O pensamento vivo de Artigas

Nunca vou esquecer quando, prestando vestibular para arquitetura nos anos 1970, entrei pela primeira vez naquele edifício inundado de luz e de promessas de liberdade, “sem portas de entrada, como num templo” -era assim que João Batista Vilanova Artigas se referia ao prédio da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, uma de suas obras mais emblemáticas.

Hoje, professora da instituição, frequentando diariamente a escola, continuo me emocionando sempre que entro no prédio, reforçando minha convicção sobre o poder da arquitetura de educar. Explico: existe uma diferença radical entre viver em um lugar radicalmente aberto para o espaço exterior, cujo centro e elemento estruturador seja um espaço público de alta qualidade; e percorrer bunkers, repletos de catracas e dispositivos de controles, onde os espaços públicos foram encolhidos e regredidos a uma dimensão de circulação.

Projetado nos anos 1960, o edifício-manifesto da FAU representava uma das versões de uma arquitetura -e urbanismo- moderna, engajada com uma utopia de cidade, de sociedade, de nação. Artigas, assim como outros arquitetos do período, expressava essa posição através de sua obra -casas, sindicatos, clubes, escolas, edifícios públicos e projetos urbanísticos-, mas também pela sua militância profissional e política. Foi um dos fundadores do Instituto dos Arquitetos do Brasil, um dos atualizadores dos currículos de escolas de arquitetura e militante do Partido Comunista.

Por uma ironia perversa, o prédio da FAU foi inaugurado exatamente quando Artigas foi afastado da USP, juntamente com outros professores, em plena ditadura militar. Os anos de chumbo que se seguiram foram de repressão política e social e de derrocada de sonhos e promessas de futuro. Na arquitetura, o pós-modernismo anunciava a morte das utopias que o movimento moderno queria alcançar.

Mas Artigas ainda viveu para ver seu prédio-praça, aquele imenso cubo de concreto aparente apoiado sutil e levemente sobre colunas, ocupado por multidões de estudantes que ali se reuniam no final dos anos 1970 para retomar as lutas sociais pelos direitos civis, pela democracia. Graças a elas, o arquiteto pôde ser reintegrado à escola em 1980, onde lecionou até morrer, em 1985.

Neste momento em que celebramos o centenário de nascimento de Artigas (1915-1985), para mim, falar sobre sua obra é retomar a possibilidade de uma utopia de arquitetura -e de cidade- feita para a convivência, que privilegia os espaços de encontro, em que a abertura para os espaços públicos constitui-se um elemento estruturador.

Quem quiser conhecer mais sobre Vilanova Artigas e suas obras pode visitar a exposição sobre o arquiteto no Itaú Cultural ou ver o documentário “O Arquiteto e a Luz”, realizado por sua neta, Laura Artigas, que está em cartaz na cidade.

Além disso, em julho, serão lançados pela editora Terceiro Nome o livro “Vilanova Artigas”, de Rosa Artigas, com análise de obras de seu pai, e o infantil “A Mão Livre do Vovô”, de Michel Gorski e Silvia Zatz, com ilustrações do arquiteto.

Vale ainda conhecer a preciosa publicação “Vilanova Artigas”, editada pelo Instituto Lina Bo Bardi e pela Fundação Vilanova Artigas, e, a partir das informações disponíveis no site http://www.vilanovaartigas.com, visitar as suas

*Coluna originalmente publicada no Caderno Cotidiano da Folha.

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