Acesso à água: lições que vêm do passado

INDIA lago artificial Gadisagar

Lago artificial Gadisagar, construído em 1397, na cidade de Jaisalmer, para captação de água da chuva. Foto: Raquel Rolnik.

Viajando pela Índia, pude conhecer um pouco o problema do abastecimento de água em algumas regiões daquele país e como tem sido enfrentado. Na área do Deserto de Thar onde estive, tradicionalmente a população resolvia essa questão por meio da captação da água da chuva. Nas cidades dessa região, a arquitetura residencial – das casas mais simples aos grandes palácios – incorporava o mecanismo de captação das águas da chuva como elemento estrutural. Assim, toda água que caía nas calhas era direcionada para reservatórios, que depois serviam para abastecer as casas.

Além desse sistema, grandes tanques e imensos lagos artificiais – muitos deles construídos por marajás ainda no século XIV – também recolhiam água da chuva para abastecer as cidades. Um exemplo é o Lago Gadisagar, construído em 1367, na cidade de Jaisalmer.

Tanque de captação de água da chuva construído no século XVIII, na cidade de Jodpur. Foto: Raquel Rolnik.

Tanque de captação de água da chuva construído no século XVIII, na cidade de Jodpur. Foto: Raquel Rolnik.

No final da década de 50 do século XX, porém, tem início a construção do Canal do Rajastão – renomeado para Canal Indira Ghandi, em 1985, em homenagem à primeira-ministra assassinada no ano anterior –, que capta águas de rios do Himalaia, cruzando quase 500 km do deserto. Essa foi uma grande obra pública, que teve por principal objetivo propiciar a agricultura irrigada no deserto, mas que também possibilitou a implementação de um sistema de água encanada em várias cidades, inclusive em Jaisalmer.

Obviamente, isso trouxe melhorias, já que antes era necessário carregar cântaros na cabeça para transportar água dos lagos e tanques até as residências. Esse era um trabalho, aliás, realizado principalmente por mulheres.

Porém, ao mesmo tempo em que se canalizava e centralizava o sistema de abastecimento de água, abandonava-se a estrutura de captação de águas da chuva, tanto no modo de construir as casas, como nas formas de reservação públicas – hoje os lagos artificiais servem apenas para visitação e contemplação. Isso ocasionou na atualidade sérios problemas de abastecimento, especialmente para a população mais pobre, que até hoje vive em casas que não contam com água encanada, sendo obrigada a comprá-la de quem tem acesso.

Além disso, o sistema de captação e abastecimento centralizado numa grande obra de infraestrutura gerou um superconsumo de água: de um lado, a agricultura irrigada de plantios que requerem uma grande quantidade de água, como o trigo, acabou por acarretar em desequilíbrios ambientais, incluindo salinização e processos erosivos graves na frágil estrutura geológica do deserto. De outro, a disponibilidade e a facilidade de acesso à água encanada levaram a um aumento substancial dos níveis de consumo residencial. Em anos mais secos, a quantidade reservada no canal é insuficiente para o abastecimento de todos. Como as técnicas tradicionais de reservação foram abandonadas, sobretudo nas cidades, a falta de água no período seco passou a ser um problema cada vez mais grave.

É claro que ninguém quer voltar a carregar água na cabeça. Mas evidentemente é possível estabelecer uma forma de abastecimento descentralizada, que inclua a captação de água de chuva nas residências, além de estruturas de reservação públicas, como foram os tanques e lagos do passado nos reinos do Rajastão.

Ao contar essa história, pensei nos dilemas atuais que vivemos em relação à água no Brasil… e temo que, embora tenhamos formas cada vez mais sofisticadas de reservação, tratamento e distribuição de água, algumas lições do passado, inscritas em formas de construir e distribuir este importante recurso, poderiam ser úteis para enfrentar a questão…

*Publicado originalmente no portal Yahoo!.

2 comentários sobre “Acesso à água: lições que vêm do passado

  1. No Brasil, temos uma iniciativa exemplar: a ASA – Articulação do Semi-Árido criada em 1990 com a missão de construir um milhão de cisternas no NE. Até 18/01/16 foram entregues 578.332 unidades.

    Chama a atenção que a ASA é uma organização constituída de mais de mil ONGs e não tem qualquer vínculo político/partidário. Eles sabem que a tradicional política brasileira do assistencialismo é danosa aos mais necessitados. Infelizmente essa política está crescendo nas grandes cidades do SE como São Paulo gerando um problema muito maior: a degradação do meio ambiente com a derrubada de matas – lugar onde a água é produzida – para a construção de barracos.

    Pelo seu trabalho de valorização da cultura do povo nordestino, a ASA desempenha um importante papel de fixação das famílias em seus locais de origem evitando que desloquem-se para o sudeste onde iriam agravar ainda mais o maior de todos os problemas brasileiros: a concentração populacional gerada pela migração NE>SE nos últimos 50 anos.

    A recente crise da água está provando que é um erro pensar que a mudança de milhões de famílias para São Paulo vai resolver a questão da sobrevivência de tanta gente uma vez que a cidade é “rica”. Primeiro porque São Paulo é rica em termos. Em números absolutos talvez seja também a mais pobre das metrópoles e a que reúne os mais graves problemas dos quais o pior é sem dúvida a concentração populacional. Segundo porque água ainda é uma das poucas coisas que não podem ser fabricadas pelo homem. Terceiro porque o espaço é um só a ser disputado por tantos corpos, o que gera conflitos fundiários e degradação do meio ambiente.

    Mas mexer com isso é tocar no maior de todos os tabus brasileiros.

  2. Prezada Raquel que relato sensacional. A estatização e centralização de serviços outrora realizado de forma comunitária, coletiva ou em regime de co-gestão é matéria farta de discussão e pesquisar na área de CPR (Common Pool Resources). Não sou eu o mais indicado para explicar mas posso lhe dizer, que diversos sistemas antes eficientes e com forte participação colapsaram após centralizados, COBRADOS, e estatizados. A ganhadora do Nobel de Economia de 2009, a socióloga Elinor Ostron (que de número em seus estudos só contava com a rubrica na parte inferior das páginas) ajuda a provar que mecanismos de gestão de recursos comuns (CPR) são mais eficientes manejados se co-realilzado pelos atores diretamente dependente que por sua vez criam regras próprias através de diálogos constantes (gestão participativa) e mecanismos de incentivo e de sanção…enfim….papo longo e apaixonante…trabalhamos com a matéria onde o Estado “ainda não centralizou” seja com água doce ou recursos pesqueiros do mar, locais tipicamente entendidos como CPRs.

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