O que esperar da política urbana em 2016? Ou o lado bom da crise

Em meio ao terremoto político-econômico que marcou 2015, vale a pena pensar que perspectivas essa crise traz para as cidades brasileiras em 2016. Um dos motivos principais da crise é a emergência –no sentido de tornar públicos, visíveis e conhecidos– dos mecanismos e relações que aliam o interesse de grandes empresas com os de grandes partidos políticos, e que, historicamente, têm enorme impacto na política urbana.

É possível até mesmo afirmar que a política urbana tem sido, na sua quase totalidade, definida por essa relação, que tem o poder de determinar, a partir de acordos entre empresas, partidos e governos, que investimentos serão feitos, assim como onde e de que forma a cidade se desenvolverá. Os anos de abundância de dinheiro, inclusive, alimentaram de forma avassaladora esta máquina perversa de associação entre interesses privados e as políticas públicas, com megaprojetos milionários e obras faraônicas de questionável necessidade.

Hoje esse “modus operandi” que exerce enorme influência no destino de nossas cidades está finalmente em xeque. Assim, apesar das dificuldades que momentos de crise apresentam, esse é um primeiro elemento que pode ser muito positivo para o futuro de nossas cidades, desde que estejamos dispostos a ir até as últimas consequências para superar esse modelo, que envolve hoje, repito, a totalidade dos grandes partidos no Brasil.

Transformar radicalmente esse modo de fazer política abre a perspectiva de que a política urbana possa de fato atender às necessidades dos cidadãos em cada cidade, e não às expectativas de lucro nos negócios de empresas financiadoras de campanhas, apoiadas em suas relações com partidos políticos e seus representantes nos legislativos e executivos país afora.

Para além disso, em função da crise econômica já estamos vivendo uma forte redução de investimentos públicos, e as pessoas já têm menos dinheiro no bolso e menos capacidade tanto de gastar como de poupar ou investir. É claro que os efeitos da recessão são muito negativos, especialmente para a população mais pobre, que mais depende de políticas públicas. Mas existe um outro lado nessa história…

Outros momentos de crise econômica e redução drástica na capacidade de gastos dos governos –penso especialmente nos anos 1990– mostraram-se muito férteis em termos de políticas municipais inovadoras, particularmente no campo da moradia e da política urbana. Foi nesse período que conseguimos realizar experiências de construção de moradias populares com mutirões e autogestão dos moradores, avançamos nos processos de reconhecimento e urbanização de favelas, com programas implementados com a participação direta da população, desenvolvemos experiências de orçamentos participativos… enfim, foram tempos de escassez em que governos conseguiram se virar e mobilizar a população para enfrentar nossos grandes desafios.

A diferença é que, naquela época, novos partidos de expressão popular ainda estavam nascendo ou se consolidando, repercutindo anseios e necessidades da população em nível local. Foi quando administrações democrático-populares foram eleitas e políticas inovadoras, com profundo sentido redistributivo e desejo de radicalização democrática, foram experimentadas. Tudo isso foi esvaziado, quando não totalmente desmontado, na era da abundância, quando até mesmo os novos partidos, já com grande presença no cenário político nacional, escolheram o caminho da velha forma de fazer política.

É importante que se diga, porém, que embora o mundo da política em geral esteja muito contaminado por essas velhas práticas, isso não significa que a totalidade dos parlamentares e detentores de cargos políticos tenha adotado esta posição. Muitos foram marginalizados, ou sequer tiveram espaço para crescer dentro dos partidos, por não compactuar com tais práticas. O enorme desafio para todos que fazem política com seriedade é constituir novas lideranças capazes de ecoar os desejos de mudança que existem na sociedade.

As duas grandes incógnitas que 2016 nos coloca, portanto, são: se conseguiremos de fato desmontar e enterrar esse velho modo de fazer política, e se teremos capacidade de inovar na elaboração de políticas públicas para enfrentar o cenário econômico adverso.

Enfim, muitos atravessaram 2015 com perplexidade diante da atual situação. Prefiro ser mais otimista e vislumbrar, no horizonte de 2016, a esperança de construção de mudanças profundas… se estes são tempos difíceis, que possam ser também tempos de transformação, inovação e criatividade para formular e implementar políticas alternativas, melhores e mais eficazes do que parte do que fizemos na farra dos anos de fartura.

*Publicado originalmente no site da Folha.

5 comentários sobre “O que esperar da política urbana em 2016? Ou o lado bom da crise

  1. É incrível essa nossa capacidade de andar, andar, andar e não sair do lugar. E, a cada vez que voltamos ao ponto inicial, maior a carga que nos põem nas costas.
    Não avançamos, porque nos habituamos ao emergencial e aos interesses imediatos daqueles cuja perspectiva de vida não vai além de uma semana e cujo projeto de vida está condicionado a valores monetários.
    Construímos com nossas atitudes e ações imbecis, uma sociedade despreparada, ansiosa, desesperada.
    Nosso projeto de paz está associado a preceitos religiosos, nunca filosóficos ou conceituais, ficando cada vez mais difícil, extrair coisas boas; é como encontrar pedra preciosa em meio à lama; e lama é que não falta neste país.
    Nas dificuldades é que aparecem as grandes soluções e estas se manifestam na liberdade. Não me refiro à liberdade de expressão, nem à democrática; reporto-me à liberdade de criar, fazer e se organizar, sem a ingerência e parasitismo de estruturas de poder doentias, nefastas, apodrecidas que, ao invés de encontrar curas, vive de procurar doenças.
    Na qualidade de cidadão e grande interessado que ainda usufruamos de cidades boas, junto-me à sua luta Raquel, mas o que somos nós neste mar de mediocridade, de políticos que parecem desprovidos de bom senso, atitude, coerência e coragem? Defensores ferrenhos de partidos e pessoas não confiáveis, mentirosos. Agem e decidem pelas suas cabeças onde, convenhamos, não cabe muita coisa.
    Como construir algo verdadeiro usando como argumento a mentira? A nossa luta agora só pode se dar no plano moral, pois não há nada que se construa ou se plante na lama.
    Assim Raquel, lavradores e construtores há por todos os cantos, mas onde encontrar solo firme e fértil?

  2. Vai longe o tempo em que bons administradores eram empossados nas prefeituras. Vai longe também o tempo em que São Paulo ainda era uma metrópole governável.

    Hoje, em que pese ser ‘a mais rica’ como a imprensa adora repetir, São Paulo é também a mais cobiçada e por isso mesmo, a mais vulnerável das metrópoles brasileiras. Os vários movimentos populares, os interesses econômicos e políticos – muitas vezes antagônicos – aliados à gigantesca massa de pobreza que aqui aportou fazem de São Paulo uma nau sem rumo.

    Os governos já mostraram que, ou são impotentes diante do tamanho dos problemas (vide crise hídrica, favelização e ocupações em áreas de mananciais) ou tem interesses diferentes da busca por uma cidade melhor.

    • Sem dúvida Celso, não dispomos da matéria-prima básica para promover as transformações e o desenvolvimento intelecto-cultural: as PESSOAS. Perdemos tempo, discutindo governos, políticos, ideologias, esquerdismo, direitismo, fascismo, nazismo, democracia, ditadura e blá, blá, blá…

      • Meu caro Vital, a chance que temos é agora com a reforma das escolas. Caiu sem querem no colo do governo a chance de mudar a educação, mudando consequentemente as pessoas. Mas os frutos só vão ser colhidos daqui a 10 ou 15 anos.

        Será que a política imediatista vai fazer a reforma?

  3. A crise que se abate, cria-nos um certo torpor intelectual, aliado à impotência e à desesperança, muito ao contrário do proposto pela Raquel. É a crise da desconfiança, do despreparo, da subjugação aos “politiqueiros” e suas “magníficas” propostas, de partidos políticos sem ideias, sem lideranças diferenciadas; todos dispostos a se moldarem à crise, jamais a entendê-la e dela extrair ensinamentos e perspectivas. Em síntese, se chegamos a este ponto, fomos movidos pela ignorância, incompetência e caráter das lideranças; estes mesmos é que nos tirariam dela (da crise)? Como evitar o ciclo vicioso, onde mudam os cenários, mas os atores e protagonistas são os mesmos? Não é essa a “visão” que quer nos impor o governo, ao “reconhecer” que foi incompetente, mas que agora vai deixar de ser?

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