O fato político mais relevante de 2015

Operação Lava Jato? Contas do Eduardo Cunha na Suíça? Processo de impeachment da presidente Dilma? Carta do vice-presidente Michel Temer? Nenhum desses é o fato político mais relevante de 2015. A meu ver, 2015 entra para a história política especialmente pela vitoriosa mobilização dos estudantes secundaristas de São Paulo contra o projeto de reorganização das escolas que o governo Alckmin tentou implementar, que, entre outras medidas, fecharia 90 escolas estaduais.

Durante quase um mês, estudantes do ensino médio promoveram ocupações em mais de duzentas escolas e realizaram diversas manifestações públicas nas ruas, sendo violentamente reprimidos pela polícia. Com amplo apoio não apenas de familiares e de setores ligados à área educacional, mas também da população em geral, a mobilização estudantil finalmente levou o governador a recuar da proposta, revogando, no último dia 5, o decreto da reorganização das escolas. No mesmo dia, o secretário de educação entregou sua carta de demissão.

A vitória dos estudantes é o fato político mais importante de 2015 especialmente por três razões. Em primeiro lugar, porque revela o que o imaginário dominante sobre a escola pública oculta: o profundo vínculo dos estudantes com esse espaço. Esse sentimento de pertencimento que a mobilização dos estudantes expressa contraria o discurso hegemônico que costuma resumir a escola pública à ideia de falta de qualidade e a lugar de violência, depredação e abandono. O que testemunhamos neste mês de mobilização foram justamente diversas das qualidades que estão presentes neste lugar.

Segundo, porque no momento em que ocupam um espaço público como a escola, reclamando a necessidade imperiosa de participação ativa nas decisões sobre seu destino, esses estudantes estão afirmando que os espaços públicos não são propriedade privada nem de governos, nem de políticos, mas sim propriedade coletiva dos cidadãos. Por isso não tem cabimento classificar de invasão a ação dos estudantes, como fez sistematicamente o governador. Trata-se, mais propriamente, da ocupação de um espaço que já é deles, e justamente para esclarecer a natureza do que é público, já que muitas vezes governantes e gestores se esquecem disso.

Exatamente por ser a escola pública nossa propriedade coletiva, não cabe a adoção, de cima pra baixo, de políticas que impactam na sua existência, funcionamento e dinâmica, sem qualquer diálogo com a sociedade e, especialmente, com aqueles que vivenciam seu cotidiano: estudantes, professores e funcionários.

A terceira razão é que, diante do cenário catastrófico do mundo político brasileiro atual, jovens com idade entre 15 e 18 anos, em média, dão ao país uma esperança, mostram uma luz no fim desse túnel macabro em que nos encontramos. Essas meninas e meninos estão dando uma verdadeira aula de organização, mobilização e, especialmente, de ressignificação das noções de “público” e de “democracia”, ao se apropriar do que é comum, ao exercer formas horizontais e amplas de tomada de decisão, enfrentando a tecnocracia, a discriminação e o autoritarismo, marcas pesadas de nossa organização social e política.

*Publicado originalmente no site da Folha. 

7 comentários sobre “O fato político mais relevante de 2015

  1. Há uma razão que vai muito além do fla x flu partidário nessa questão: é a grande chance de fazer-se uma revolução na educação..

    É hora dos alunos aceitarem a mão estendida do governo e discutirem questões como a arquitetura escolar, o envolvimento da comunidade, proposta pedagógica mais adequada à modernidade e a capacitação profissional dos professores. O governo está abrindo as portas para o diálogo. Os alunos entretanto ameaçam por tudo a perder com a radicalização do movimento. Não querem a reorganização nem diálogo nem nada.

    Ou seja, querem que o ensino permaneça estagnado como está.

    Resta saber: estão agindo a mando de quem?

  2. Excelente, Celso. Esse foi o fato político mais preocupante de 2015. Me dá muita pena ver esses alunos iludidos com uma “vitória” que na verdade é um prejuízo por ora invisível na vida deles. A forma como tudo isso foi inflamado e desviado por questões partidárias, o jeito com que o assunto dos alunos foi tomado de assalto por opositores do governo, tudo isso me desanima demais nessa sociedade, onde o que importa é sempre aparecer e impor teus problemas na frente do problema dos outros. Se intrometeram e atrapalharam a conversa, causaram danos aos alunos e minaram a vontade política. Pombos. Ser contra a reorganização da educação estadual quando o discurso sempre foi de que a educação estadual é ruim e que precisa ser reorganizada é algo tão contraditório, que só deu para concluir mesmo como esses opositores agem como baratas tontas.

    • Minha cara Nara Kassinoff

      Grato por comentar minha manifestação.

      Ficou claro que a oposição não deseja a reforma nas escolas porque sabem que ela trará pontos positivos pro Alckmim.

      É essa a oposição que temos em São Paulo. Lamentável.

      Abraço

  3. 2015 ano bastante torbulento … GERALDO ALCKMIN, CUNHA, GILMAR MENDES e ALECIO NEVES são acharcadores ! ! !
    isso não há como negar são os golpistas …. tentaram de tudo para inviabilizar o voto popular…. está aí para quem quiser ver a olho nú e cru ! no dia 16.12.2015. consseguiram dar a respostas… sobre a reor ( desoganização ) das escolas e do golpe em andamento … foi um momento de história do país. É preciso adotar uma posição mais clara … Quem apenas se senta e fica na espera… Esperando no que vai dar … quero colocar aqui a todos os leitores … escrevendo isso com todas as letras ! ! ! A direita golpista sempre teve o monopólio da imprenssa capitalista como porta voz para fazer propaganda, para fazer popular sua posição extremamente impopular … todo mundo sabe disso … até empresários e banqueiros,empreiteiras e Imobiliárias … Só quem não encherga e não quer enchergar… hora fazem vista grossa… caros leitores . e vou mais longe ,,, na minha concepção quem é contra o golpe ; Só tem uma alternativas sair as ruas da cidade e praças empenhar suas energias e mobilizar toda a população ….. Estão todos de parabens ! ! ! Movimentos estudantis, professores , MST, sindicatos, N.A.D.P. forças populares e movimentos sociais , mostraram para esses achacadores que a força do povo é maior… Irão derrotar o golpe pela força do povo ! ! ! A luta do povo … a luta dos esdudantes, a luta dos professores e forças populares não serão em vão ! ! ! PODE TER CERTEZA DISSO : OS GOLPISTAS NÂO PASSARÂO ! Bom dia a todos…

  4. Leoni
    Se por acaso alguém se interessar em conhecer como funciona um sistema semelhante ao proposto pelo governo estadual, não precisa ir aos EUA, ou a Europa ou mesmo alguns países da Ásia, pode ir até São Caetano do Sul – SP, lá poderá conhecer as escolas ambientes para os três níveis de forma distinta, como as infantis e poderão conhecer o Colégio de Vila Barcelona que possuem sala ambiente desde sua inauguração na década de 80, bem como a ETEC Jorge Street da Fundação Paula Souza, eu tive oportunidade de estudar nestas duas, ou mesmo a Escola Técnica Municipal Alcina Dantas Feijão, disputadíssima no quesito qualidade como uma das melhores do Brasil.
    Não considero isto uma forma revolucionária de pedagogia ou ensino, e sim uma tendência mundial.
    Por estes motivos não considero este o fato politico mais relevante no Brasil no ano de 2015, e sim a “Operação Lavajato” comandada pelo juiz Sergio Moro que tem feito um trabalho de expurgo e elucidações com prisões por corrupção de figuras influentes desde diretores de empresas estatais e privadas e inumeráveis políticos, e que avança de forma consistente em 2016 em direção as figuras de topo!!!

    A vitória do atraso conservador na reestruturação da rede de educação em São Paulo
    Alberto Goldman 06/12/2015
    A reestruturação da rede escolar foi uma tentativa frustrada de implementar na rede paulista algumas poucas mudanças para melhorar o desempenho do estudantes. A separação dos três ciclos escolares, o fundamental de dois ciclos e mais um ciclo correspondente ao ensino médio, visava separar idades muito diferentes que hoje convivem nas escolas, para um melhor aproveitamento do material humano, do material didático e da infraestrutura física para o seu funcionamento. Com isso muitas escolas seriam esvaziadas, com os alunos realocados para escolas próximas, e passariam a receber escolas técnicas ( ETECs ), creches, ou qualquer outro equipamento cultural ou administrativo, com ganhos evidentes. Seriam mudanças para pouco mais de 300 mil alunos em um universo de 3,8 milhões e 93 escolas em um universo de 5000, que estão sob a responsabilidade da Secretaria de Educação do Estado.
    O atraso político se mobilizou através das organizações que se qualificam, ou são qualificadas, como de esquerda, mas cuja prática é ultra conservadora, corporativa, fascista mesmo, que não respeitam princípios democráticos. São elas alguns partidos (PT, PCdoB, PSOL), instituições aparelhadas por eles e subvencionadas pelo governo federal como a UPES ( União Paulista dos Estudantes Secundários), a UBES (União Brasileira dos Estudantes Secundários), o MTST (Movimento dos Trabalhadores sem Terra), a APEOESP ( associação do professores do Estado de São Paulo), além de algumas ONGs financiadas com o dinheiro público que não se sabe para que existem. Também alguns intelectuais que se dizem de esquerda apoiaram a mobilização, pois, segundo eles, as mudanças seriam a realização de um “apartheid”. Argumento abjeto, se não risível.
    Elas decidiram ocupar escolas e paralisar o trânsito em vias de muita circulação com o objetivo de impedir a reestruturação e desgastar o governo estadual. Alguns poucos líderes militantes com algumas poucas centenas de pessoas (estudantes e não estudantes) tiveram sucesso no seu intento.
    Certamente o governo do Estado foi pego de surpresa com esse tipo de reação. Foi incapaz de prever o que veio a acontecer, não conseguiu transmitir os efeitos positivos das mudanças pretendidas e foi obrigado a usar a polícia para evitar a interrupção das vias com resultado danoso para a sua imagem. A desgastante reprodução midiática de alguns atos de força da PM teve como consequência o recuo do governo.
    Os objetivos absolutamente defensáveis da reestruturação não foram considerados. O interesse maior da Educação também não foi. O que foi transmitido, e foi acolhido pela opinião pública, é que o governo pretendia fechar escolas, pura e simplesmente e não é disso que se tratava.
    Mais uma vitória do retrocesso e do conservadorismo e uma derrota da democracia.

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