Que impactos sociais o estádio do Corinthians causará no bairro de Itaquera?

Ontem o programa A Liga, da Band, falou sobre o bairro de Itaquera, na Zona Leste de São Paulo. Participei do programa conversando com moradores de comunidades que serão afetadas por obras viárias ligadas à construção do estádio do Corinthians. Estima-se que 5 mil famílias sejam despejadas por conta destas obras.

O programa mostrou também como é o transporte, o abastecimento e o lazer do bairro. Os vídeos estão todos disponíveis no site dA Liga. Veja abaixo a primeira parte:

São Paulo realmente precisa do Itaquerão?

Quando falamos em Copa do Mundo no Brasil, um assunto difícil de abordar é a questão do estádio de São Paulo, que está inclusive ameaçando a participação da cidade no evento. Esse assunto é difícil porque envolve diferentes aspectos que, a meu ver, deveriam ser tratados separadamente: a necessidade de um novo estádio para São Paulo, a falta de um estádio para o time mais popular da capital e o futuro do bairro de Itaquera, na Zona Leste paulistana.

Em primeiro lugar, a cidade de São Paulo precisa construir um novo estádio para a Copa do Mundo? Não. O Morumbi poderia perfeitamente ser reformado para o evento, o que significaria economia de recursos financeiros. As razões da decisão da Fifa de não aceitar a reforma proposta pelo São Paulo, aliás, até hoje não ficaram claras. Aparentemente, há uma necessidade muito maior de gerar gastos de bilhões de reais do que de superar problemas técnicos.

Obviamente, o Morumbi tem problemas, a começar por sua localização. Some-se a isso o difícil acesso ao estádio por transporte público. Mas a implementação de um bom projeto de mobilidade seria um ganho para toda a cidade, não apenas para quem usa o Morumbi, seja em dias de jogos, seja em dias de shows, mas também para os moradores, trabalhadores e frequentadores da região.

A segunda questão é: o Corinthians merece ter o seu próprio estádio? Como clube de futebol mais popular da cidade, paixão e alma paulistana, o Corinthians merece, sim, ter seu estádio. Mas será que o estádio do Corinthians não é o Pacaembu? Além de ser extremamente bem localizado, com fácil acesso por metrô e ônibus, o Pacaembu é também o estádio mais bonito do Brasil em termos de arquitetura e inserção urbana. Uma parceria entre o Corinthians e a prefeitura de São Paulo poderia viabilizar esta solução, mantendo o estádio aberto ao público como deve ser. O Pacaembu merece o Corinthians e o Corinthians merece o Pacaembu.

Por fim, em relação à Itaquera: o bairro merece intervenções urbanísticas que proporcionem melhorias para a região? Claro que sim! Itaquera, um dos centros da Zona Leste, a região mais povoada – e historicamente negligenciada – de São Paulo, carece de investimentos urbanísticos há muito planejados e nunca implementados. Mas, seguramente, um estádio não tem a capacidade de transformação urbanística positiva que se quer vender com a construção do Itaquerão.

Em lugar nenhum do mundo, grandes estádios atraem grande densidade de usos e investimentos em seu entorno. Muito pelo contrário – no mais das vezes, acabam gerando uma zona morta ao seu redor, já que ocupam grandes áreas, exigem grandes espaços de estacionamento e áreas de escape e, assim, bloqueiam a urbanidade. Ou seja, uma intervenção urbanística em Itaquera é bem-vinda, mas não será o Itaquerão que proporcionará as melhorias de que o bairro precisa. Itaquera e a Zona Leste merecem algo muito melhor que um estádio que, após a Copa, se tornará um elefante branco.

Infelizmente, ao se misturar três questões muito distintas, esconde-se o que não se quer dizer e impede-se – pela paixão – de se tomar uma decisão a altura de São Paulo, dos corinthianos e dos moradores da Zona Leste.

Texto originalmente publicado no Yahoo! Colunistas.

Novo estádio do Corinthians para a Copa parece melhor do que Piritubão, mas essa história ainda é nebulosa

Apesar de toda euforia que envolve o anúncio da construção do novo estádio do Corinthians como sede da Copa de 2014, será que esta é mesmo uma decisão definitiva? A questão fundamental é que essa história toda é ainda um tanto nebulosa, não sabemos ao certo por onde passa esse processo decisório sobre os estádios da Copa.

Até agora não ficou claro para ninguém por que o Morumbi não serve. Para mim, pelo menos, não ficou clara até hoje qual é exatamente a crítica em relação ao Morumbi. Se for aquela história de que ele não tem o número de cadeiras exigidas para a abertura da Copa, as intervenções devem ser feitas para que este número seja ampliado.

O novo estádio proposto já não será feito com o número de cadeiras necessário, que são quase 70 mil. Será um estádio de 45 mil cadeiras, então desse ponto de vista ele também não serve. Me parece que por alguma razão a FIFA, junto com a CBF, está pressionando para que se construa um estádio novo. Tentaram um balão de ensaio com Pirituba, não deu certo. Levaram Itaquera.

Não tenho dúvidas de que a localização e a equação de Itaquera – o terreno, que já é do Corinthians, do lado do metrô, numa área que é muito mais adequada do que a de Pirituba – já são bem melhores. E isso aliado às comemorações dos 100 anos do Corinthians aparece bem melhor na fita.

Porém, ainda me parece questionável que São Paulo tenha que ter uma nova arena. Será que o número de estádios da cidade não é suficiente para atender a demanda em relação a esse tipo de equipamento?

Mais estranho ainda é que ninguém viu o tal projeto do estádio e as obras já estavam anunciadas na imprensa este final de semana. Ora, quando foram ver o projeto do Morumbi tentaram encontrar todas as falhas possíveis. Assim ninguém entende mais nada. Como eu já disse, essa história é bastante nebulosa e me parece que ainda vai rolar muita água debaixo dessa ponte.

Sem querer defender a localização do Morumbi, porque todo paulistano sabe que a localização é ruim, que o lugar não é bom para um estádio, que não tem transporte coletivo de massa, mas, em termos de gastos para a cidade, será que não vale mais a pena termos nossos estádios e arenas muito bem cuidadas e continuar com elas?

Ou seja, embora a construção do novo estádio esteja sendo lançada como a solução definitiva, permanece a pergunta: quem vai ganhar com essa construção?

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