Mumbai, prédios e densidades

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Mumbai, na Índia. Foto: Isabel Gouvêa.

Estando em Mumbai, na Índia, falar sobre seu trânsito caótico, quase selvagem, ou sobre a poluição que cobre as folhas de suas árvores com uma camada espessa, é registrar apenas as primeiras impressões.

A cidade, que os habitantes insistem em chamar de Bombay (ou Bombaim, em português), seu antigo nome, desafia percepções e teorias urbanísticas. Ela se formou –e continua se expandindo– através de aterros que, inicialmente, ocuparam antigos canais entre ilhas situadas ao sul de uma península, e que seguem se espalhando, agora em escala metropolitana, sobre uma imensa área pantanosa ao norte.

Capital da colônia inglesa até 1947, cidade-porto voltada para atender as rotas comerciais da metrópole britânica, Mumbai explode em população e área a partir da independência e, sobretudo, com a industrialização e modernização promovida pelos governos subsequentes e com a enorme migração da população das pequenas aldeias para a cidade.

Assim como em São Paulo, no Rio de Janeiro, em Belo Horizonte e em outras metrópoles brasileiras, a cidade indiana possui quilômetros de periferias construídas por seus próprios moradores, com parcos recursos. Isso gera, diariamente, uma incrível quantidade de viagens de trem e, especialmente, de ônibus, carro, caminhão e autoriquixa –veículo aberto, de três rodas, que carrega passageiros–, em direção ao Sul da península, onde se concentram a principal atividade comercial e os serviços.

Aqui em Mumbai, assim como nas metrópoles brasileiras, fala-se muito na necessidade de adensar a cidade, construindo prédios para aumentar o número de moradores em determinadas áreas, ultrapassando o limite de três ou quatro pisos que predomina nos edifícios do centro e verticalizando as periferias onde se espalham casas térreas e sobrados.

Hoje, enormes torres despontam no horizonte, especialmente na área mais central e nos centros de bairros, em locais próximos às estações de trem e à orla do mar. Entretanto, em Mumbai, muito mais radicalmente do que em qualquer grande cidade brasileira, a densidade residencial tanto do centro como das periferias já é impressionante.

No centro, há centenas de edifícios encortiçados que abrigam uma população predominantemente de baixa renda, resultado sobretudo do rent control act, o congelamento dos aluguéis decretado pela administração municipal em 1949, para todo o parque residencial construído até aquele momento. Nos interstícios das áreas centrais, e nas imensas periferias, becos e passagens levam a uma a sucessão de pequenas casas, muitas com um só cômodo, superlotadas. Nesse contexto, falar em adensar os centros e subcentros da cidade parece piada –de mau gosto!

É evidente que nem os edifícios encortiçados, nem as ocupações e loteamentos populares autoconstruídos oferecem hoje condições adequadas de moradia. E é também clara –e urgente– a necessidade de melhorar tais condições.

Entretanto, a “pegadinha” dessa história é: em nome do adensamento, pretende-se destruir esses assentamentos e, em seu lugar, construir torres que nunca serão destinadas às famílias de baixa renda que hoje moram nessas áreas. Como em um anúncio que vi na primeira página do jornal “Indian Times”: condomínio de torres, um apartamento por andar, vista de 180 graus para a baía, e paisagismo de canais venezianos com gôndolas. Certamente não é deste “adensamento” que a população de Mumbai está precisando.

Nas cidades brasileiras, e muito mais radicalmente em Mumbai, é preciso diferenciar claramente o que são densidades construtivas (de metros quadrados de construção em altura) e densidades demográficas (de pessoas por metro quadrado). Em contextos de desigualdade extrema de renda e de mercado imobiliário restrito, estes conceitos podem ter relação completamente oposta. Isso significa que verticalizar nem sempre implica em permitir que mais pessoas morem em uma mesma área.

*Publicado originalmente no site da Folha

2 comentários sobre “Mumbai, prédios e densidades

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