O dia seguinte

As únicas certezas que podemos extrair do resultado da votação sobre a admissibilidade do processo de impeachment contra a presidente Dilma Rousseff, na Câmara dos Deputados, no último domingo (17), são a perda da base política do governo entre os deputados federais e o desejo de mudança expresso pela sociedade.

No mais, estamos longe de um desfecho da crise que atravessamos, já que a recessão econômica e a debacle institucional são temas ainda totalmente em aberto no país.

De fato, há muitas incógnitas pela frente: se a presidente Dilma Rousseff conseguirá ou não barrar o processo de impeachment no Senado ou no STF; se as denúncias que pesam sobre o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, serão ou não levadas adiante; se o vice-presidente Michel Temer será ou não afastado, entre outras. Mas, apesar de tomarem conta dos noticiários e do espetáculo midiático da crise, esses não são os elementos mais relevantes para o seu desfecho.

Obviamente, há um recado claro de desejo de mudança, ecoado por diferentes setores da sociedade. Para uma parte, majoritária até domingo passado pelo menos –mas longe de ser consensual–, esse desejo se converteu em ódio contra Dilma/Lula e o PT. Para estes, o impeachment de Dilma resolveria os problemas e o país voltaria a crescer. Para essa mesma parcela, o problema seria a “ladroagem” que, ao fazer escoar dinheiro público, teria afundado o país. Mas, insisto, trocar de governo e de partido não será solução para a crise que enfrentamos.

A exposição pública do Congresso nos últimos dias teve, no mínimo, um profundo sentido didático: os brasileiros puderam ver que grande parte dos deputados discursava apenas para marcar presença, sem qualquer tipo de conteúdo político, e que deputados sobre quem pesam denúncias de corrupção bradavam, justamente… contra a corrupção.

Ora, dos nossos 513 representantes na casa, 299 têm ocorrências judiciais, 76 já foram condenados e 57 são réus no Supremo, inclusive o que presidiu a sessão. Por outro lado, o vaivém de votos até o último momento revelou de forma clara que o que predomina neste modelo de política não é a disputa por diferentes projetos de sociedade e país –com exceções importantes, não podemos esquecer!–, mas sim a adesão pura e simples a coalizões com mais ou menos probabilidade de controlar o Estado para, assim, poder participar do “negócio” da política.

O que vimos, porém, foi apenas uma amostra, pois o que ocorre no Congresso Nacional não difere muito das dinâmicas presentes nas assembleias legislativas e câmaras municipais Brasil afora. E assim como em nível federal os presidentes não conseguem governar sem constituir maiorias no parlamento, prefeitos e governadores também enfrentam essa mesma questão, dependendo cada vez mais da composição com o mundo político-eleitoral estruturado pela corrupção e pelo fisiologismo (e nos seus entrelaçamentos).

Tomando o exemplo dos governos locais, podemos dizer que por trás de cada representante eleito que se beneficia de propinas e outras ações ilícitas, há um empresário dono de empreiteira, de concessionária de ônibus ou de lixo, entre outros… E a consequência disso não é apenas que uma parte do dinheiro público se esvai –para as offshores e contas secretas de políticos e empresários no exterior–, mas também que a organização e construção de nossas cidades fica submetida à lógica deste negócio econômico-político.

Nesse sentido, para enfrentar a crise deveríamos começar olhando para o conjunto de atores que hoje dão as cartas na gestão das cidades, a fim de entender claramente quem são e como interferem nas decisões relacionadas às políticas públicas. Mais do que isso, é necessário ver como esses atores se posicionam hoje nas relações entre Estado e sociedade, e dentro do próprio Estado.

Não é mera coincidência que nos “Panama Papers” recentemente divulgados constem não apenas nomes como o de Eduardo Cunha e de outros políticos, mas também de concessionários do transporte público e de outros setores envolvidos com prestação de serviços públicos e construção de obras em nossas cidades.

O resultado –insisto– não é apenas o desvio de dinheiro, mas políticas públicas que garantem lucros polpudos para certos segmentos econômicos, sem atender às demandas da população com equidade, qualidade e eficiência.

Como já afirmei, está claro que existe um desejo de mudança na sociedade. Mas para pensar o tema da mudança, independente do desfecho político-partidário das questões que hoje aparecem como incógnitas, é importante ir mais fundo, revelar de forma clara as articulações entre poder público e setor privado –bem como seus efeitos–, e assim poder discutir o que de fato interessa: nossos projetos de cidade, de território, de país.

Falar genericamente de crescimento do emprego e da renda e do acesso a serviços públicos todos podem e certamente falarão em seus palanques. Mas, infelizmente, parte muito significativa de quem hoje adota, no campo político-eleitoral, o discurso da mudança não tem o menor interesse em que esta ocorra de fato.

*Publicado originalmente no site da Folha.

5 comentários sobre “O dia seguinte

  1. Cara Raquel e leitores deste Blog
    Não adianta a Sra. Dilma falar que teve por volta de 54 milhões de votos, quando ela e o PT traíram a confiança nela depositada. Como estão deixando o país completamente desacreditado economicamente falando ,e com um rombo enorme nas contas internas e externas, e para completar: com mais de 10 milhões de desempregados, qualquer um que venha a substituí-la, será melhor, do que ela continuar até 2018. O que virá não vai resolver todos os problemas , nos dois anos faltantes, pois esta catástrofe que abateu sobre o Brasil, vai levar cerca de cinco anos para começar ter uma recuperaração, pois deixaram os Cofres vazios, e de imediato que tem dinheiro não vai querer arriscar no país. E ainda Lula tem a cara de pau, em dizer, que sairá viajando pelo Brasil pedindo votos para 2018, se ele foi o criador de Dilma. Ela , após o afastamento ficará inteligível por oito anos, e Lula se for preso pela Lava Jato ficará totalmente queimado politicamente, e com um agravante o PT não tem mais ninguém para se lançar a candidatura pela Presidência. Da cúpula petista, quem não está preso, já foi citado na Lava Jato. E corre processo no Supremo Tribunal Eleitoral , que se ficar provado que Dilma usou dinheiro de propina da Petrobras nas ultimas campanhas, a Chapa Dilma e Temer será cassada e o PT poderá perder seu registro como partido.
    Grato por mais esta oportunidade
    Antonio da Ponte
    Corretor de Imoveis e Ambientalista.

    • Steel Hawks,
      Embora concorde que princípios liberais sejam os mais saudáveis para recuperação da economia, penso que somente uma progressiva revolução moral pode, de fato, transformar este país. Já experimentamos um bom plano econômico que foi destruído, um governo “popular” de tendência esquerdista recheado de políticos de segunda e terceira categorias, liderados por um oportunista imoral que se traveste de líder das massas e que tem práticas políticas, econômicas, sociais e culturais, absolutamente nefastas. Enquanto formos um povo que deposita suas expectativas em governantes e líderes despreparados e não confiáveis que, infelizmente, são aqueles que vêem na política o melhor meio de fazer fortuna e manter privilégios, não há esperança que se concretize. Somente uma cruzada civilizatória pode melhorar este quadro; demora, mas é perene. Se nada for feito nesta direção, novamente os esforços serão em vão, continuaremos a esperar o trem que nunca vem.

      • Vital, concordo com você.
        mas enquanto essa cruzada não acontece, ou não causa efeito, precisamos, no mínimo, colocar pessoas anti-esquerda e anti-progressimo no poder. ao menos limitamos o andamento da agenda populista.

  2. Acredito que acima de tudo, o problema de nossa política, economia, cidades e qualidade de vida esteja na teoria da modernidade líquida de Zygmunt Bauman. Uma sociedade ansiosa pelo ter, mas não o ter com responsabilidade e sim o ter a qualquer custo e ter agora, uma sociedade nascisista, com relações estreitas entre diferentes, relações mais midiatizadas do que reais e urbanas. Essas pessoas, que alimentadas por uma mídia manipuladora, vão as ruas pedir não a corrupção, mas de fato estão dizendo eu quero meu iphone novo, eu quero poder viajar novamente, eu quero comprar meu apartamento em algum condomínio fechado(com os maiores muros se possível). Sua ansiedade pela posse lhe traz indignação a qualquer coisa que lhe retire este gozo. Esta sociedade materialista influencia negativamente em diversos campos, como política, economia, urbanismo, cultura e outras mais. A culpa é da democracia, bora vendê-la, pois quero meu iphone de volta. Não estamos discutindo política senhores estamos discutindo interesses, e isso nós mesmos não queremos ver.

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