outros lugares da cidade, precisará queimar muito gás de efeito estufa nos ônibus e automóveis. Isso não torna o projeto menos importante, mas mostra que ele tem limites.

Em cidades como Tóquio e Londres, os prédios são um dos maiores responsáveis pela emissão de CO2

Um dos temas fortes do Fórum Urbano Mundial, trazido principalmente por países europeus e, também, pela América do Norte e Austrália, é o tema da sustentabilidade, da emissão de carbono e toda a questão do impacto ambiental da organização das cidades. Sobre este tema eu gostaria de comentar especificamente sobre a discussão em torno dos edifícios.

Eu fiquei muito impressionada com um dado que afirma que em cidades como Tóquio ou Londres, e em várias cidades norte-americanas também, um dos maiores responsáveis pela emissão de carbono e pelo consumo de energia são os prédios. Evidentemente isso tem a ver com o problema da climatização, ou seja, com o aquecimento dos edifícios durante o inverno, principalmente nos lugares onde há vários meses de frio, mas também com o uso do ar-condicionado para resfriar e manter uma temperatura agradável no verão. Além disso, há o uso do elevador, da iluminação artificial e de muitos outros elementos.

Todas as políticas que pretendem cortar essas emissões e diminuir o consumo de energia exigem entrar nesta questão. E muitas cidades do mundo já estão adotando mudanças nos seus códigos de obras para transformar os edifícios em edifícios mais eficientes do ponto de vista da energia.

Mas a grande discussão é a seguinte: o que fazer com essas cidades que já têm um grande número de edifícios, de torres – principalmente essas torres enormes de vidro que não são nada eficientes do ponto de vista energético, já que exigem iluminação artificial, climatização permanente? Derrubar tudo e construir de novo geraria um custo enorme, seria um absurdo, geraria tanto entulho que se tornaria um problema ambiental muito mais complicado. Depois demandaria tanto cimento, e cimento é uma das indústrias que mais emitem carbono.

Encontrei no Fórum um stand muito interessante, apresentando a solução de criar uma espécie de envelope nos edifícios existentes, uma segunda pele, paralela à pele dos edifícios (a fachada) criando um colchão de ar entre a primeira e a segunda pele e permitindo que, a partir daí, o edifício conserve energia. Ou seja, que conserve calor durante o inverno e uma temperatura agradável durante o verão. Essa é uma idéia interessante que já está sendo adotada em algumas cidades. Johanesburgo, na África do Sul, é uma das cidades, Londres também tem um programa desse tipo, e Washington está adotando esse programa nos seus edifícios públicos. Enfim, esta é uma das tecnologias novas que estão aparecendo para se tentar enfrentar o sério problema ambiental que estamos vivendo hoje no nosso planeta.

Aqui no Rio de Janeiro, absolutamente todos os lugares têm ar-condicionado, senão morremos de calor. Mas isso não necessariamente deveria ser assim e existe tecnologia para se fazer edifícios muito melhores.