Lixo, tragédia e oportunidades

Podemos definir como trágica a situação atual do lixo no Brasil. Hoje, segundo dados do Ministério do Meio Ambiente, apenas pouco mais da metade de todo resíduo sólido produzido no país –58%– tem destinação adequada, ou seja, o que não é separado para reciclagem vai para aterros sanitários. Isso quer dizer que em muitas cidades o destino do lixo ainda são os lixões, depósitos completamente insalubres, prejudiciais ao meio ambiente e à saúde das pessoas que ali atuam de forma precária, sem qualquer proteção.

Desde 2010, porém, temos uma Política Nacional de Resíduos Sólidos que diz exatamente de que forma os diversos tipos de lixo devem ser coletados e qual destino deve ser dado a cada um. A política inclui desde a ideia da logística reversa para produtos especialmente poluentes, como equipamentos eletrônicos, baterias e lâmpadas, responsabilizando a cadeia produtiva pelo manejo do destino final dos itens descartados, até as políticas públicas necessárias para universalizar a coleta e a destinação final adequada do lixo.

A lei que instituiu a política também determinou que, até agosto de 2014, todos os municípios deveriam eliminar os lixões, implementando alternativas adequadas, como os aterros sanitários e a coleta seletiva. Entretanto, na data estabelecida muitos ainda não tinham conseguido atingir essa meta e, com isso, o Congresso Nacional passou a discutir a possibilidade de prorrogação do prazo, introduzindo datas escalonadas de acordo com o tamanho do município, ate 2020. Essa discussão ainda não foi concluída.

A gestão do lixo é complexa e envolve uma multiplicidade de atores e questões, de natureza tanto ambiental como social, passando pela responsabilidade individual de cada um em diminuir a produção do próprio lixo, bem como pelo desenvolvimento de alternativas de reaproveitamento e modos de coleta e reciclagem.

Sabemos que uma parte da população mais pobre e vulnerável do país vive do lixo. São catadores que trabalham nos lixões e nas ruas, coletando itens que possam gerar alguma renda. São estes, na verdade, os primeiros recicladores do país –e, em algumas cidades, os principais–, trabalhando quase sempre em condições precaríssimas, em situação de clandestinidade em relação às políticas públicas.

Mas em várias cidades do país a coleta seletiva tem avançado com a participação direta dos catadores, que, organizados em cooperativas, participam direta e oficialmente do sistema de coleta seletiva e reciclagem do lixo.

Em São Paulo, nos últimos anos, a Prefeitura tem empreendido um grande esforço para ampliar a coleta seletiva e a capacidade de reciclagem. Hoje, 85 dos 96 distritos da cidade são atendidos pelo Programa de Coleta Seletiva, cobrindo 53% do território municipal. Em metade dos distritos atendidos o serviço é universalizado, ou seja, está disponível em todas a ruas.

Das 12 mil toneladas de lixo coletadas nas casas das pessoas diariamente por esse sistema, 2,5% é reciclado –2% pelas concessionárias de lixo e 0,5% por 31 cooperativas de catadores. Nos próximos três meses, com a entrada de novas cooperativas no sistema, o trabalho será ampliado, atingindo 70% do território municipal.

A reciclagem em São Paulo mais que dobrou nos últimos anos com as iniciativas implementadas – além da incoporação das cooperativas, duas centrais de triagem mecanizadas foram construídas -, mas ainda é muito baixa. Para uma cidade que, como outras do país, já eliminou os lixões há tempos, os desafios ainda são imensos para avançar e superar a precariedade na coleta e, especialmente, na destinação do lixo.

*Publicado originalmente no site da Folha

3 comentários sobre “Lixo, tragédia e oportunidades

  1. deixo aqui uma provocação: se o lixo (coleta, tratamento, reciclagem e deposição) não fosse um monopólio do estado, nos teríamos esse problema? veja bem: tudo que não é monopólio estatal vai bem (comida, internet, etc etc etc) enquanto tudo que é monopólio do estado vai mal (educação, saúde, segurança, agua). Se acabasse o monopólio, e fosse permitido para as empresas concorrerem entre si a fim de oferecer um serviço bom para o povo e lucrativo para ela, ainda estaríamos falando deste assunto?

    • Como ilustração ao seu comentário, cito a represa Billings em São Paulo. Os condomínios particulares Sete Praias e Praia Vermelha são bonitos. Os lotes são ocupados racionalmente e de certa forma, esses condomínios contribuem para a preservação da represa. Já nas áreas públicas do entorno temos a favelização brutal e seus sub-produtos: poluição, lixo – dentro e fora da represa – degradação ambiental, ocupação desenfreada, etc. Um cenário digno de Nairóbi.

      É um retrato da cidade que dá certo (privado) e a que dá errado (estado)

      Privado 7 x 1 Estado

      Ai vem algum iluminado trajando uma camiseta vermelha e diz que meu comentário é elitista, burguês coxinha e discrimina os nordestinos culpando-os pela favelização das metrópoles. Portanto, não deve-se perder tempo com essas discussões.

      Isso é típico de certa parte da esquerda que em pleno século 21 ainda quer resolver problemas estruturais brasileiros com ideologia. Não aceita debater o maior de todos os problemas – a degradação urbana das metrópoles via migração – em bases reais e mensuráveis.

      Embora São Paulo tenha aparentemente resolvido a questão dos lixões, eles são apenas uma faceta dos inúmeros problemas causados pela superpopulação e favelização. Faltam outras demandas como habitação, saneamento básico – água(!) e esgoto para todos – meio ambiente urbano, saúde, emprego (em um ano de crise como 2016, melhor pensar em 2017 ou 2018) transporte, etc. Sem falar na violência, a consequência mais cruel da pauperização da metrópole.

      O Brasil é muito grande. Nada justifica a concentração da pobreza nas grandes cidades, produzindo lixo e degradação. A única justificativa é a política. Os olhos dos políticos até brilham ao vislumbrar nesses gigantescos contingentes de infelizes um inesgotável manancial de votos.

      abraço a todos

  2. Cara Raquel e leitores deste Blog
    Lamentavelmente o Lixo que são os tais Resíduos Sólidos, não dão votos. E culturalmente o povão não dão a mínima bola para pilhas de lixos e entulhos espalhados por todas as cidades, principalmente nas Capitais deste país continental.
    A data para o término dos Lixões a céu aberto era 2014, mas já estamos praticamente na metade de 2016 e nada aconteceu. Falta tudo, vontade politica, cobrança da sociedade, (que nem conhecimento tem disto) e principalmente dos Ministérios Públicos, que prevaricam constantemente em todas as áreas e não fazem cumprir as Leis Nacionais quanto mais as Internacionais e que afetam diretamente as populações.
    O lixo , se fosse tratado seria uma ótima fonte de renda, principalmente para aqueles cidadãos sem qualificação profissional. Reciclamos muito pouco, e não há os devidos incetivos para que a reciclagem aconteça pra valer. O Brasil precisa acordar para a questão, e não ficar brincando com coisa seríssima. Sabemos que o Lixão a Céu aberto , além da contaminação automática dos lençóis freáticos, produz inúmeros vetores , que afetam diretamente a saúde publica. Agora mesmo estamos tentando combater o mosquito da Dengue, particularmente acho impossível, só a vacinação em massa salvará a população. Não temos tratamento do Lixo, em paralelo não temos captação e tratamento dos Esgotos, isto sem falar na contaminação do Necro-chorume produzido pela maioria dos cemitérios, e que vão direto para os lençóis freáticos. Por que temos que ter tantos páteos de veículos aprendidos ou abandonados, por que não reciclá-los, gerando renda e empregos, e não criadoiros de Aedes Egypt. Lembrando que todos estes páteos tem um custo para o Estado. E em época de vacas magras !!??
    Se tivéssemos uma Sistema integrado de Reciclagem pra valer (Entrando neste o Logística Reversa), não precisaríamos nem de aterros sanitários, pois aquilo que não fosse reciclado de alguma forma, parte seria lixo orgânico que pode virar compostagem e economizar divisas em fertilizantes químicos, e o que sobra poderia ser incinerado gerando energia.
    Grato por mais esta oportunidade
    Antonio da Ponte – (64 anos)
    Ambientalista e Corretor de Imoveis.

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