Independência e morte do Ipiranga

Sabem o riacho do Ipiranga?

Aquele cujas margens ouviram o brado retumbante de um povo heroico, palco do mítico grito de independência de dom Pedro 1º, retratado na obra de Pedro Américo e citado no hino nacional? Pois bem, esse símbolo brasileiro encontra-se altamente poluído e suas margens degradadas. Quem ousa seguir seu curso hoje -o que não é nada fácil- pode constatar o péssimo estado em que se encontra.

Sabemos que essa é a situação dos mais de 1.500 km de rios e córregos que temos em São Paulo. Sabemos também que na construção da cena da Independência, formulada na verdade bem depois de 1822 –o quadro de Pedro Américo é de 1888–, o rio, assim como vários outros elementos (os cavalos, os uniformes etc.), não é uma reconstituição realista, mas uma construção simbólica de um projeto de nação tal como formulado pelas elites políticas e culturais brasileiras já às vésperas da República. Por isso, falar sobre o Ipiranga, sujo e abandonado, em pleno 7 de setembro, é refletir sobre a relação dos rios com um projeto de cidade.

Quando Pedro 1º e sua comitiva passaram pelo Ipiranga, a região era tão somente um dos caminhos que levavam a São Paulo. É com a industrialização, no final do século 19, início do 20, que a área começa a ser ocupada. Ainda nesse período, a administração da província desapropria ali uma grande área, criando assim o que hoje chamamos de Parque Estadual das Fontes do Ipiranga, o que permitiu a proteção da mata e também da nascente do rio. Na época, isso visava garantir uma das fontes de abastecimento de água, a adutora Ipiranga, que foi desativada em 1930. No mesmo período começava a ser implementado o Jardim Botânico, dentro do parque estadual.

Nos anos 1970, porém, a rodovia dos Imigrantes corta o parque. Com a intensificação da ocupação da região, resíduos industriais e residenciais começam a ser despejados no rio. Canalizados, passando por baixo da rodovia ou próximos a outras grandes avenidas, cerca de 7 km de rio estão completamente poluídos. A medição mais recente que encontrei, de março de 2015, afirma que a qualidade da água é muito ruim. Nem fonte de abastecimento de água nem elemento da paisagem, o rio passa, assim, a ser tratado como um obstáculo a ser vencido em um processo de expansão da ocupação.

É no Jardim Botânico, com seus 360 mil m² de mata atlântica remanescente na cidade, que se encontra o único trecho preservado do Ipiranga, o córrego Pirarungáua, um dos formadores do rio. Esse trecho foi aberto em 2006 após décadas tampado com concreto e, em seguida, passou por um processo de revitalização. Hoje, quem chega ao Jardim Botânico encontra um córrego de águas límpidas, com peixes, integrando a paisagem. Além disso, é possível percorrer, em meio à reserva, uma trilha de 20 minutos que leva os visitantes até a nascente do Ipiranga.

A degradação do rio, assim como o esforço em recuperar sua nascente, corresponde de algum modo ao que estamos vivendo na cidade hoje: de um lado, o projeto hegemônico de destruição em nome da máxima rentabilidade do uso do solo, de outro, os desejos e movimentos de recuperação da relação dos paulistanos com seu território, redescobrindo o espaço público, inclusive seus rios.

*Publicado originalmente no Caderno Coitidiano da Folha.

4 comentários sobre “Independência e morte do Ipiranga

  1. Cara Raquel e leitores do Blog
    Hoje , após aposentadoria sou corretor de imoveis, mas tenho formação Técnica em Gestão Ambiental pela ETEC Paula Souza /2008. Você tem toda razão em falar na situação precária de nossos cursos de água. As margens do Ipiranga foi proclamada a Independência, e não exatamente onde está a Casa do Tropeiro (próximo ao museu) o fato se deu mais próximo do complexo Maria Maluf, quando Dom Pedro vinha de Santos e teve um dessaranjo intestinal e após breve parada, pressionado pela corte , ali mesmo deu o Grito do Ipiranga. Para os que não sabem o Rio Ipiranga nasce no Parque do Estado ao lado do Zoologico, mas quando chega na Av. Abrão de Morais, já está poluído, seguindo assim até desaguar no Rio Tamanduateí.
    A Sapesb tinha a Operação Córrego Limpo, mas acho que já não aplicam mais, pois não ouvimos falar mais nada sobre a mesma. Esta Operação é importantíssima, pois para despoluir os Rios Pinheiros, Tietê e Tamanduateí, precisamos primeiro cuidar dos cursos d’água que desaguam nestes. Se não é enxugar gelo.
    O Rio Tietê , até a entrada de Mogi das Cruzes, é relativamente limpo, mas depois deste município já é poluído, e a poluição vai crescendo a medida que vai chegado a Capital, e segue assim até Barra Bonita. Agora neste longo trecho quantos córregos e rios desaguam no sofrido Rio Tietê. A Cidade de Guarulhos até a uns sete ou oito anos atrás despejava quase todo seu esgoto no Rio Tietê , pelo Rio Cabuçu de cima, qual atravessa Guarulhos e desaguá no Tietê.
    Muito já foi gasto, mas até hoje praticamente nada foi limpo. Quem sabe , agora com a ecasses brutal de água, as autoridades venham a se convencer que devemos manter todos os Cursos D’água limpos e protegidos.
    Grato por mais esta oportunidade
    Antonio da Ponte
    Ambientalista da Aclimação

  2. As Área de Preservação Permanente -APP, definidas pelo Código Florestal, que são faixas das margens de cada curso d’água, com ao menos 30 metros de largura, e 50 m de raio nas nascentes, foram novamente ignoradas na proposta de Lei de Zoneamento, em debate em São Paulo. Muitos terrenos particulares, infelizmente, sobretudo por serem resultados de loteamentos irregulares, estão situados em APP, tanto em São Paulo, como na grande maioria das cidades brasileiras. Novamente, a Prefeitura simplesmente ignora esses territórios das águas em São Paulo quando da elaboração da Legislação Urbanística.
    Na discussão da proposta de novo zoneamento paulistano, apresentei a proposta de que os terrenos particulares ou públicos contidos em APP seriam considerados Zona Especial de Proteção Ambiental -ZEPAM, cujos usos permitidos não poderiam ser poluentes, como um posto de gasolina, por exemplo, e o C.A. seria menor que 1,0. É um absurdo que se permita a construção de prédios enormes dentro de APP urbana! Já que não sou ouvido enquanto técnico, apresentei, como cidadão comum, essa proposta na plataforma Gestão Urbana, mas acho que também não fui ouvido. A proposta de Zoneamento da Prefeitura, no Governo Haddad, não passa de um Déjà vu do século passado. A cidade bidimensional dos mapas viários continua sendo a sua única inspiração, visto que ainda não considera a geomorfologia e a Rede Hídrica da cidade. É lamentável que a Prefeitura esteja contribuindo (não fazendo nada em contrário) para “o projeto hegemônico de destruição (ambiental) em nome da máxima rentabilidade do uso do solo. ”

  3. é muito divertido seu blog, Raquel!
    dou muitas risadas com as pessoas ainda achando possivel que os governos sejam bonzinhos e caridosos a ponto de resolver nossos problemas!
    parabens pelo espaço!

    • Tenho a mesma opinião. Os os problemas das cidades jamais serão resolvidos enquanto tiverem que passar pela aprovação política, com o agravante dos poderosos e numerosos sindicatos. Políticos e sindicatos agem em defesa de seus interesses, não da cidade.

      Um exemplo recente foi a votação da proibição do Uber em São Paulo. Sindicalistas praticamente sitiaram a câmara fazendo vereadores de reféns e obrigando-os a votar contra o aplicativo. Discussão do Uber à parte, o poderoso (e perigoso) sindicato dos taxistas mostrou que a cidade está nas mãos de quem tem mais bala.

      O poder dos sindicatos já havia sido mostrado na votação do fim dos cobradores de ônibus, quando a pressão pela manutenção dos empregos acabou prevalecendo sobre a segurança, modernidade e o conforto dos passageiros. A continuar assim, jamais teremos o fim dos condutores de metrô ou da cobrança automática de pedágios, um símbolo do nosso atraso.

      A cidade? Que pegue fogo, ora. É assim que essa gente pensa.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s