2015: o começo do fim?

Foto: Flavio Moraes.

 

Para a política urbana de São Paulo, 2015 foi – e ainda está sendo – um ano importante. Durante este ano, agendas e pautas que já vinham emergindo há alguns anos, e que explodiram com veemência nas chamadas Jornadas de Junho de 2013, ampliaram de forma considerável sua presença na cidade: refiro-me principalmente à retomada e valorização do espaço público e a mudanças importantes no campo da mobilidade.

Para entender a dimensão dessas políticas, é importante lembrar que em São Paulo, principalmente a partir dos anos 1990, quando graças a um ajuste fiscal mais ou menos como o que estamos vivendo agora, a cidade viveu uma verdadeira epidemia de abandono dos espaços públicos e disseminação de novos produtos imobiliários que podemos chamar de verdadeiros “enclaves fortificados”. No lugar do bairro, das casas e do prédio residencial, os condomínios fechados, no lugar das ruas comerciais, os shopping centers.

Sob a justificativa da insegurança e do medo, até as pequenas vilas existentes na cidade se fecharam.Esse modelo corresponde perfeitamente à lógica de cidade que prioriza o automóvel particular como meio de transporte: você sai de uma garagem para chegar a um estacionamento, sem contato direto algum com o meio externo, ou seja, a rua.

Na prática, porém, isso só aumentou a segregação territorial e, claro, a insegurança.Muros imensos, ruas vazias, espaços públicos abandonados, vias tomadas prioritariamente por automóveis particulares… a bola de neve foi crescendo.

O que estamos vivendo hoje é uma tentativa de reverter essa história. De um lado, com a revindicação e/ou retomada de espaços públicos por indivíduos, grupos e coletivos os mais diversos, com a apropriação de parques, praças, calçadas e outros espaços para as mais diversas atividades, mostrando que há um desejo de estar na rua e não apenas de passar por ela.

De outro lado, o das políticas públicas, vimos a priorização do ônibus e das bicicletas com a implementação de vias exclusivas, ciclovias e, finalmente, o encontro destas duas agendas, com a abertura da Avenida Paulista para o lazer das pessoas aos domingos e total fechamento para carros.

Nada mais emblemático que o embate que a abertura da Paulista gerou com alguns setores da sociedade, especialmente com o Ministério Público, que se posicionou contra a medida: será que a era do Rei Automóvel na cidade está chegando ao fim?

O apoio – e adesão – da maior parte da população a estas medidas, inclusive da classe média, mostra que os cidadãos não aguentam mais viver sob o modelo da segregação, escondidos atrás de muros de condomínios e vidros de carros, pretensamente protegidos da violência. Muitas pessoas desejam outro modo de vida, em que seja possível se deslocar de transporte público, a pé ou de bicicleta, com segurança e conforto,morar em áreas centrais, ter acesso a áreas verdes e de lazer… Isso é nítido, por exemplo, nas discussões que envolvem o futuro da área do Parque Augusta e do Minhocão.

E não se trata de um movimento exclusivo de São Paulo. Em várias outras cidades do país, encontramos discussões e mobilizações semelhantes. Por exemplo, no Recife, onde o Movimento Ocupe Estelita termina o ano com uma grande vitória: a decisão judicial que anulou o leilão de uma antiga área pública, o Cais José Estelita, de cerca de 100 mil metros quadrados, no centro histórico da cidade, e que estava prestes a receber um megaempreendimento imobiliário de luxo, com 13 torres de cerca de 40 andares.

Evidentemente, os desafios que temos para reinventar uma cidade que propicie a livre circulação de todos – isto é, transporte público abundante e eficiente, de qualidade e acessível –, e onde a qualidade, manutenção e generosa oferta de espaços e equipamentos públicos sejam seu elemento estruturador (não é sobre isso também que os estudantes do ensino médio em São Paulo estão falando em seu movimento?) ainda são enormes. Mas 2015 mostra que, talvez, quem sabe, estejamos vivendo o começo do fim do velho modelo rodoviarista e segregador…

*Publicado originalmente no Portal Yahoo!.

5 comentários sobre “2015: o começo do fim?

  1. Raquel, tudo bem? Sou jornalista e, pelo seu e-mail da USP, solicitei uma entrevista. Como não tive resposta, estou tentando por aqui, para saber se leu ou se devo encaminhar a solicitação para outro local. Obrigada!

  2. Belíssimo texto, como sempre… adoro quando fala de “reinventar a cidade”, pois é justamente isso que me faz amar cada vez mais essa paulicéia!

  3. Oi Raquel, escrevi a muito tempo um artigo: “A Era pós automóvel” e já faz um bom tempo. Naquela época ainda não tínhamos a lei 12587/12 a Lei da Politica Nacional da Mobilidade o que chamo de ESTATUTO DA MOBILIDADE SUSTENTÁVEL. Essa lei diz que deve ser DEMOCRATIZADA AS VIAS PÚBLICAS, reservando a cada modal o espaço correspondente ao que transporta de passageiros. Como o automóvel transporta em media no Brasil 30% dos passageiros a lei diz que deveríamos reservar esse percentual para ele circular e ESTACIONAR. Querida amiga, na minha opinião deveriamos inverter a forma de segregar os espaços da vias: ao inves de segregarmos os onibus em faixas e as bicicletas em faixas deveriamos segregar 30% das vias para os automóveis e ai a cidade seria muito mais feliz que hoje. Pense a respeito. Alias lançamos (MDT) um livro, dê uma olhada http://www.novasconquistasmdt.org.br. Abração

  4. Penso que é hora de São Paulo fazer uma revolução urbana.

    As áreas de mananciais estão aí deterioradas, ocupadas por milhares de barracos e não há como o poder público remover e prover moradia para tantas famílias. Poderíamos fazer uma parceria com as construtoras entregando a elas essas áreas em troca da construção de habitações para aquelas famílias. Faríamos assim uma extirpação do tecido doente e ainda ganharíamos a preservação de verdade dos mananciais além do ganho em planejamento urbano, algo cada vez mais raro na cidade.

    Uma revolução urbana é bem melhor que uma olimpíada ou copa do mundo e seus supostos ‘legados’ urbanos pra turista ver.

    Quanto aos automóveis, minha opinião já é conhecida aqui: ao lado das favelas e da concentração populacional são eles os grandes responsáveis pela degradação urbana do terceiro mundo.

  5. Incrível será o dia que as pessoas tiverem condições de fazer os percursos em SP como desejam, pq há infraestrutura que permita isso conforme SUA necessidade. Sim, o carro é caro e muita gente não usará mesmo numa SP futurística a la Paris.

    Argumentar que a Paulista tem metrô e que pode restringi-la plenamente é muita inconsequência. Sabemos que a maior parte da área urbana da cidade não é assistida por metrô ou trem, vive abarrotada com muito transito e nem sempre possui corredores de ônibus rápidos e confortáveis no horário de pico.

    Ainda posso piorar minha análise: Se eu ir além e alegar que a RMSP tem menos % ainda de cobertura de transporte público e que boa parte do trânsito urbano em Sampa se deve a isso? Não compete ao Haddad esse fato, mas é outro recorrente péssimo da nossa megalópole brasileira. Muitas cidades dormitórios e dependentes de Sampa que obrigam milhares de pessoas (milhões?) a se deslocarem diariamente por necessidade e não por “conforto” de carrinho. Justificar também uma via coletora grande fechada pode ser substituída pelas Alamedas laterais é meio surreal. Essas vias tem um caráter mais local e já são congestionadas com o próprio trânsito do bairro normalmente e se tornam um gargalo nesses finais de semana.

    Acredito que seja muito abusivo fechar todo final de semana, pois cria transtornos e não dá opção pros moradores locais de ter sua liberdade de se programar e ter tranquilidade e sossego em seu próprio bairro, já que isso atrai um fluxo gigante de pessoas de outras áreas para lá também nos finais de semana. Se já não bastasse a correria frenética e as trezentas milhões de greves e movimentos sociais que ocorrem nela quase que diariamente.

    É muito fácil fechar avenidas já consolidadas e com infraestrutura plena. Mexer a bunda, trabalhar e dar diversidade de usos, recuperar bairros, criar parques, renovar e recuperar áreas ociosas, isso sim é difícil! A Paulista é a maior propaganda eleitoral que esse governo atual pegou de bandeira pra vender a ideia de “cidade sustentável e humana”.

    INFELIZMENTE quem vive e conhece a verdadeira São Paulo pode afirmar que estamos milênios luz disso. Principalmente quando se considera toda a região metropolitana. Não estou aqui defendendo o uso do carro. Sabe por que questiono fortemente esse tipo de ação? Porque quase toda cidade que fechou vias para o lazer no mundo, depois de alguns anos tem a tendência a restringir ou proibir os veículos naquele local em definitivo. Não é viável no cenário atual, nem nos próximos 10 anos cogitar uma Paulista nos moldes de um grande calçadão de pedestres.

    Se fosse na região do centro Antigo, Luz, São Bento, Anhangabaú. Líbero Badaró, entre outras áreas mais consolidadas, eu aceitaria melhor essa iniciativa, pois há muito metrô e infraestrutura disponível. Como sabemos isso tem sido uma tendência em qualquer cidade global: Fechar o centro pros pedestres e até mesmo as vezes pedagiar o acesso ao local pra restringir mais ainda o automóvel. A Paulista ainda está anos luz dessa possibilidade.
    ‪#‎Arquitetura‬ ‪#‎Urbanismo‬ ‪#‎Transportes‬ ‪#‎SãoPaulo‬ ‪#‎SP‬

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