Paulista Aberta: símbolo de novos tempos na cidade

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Foto: Flavio Moraes

No último domingo, mesmo com tempo nublado, muita gente foi aproveitar a Avenida Paulista aberta: caminhadas, passeios de bicicleta, piqueniques, brincadeiras e apresentações de música são apenas algumas das atividades que mais uma vez tomaram conta daquele imenso espaço. Essa foi a terceira vez que a via foi fechada para carros e, na semana passada, a Prefeitura anunciou que esta será uma política permanente, inclusive em outras regiões da cidade.

Diante do anúncio, a Promotoria de Habitação e Urbanismo do Ministério Público Estadual divulgou nota na qual se posiciona veementemente contra a implementação dessa política. A reclamação não surgiu semana passada. Desde a primeira vez que a avenida foi fechada para carros, o MP se posicionou dessa forma, argumentando que a medida impacta no comércio e na vida das pessoas que residem na região, que faltam estudos e que a população não foi ouvida, e acusando a gestão municipal de adotar medidas radicais. A Prefeitura respondeu à nota em seu site.

A pérola da nota do MP é a afirmação de que a Avenida Paulista foi “concebida e construída para a circulação de veículos”, como se algum espaço da cidade pudesse ter uma predestinação, uma espécie de “vocação” inexorável para um determinado uso ou forma de circulação, independente e acima das dinâmicas sociais, econômicas e culturais que transformam permanentemente as cidades, gerando novos usos e sentidos. Não fosse assim, enormes áreas antes destinadas para usos industriais que, em momentos anteriores da nossa história econômica requeriam espaços gigantescos de armazenamento de estoques e matéria-prima, não estariam hoje vazias ou subutilizadas.

Algumas mudanças, embora repercutindo também alterações no modo de produção das cidades, são induzidas por opções tomadas no âmbito das políticas públicas. Este é tipicamente o caso das políticas de mobilidade urbana. Isso ocorreu na cidade de São Paulo, e em várias cidades do Brasil, por exemplo, nos anos 1930, quando o sistema de circulação por bondes e trens, que tinha hegemonia sobre os demais na cidade, foi sendo radicalmente substituído por sistemas sobre pneus: automóveis, caminhões e ônibus.

Essa opção, absolutamente sintonizada com a entrada nos anos 1950 da indústria automobilística no país, ganhou total precedência sobre as demais, transformando não apenas os modos de circular, mas também a própria organização do espaço da cidade. Mas podemos dizer que esse modelo hoje está em crise: primeiro, porque o congestionamento condena a cidade à imobilidade, mas também porque é um modelo que implica em perdas ambientais e de saúde humana que têm custado muito aos cofres públicos e mais ainda às pessoas…

O que está em jogo nessa crise não é simplesmente o embate entre modelos de mobilidade e de cidade. Se hoje o carro é o modelo hegemônico – não pela quantidade de usuários, mas pelo espaço que ocupa e pela forma como interfere na produção da cidade –, em outras épocas foi o bonde, a carruagem, o cavalo… Neste caso, porém, o que está em jogo nas opções de políticas é a manutenção, ou não, de um modelo que tem uma particularidade em relação aos demais: ele mata.

De acordo com a Organização Mundial de Saúde, anualmente, 1,25 milhão de mortes são causadas por acidentes de trânsito no mundo. No Brasil, são 47 mil. Estamos num grupo de 68 países que nos últimos 3 anos viram suas taxas de morte no trânsito aumentar: passamos de 18,7 mortes por 100 mil habitantes para 23,4. Sem contar os graves problemas de saúde decorrentes da poluição, hoje diretamente relacionada à queima de combustíveis fósseis por carros, ônibus e caminhões, que já têm levado muitos países a adotar medidas de restrição ao uso do carro para promover melhorias na qualidade do ar.

Quando a Avenida Paulista foi aberta em 1898, seu desenho havia sido pensado para a circulação de bondes e carruagens. Nos anos 1970, ela foi redesenhada para os automóveis, mas, naquela época, os impactos negativos decorrentes dessa opção não eram conhecidos. Hoje, diante das evidências, estamos vivendo um momento que exige de nós fazer uma escolha: continuar tudo como está ou, mais uma vez, como já ocorreu em outras ocasiões na história da cidade, repensar os modelos e modos de circulação e os desenhos da cidade.

Como todo momento de inflexão, há perdas e ganhos, e os beneficiados pelo modelo anterior perderão. É compreensível que uma reação conservadora se apresente diante das propostas de mudança. Mas é uma obrigação – e não somente uma opção – do poder público municipal se posicionar diante da questão. E é exatamente isso o que a Prefeitura, legitimamente, está fazendo neste momento, ao experimentar novos modos de circular e de usar a cidade, voltados para a proteção da vida e a saúde física e mental dos seus moradores.

*Originalmente publicado no Blog Habitat do Portal Yahoo!.

14 comentários sobre “Paulista Aberta: símbolo de novos tempos na cidade

  1. Excelente artículo, Raquel. Todas nuestras ciudades tienen la semilla del cambio de modelo, y todas tienen oposición conservadora. Posiblemente esta vez sea más difícil y demorado el cambio, porque los beneficios de ciudades más caminables y con mejores espacios públicos no son evidentes ante los ojos de quienes se benefician de una ciudad para carros. ¿Cómo podemos hacer que las pérdidas provocadas por el actual modelo sean visibles para todos? Concuerdo 100% con su idea: El cambio tiene que venir. A fin de cuentas, la sociedad está perdiendo mucho en vidas, salud, calidad ambiental, desarrollo humano. ¿cuándo llegará el día en que sea evidente para todos? En mi ciudad, Quito, todavía se “protege” a los carros de la “imprudencia” de los caminantes.

  2. Uma das dificuldades em governar é que nos brasileiros prevalece o interesse individual sobre o coletivo. Basta dar uma olhada nos comentários nas redes sociais para constatar a indignação da população por achar que ‘perdeu seu sagrado ‘direito de ir e vir’ a bordo do endeusado automóvel.

    O fechamento da Paulista para os automóveis lembra a restrição de circulação de ônibus fretados no centro expandido imposta pelo Kassab. Com a restrição, os passageiros seriam deixados em uma estação do metrô e não mais na porta de seus locais de trabalho. Da mesma forma que os protestos ecoaram quando da implantação da lei cidade limpa, a gritaria foi geral.

    Parece que as pessoas tem dificuldade em entender que São Paulo é uma cidade difícil. Para melhorá-la é preciso mudá-la, começando pela mentalidade de seus habitantes.

    Mas isso não é tarefa do prefeito.

    • a dificuldade de governar reside no fato de que um politico, por melhor que seja, não tem como saber as necessidades de 15 milhões de pessoas. O governo ajudaria muito ficando de fora da vida das pessoas, simplesmente.

      • Meu caro Steel Hawks

        Verdade. Não dá para sair por aí perguntando às pessoas o que elas querem do governo. Assim, o governante faz o básico dever de casa garantindo saúde, escolas, segurança, transporte e habitação como reza a constituição.

        Na área da saúde, o lazer é item fundamental para o bem estar das pessoas. Talvez devido à escassez de áreas de lazer, São Paulo ostenta o vergonhoso título mundial de cidade com maior numero de pessoas com algum transtorno mental. Algo em torno de 30% da população tem algum problema, provavelmente por carência de lazer.

        Quem sabe, com a criação de mais áreas de lazer iguais à Paulista essa numero venha a cair mostrando que a cidade precisa humanizar-se para humanizar as pessoas.

        Abração.

      • Carlos, mas nem esse mínimo o governo tem condição de dar. Porque você acha que faltam escolas e hospitais, e todo o resto? Porque o estado, com sua ineficiência e burocracia, não consegue acompanhar a demanda. São coisas que deveriam ficar nas mãos do mercado, não do estado. Se supermercados fossem estatais, provavelmente passaríamos fome hoje. Cito uma frase que li, não me lembro ao certo o autor: “Se colocássemos o estado para administrar o deserto do Saara, em 5 anos faltaria areia.”

  3. Cara Raquel e leitores deste Blog
    Eu como ambientalista, fico indignado e até mesmo triste, de ver que uma parte da população desta selva de pedra, precise recorrer a uma Avenida ou até mesmo ao Minhocão como área de lazer. A Gestão Serra/Kassab, que foram os antecessores do atual Prefeito, mas estes inauguraram o maior números de Parques nesta Cidade. O Parque da Luz que é o pioneiro, foi totalmente restaurado. Grandes Parques apareceram na periferia de São Paulo. É só verificar quantos Parques tínhamos há doze anos atrás e a quantos chegaram quanto o Prefeito Kassab entregou a Prefeitura para o Hadad. Na minha modesta opinião o Ministério Público está totalmente correto. A centenária Avenida Paulista, deve apenas servir como Avenida mesmo, pois é um grande Eixo de Mobilidade que interliga a Zona Sul com a Zona Oeste, assim como o Minhocão (Ligação Leste -Oeste). A Prefeitura deveria se preocupar mais e manter o Parque Trianon ,por extensão o MASP e seu entorno. Sem contar com o Parque Augusta. E na região do Minhocão cuidar das inúmeras praças próximas e este, como a Marechal Deodoro ou Theodoro e a Praça Vila Boim (na Angelica) Por que não transformar a Praça Charles Miller (em frente ao Estadio do Pacaembu) e o seu entrono, em um Parque com muito verde . Desta forma a população estaria muito mais bem servida do que o Lazer no Asfalto.
    Grato por mais esta oportunidade
    Antonio da Ponte
    Ambientalista da Aclimação

  4. Penso que o texto coloca adequadamente a questão da mobilidade e sua abrangência para muito além do automóvel. De resto a Lei da Mobilidade de 2012 já estabelece a prioridade do pedestre sobre o carro.O que me espanta é que a mesma Prefeitura publicou edital de concorrência dos ônibus de S.Paulo e estabeleceu o prazo dos contratos em 20 anos prorrogáveis por mais 20 ! E as empresas contratadas vão também operar o Centro de Controle Operacional e os Terminais. E esse assunto não tem tido o destaque e a discussão que necessita e merece. Porque será?

  5. A ideia da ocupação da Paulista para o lazer é muito bem vinda, mas não gosto de exclusões. Com o bloqueio de veículos, idosos, cadeirantes, pessoas machucadas….. sofrerão um entrave injusto, quando temos 8 pistas e sabemos que as pistas próximas às calçadas poderiam permitir um circuito mínimo. Com tantas criaturas com dificuldade de movimento, não podemos impor um mundo ajustado aos jovens e atletas. Estamos confinando velhos e deficientes. Não acho justo.

  6. Na nota BICICLETA: De uma alternativa de lazer, a um meio de transporte [ http://sco.lt/9GMeTR ] considero como uma conquista a subtração da Av Paulista, aos domingos, do universo da automobilidade, reservando-a para atividades de lazer, entre as quais o ciclismo. Na nota, insinuo que tal iniciativa pode reforçar uma representação enviesada do ciclismo como uma atividade de lazer, indo ao encontro de uma necessidade imperativa do processo de construção da nova representação da bicicleta e da caminhada como um meio de transporte. E levanto também algumas suspeitas, a partir de uma outra intervenção na Av. Paulista, a ciclovia estabelecida em cima de uma linha de metro que, as iniciativas, a despeito de positivas da perspectiva do uso do espaço público, revela pouca aderência as recomendações correntes do planejamento integrado do transporte e do uso do solo.

    Esta suspeita é reforçada pelo comentário do Lúcio Gregori que chama atenção para a falta de destaque e de discussão do edital de concorrência dos ônibus de S.Paulo, uma viga estrutural do sistema de transporte, o qual tanto pode funcionar como um facilitador como um bloqueio a promoção da bicicleta e da caminhada como um meio de transporte.

  7. Professora ,acho apropriada a questão ,mas gostaria de ver inspiração na cidade de Curitiba onde seu colega Arq. e Urb. Jaime Lerner desenvolveu ciclovias e o conceito do ciclismo em toda Curitiba,, tive a honra de morar naquela cidade e gostaria de ver o Arq. convidado para falar sobre ciclovias e ruas abertas aos domingos….

  8. Meu caro Steel Hawks

    A prefeitura de São Paulo não consegue atender o básico porque a cidade é vítima da brutal migração NE/SE sofrida nos últimos 50 anos. Só a metrópole paulista saltou de 10 milhões em 1979 para 20 milhões em 2010.

    Se considerarmos a faixa que vai de Campinas ao Rio de Janeiro passando por Baixada Santista, Vale do Paraiba e Baixada Fluminense, esse numero atinge a cifra de 35 milhões de pessoas. É a maior e mais assustadora concentração populacional do planeta.

    São Paulo nunca vai funcionar direito enquanto os sucessivos governos insistirem em resolver esse problema a partir dos efeitos, em detrimento das causas. É um enxugamento de gelo sem fim.

    Ocorre porém que os imensos bolsões de miséria que formaram-se no rastro das correntes migratórias são tratados como um vistoso e inesgotável manancial de votos pela classe política. Quanto mais gente, quanto pior, melhor. Concordo inteiramente quando você diz que a política não vai melhorar em nada as falidas metrópoles brasileiras. Até porque o assunto migração NE/SE é o maior de todos os tabus brasileiros, capaz de derrubar do cargo qualquer governante.

    A propósito, deixo aqui minha pergunta para o segundo turno, a ser disputado entre Marta Suplicy e Fernando Haddad na próxima eleição para prefeito: “o sr. vai continuar ou paralisar as ciclofaixas”?

    abraço

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