Arquitetura nota 10, mas urbanismo…

Recentemente estive em Caruaru, no agreste pernambucano, para participar de um evento e, na ocasião, tive a oportunidade de visitar um empreendimento local do programa Minha Casa Minha Vida (MCMV) que tem sido muito elogiado por seu projeto arquitetônico.

Trata-se do residencial Wirton Lira, desenhado pelo escritório Jirau Arquitetura, da própria cidade. O projeto foi um dos selecionados para representar o Brasil na 14ª Mostra Internacional de Arquitetura da Bienal de Veneza, realizada no ano passado.

Quem vê as fotos do projeto realmente se surpreende, dada a completa mesmice da maior parte dos empreendimentos do tipo, que apenas reproduzem o mesmo modelo.

residencial wirton lira jirau arquitetura

Imagem: Jirau Arquitetura

A visita ao local, porém, mostra uma realidade completamente diferente. Mais uma vez, temos um conjunto do programa MCMV afastado da cidade, sem comércio nem serviços, longe dos equipamentos públicos, sem conexão com nada… enfim, sem urbanidade. As áreas que foram destinadas a ruas e espaços públicos, como mostram as fotos do dia da visita, são a imagem do abandono, com acúmulo de entulho e lixo. Faltam equipamentos e serviços públicos, e as oportunidades de emprego e de acesso a educação, lazer e cultura estão bem longe dali.

resiencial wirton lira amanda case

Foto: Amanda Casé

residencial wirton lira amanda case 2

Foto: Amanda Casé

Isso mostra que arquitetura desvinculada de urbanismo não funciona e que montar uma máquina de produção de casas – vem aí o MCMV 3! – sem sequer considerar a absoluta inexistência de qualquer política ou programa que apoie a produção de cidade não levará a resultados de qualidade.

Obviamente isso não é responsabilidade do escritório que elaborou o projeto, mas mostra que continuamos reproduzindo um modelo de produção de habitação social totalmente incapaz de atender os requisitos de uma moradia adequada, que incluem o projeto da residência, sim, mas vão muito além disso…

*Texto originalmente publicado no Yahoo!Blogs.

12 comentários sobre “Arquitetura nota 10, mas urbanismo…

  1. Infelizmente é o que vemos em praticamente todos os MCMV já implantados. Muitos moradores inclusive gostariam de voltar ao seu local de origem por conta dos acesos, serviços de saúde, escolas e comércio próximos e que só saíram de suas antigas residências para fugir do aluguel ou de áreas de risco. Infelizmente o governo só vai enquadrar a parte bonita do programa em suas fotos de divulgação. Formei há pouco tempo e mesmo antes de formar já presenciei essa realidade em pesquisas na universidade e na realidade do PMCMV na cidade que estudei (Viçosa-MG). O que mais me assusta é que o governo pode em breve aprovar a lei que não exige projetos em licitações para diversas áreas (somente anteprojetos), quem sabe atingindo até o MCMV. Precisamos continuar essa denúncia e esperar para que essa situação melhore um dia!

  2. Também pude conferir o mesmo no interior de Goiás: imensos “pombais” construídos distantes das cidades, embora ainda a partir de arquiteturas equivocadas ou perversas. O programa federal não à toa se chama Minha Casa Minha Vida, pois trata de vender casa e nada mais. Para atingir o objetivo de urbanidade deveria se chamar Minha Cidade Minha Vida.
    Agora, não creio que os escritórios de arquitetura que chegam a desenhar bons modelos de casas para o MCMV fiquem totalmente fora da responsabilidade de pensar e interferir no programa federal. Vamos lembrar que as escolas de arquitetura são também de urbanismo! E como bem disse Vilanova Artigas, “a casa não acaba na soleira da porta”. Nesse sentido, haveria de ocorrer uma pressão efetiva dos profissionais, tanto como das escolas de arquitetura e urbanismo de todo o país e dos governos locais sobre a tramitação do programa em Brasília. A questão da terra (ou do preço da terra) é fundamental. Urge, portanto, uma política fundiária capaz de solucionar essas injúrias de cunho segregacionista, sem o que ficamos a perpetuar o modelo da relação casa grande&senzala.

    • Arnaldo,
      Concordo com sua impressão de que a estética urbana decorre também do baixo nível dos profissionais de arquitetura que mal sabem sobre urbanismo e acabam, de certa forma, contribuindo para desqualificar a classe. Temos que reconhecer que nas boas escolas de arquitetura, a ética, a responsabilidade são destacadas e preservadas, porém, a realidade, fora da vida acadêmica é devastadora. Assim, esperar políticas fundiárias capazes de solucionar as tais “injúrias segregacionistas”, é esperar pelo trem que nunca vem. A pressão dos profissionais, lutando por melhores condições de tratamento à classe, provavelmente se constituirá mera batalha política. Acredito que obteremos melhores resultados, a partir de uma mudança de direcionamento nas nossas cabeças e nas nossas ideias, mais ou menos como coloquei na resposta à Camila Andrade. Abçs.

  3. Cara Raquel, nossos projetos de HIS vêm sendo construídos da mesma forma desde a época do BNH, com as unidades habitacionais “descoladas” da cidade. A legislação urbana -Habitação, Regularização Fundiária, (…) Sociais q têm rebatimento nas políticas públicas de Desenvolvimento Urbano- evoluiu bastante de lá pra cá, bem como a boa vontade em se retirar os pobres dos denominados domicílios rústicos… mas praticamente nada mudou em termos físicos da obra e do empreendimento em si e nem em termos de conter a “fome” da especulação imobiliária. Se um Governo dito de Esquerda (que pra mim, na verdade está apenas um pouco à esquerda da Direita, sobretudo recentemente), não mudou este paradigma… nós meio que, perdemos as esperanças (…). Abraços! Adoro seu blog. Camila

    • Cara Camila Andrade,
      Infelizmente, os comentários sobre a questão sempre se caminham para “diagnósticos” que, por sua vez, desaguam na incapacidade e competência doas agentes públicos. Pois bem, enquanto nos limitarmos aos tais “diagnósticos”, nada muda. É preciso reconhecer que a nossa crise não é só política ou ideológica, é, antes de mais nada, moral e intelectual. Basta ver que debitamos a governantes a culpa pelos nossos fracassos. De uma maneira ou de outra, lá estão, porque nós os colocamos, sem nada saber de suas intenções, planos, projetos e capacidade, ou seja, queremos que alguns imbecis, repentinamente, sejam tomados pelo espírito da sabedoria, do altruísmo, das virtudes? Assim, é ingenuidade ainda maior crer que as soluções estejam mais à esquerda ou mais à direita, como se ideologias fossem capazes de sintetizar e resolver conflitos. Pelo contrário, só sobrevivem às custas deles. Portanto, só uma revolução moral e intelectual, a partir da consciência e crescimento individual é que pode mudar o rumo das coisas, desviando-nos do abismo da mediocridade plena.
      Desculpe-me se a desagrado, mas acho que precisamos despertar para compreender a nossa situação e o que nos pode tirar disso.

      • Oi Vital! Imagina! Achei interessante a sua fala! Também acho que está passando da hora dessa revolução moral e intelectual… isso implicaria, no mínimo, na escolha de governantes decentes (…), mas como quem produz maioria absoluta de HIS no Brasil é o Governo, não vejo como não analisar a questão sem considerá-lo. Abraços

  4. Existem mecanismos que poderiam ser exigidos para análise e aprovação do MCMV junto ao governo federal-CEF, que não se restringissem ao projeto arquitetônico, mas também a sua localização no município em que será construído. Um exemplo seria exigir que houvesse equipamentos públicos, além da infraestrutura básica, em um determinado raio de abrangência do empreendimento.

    • Vanessa,
      Na verdade os tais mecanismos fazem parte de praticamente todos os Planos Diretores Municipais, mas são de uma rigidez e uma pobreza alarmantes. Neles não há lugar para inovações, transformações, invenção, renovação urbana, mudança cultural. São peças burocráticas, meros números e estatísticas que pouco contribuem para o mais importante: a qualificação dos espaços públicos, a partir da concepção e produção do espaço construído.
      Abçs.

  5. Há muito tempo, muito mesmo, defendo a necessidade da proposição urbanística preceder a arquitetônica. O caso do Brasil é incrível, pois caminhamos na contramão da evolução, sempre correndo atrás do próprio rabo. Quanto mais informação, menor a qualidade da intervenção. Deficiência do ensino, dos profissionais, dos agentes promotores das intervenções? Não há mais condições de se qualificar intervenções? Algumas padecem por absoluta ignorância e descaso, outras por absoluta ganância e indiferença. A mediocridade predomina, o bom é exceção. Poucos se importam com a baixa qualidade e como isso se reflete na qualidade ambiental e no dia a dia das cidades. Falta de recurso, de interesse, de criatividade, de vergonha, de responsabilidade? Talvez, ao invés de estar aqui fazendo meros comentários, pudesse estar oferecendo projetos e trabalhos de relevância para algum órgão público que se interessasse? Porém, parece que a capacidade das pessoas e dos administradores públicos está cada vez mais reduzida.

  6. Enquanto os interesses do mercado forem sobrepostos aos interesses da coletividade essa realidade, infelizmente, prosseguirá.

  7. Talvez seja válida a ideia de averiguar mais de perto o “funcionamento” de secretarias tal como a Sehab da Prefeitura de São Paulo. Os munícipes ficam a pensar que em algum lugar dessa secretaria há uma enorme sala de trabalho onde se encontram dezenas de arquitetos desenhando moradia popular ou projetos de conversão de edifícios ocupados em HIS. Entretanto, isso é uma ilusão ante a real inércia que reina nos departamentos institucionais: não há profissionais a postos, não há desenho algum, nem vontade política de que isso ocorra. Daí a importância de se pensar o papel das universidades, e em particular das escolas de arquitetura, no enlace com as gestões municipais: uma espécie de intercâmbio efetivo, de trabalho colaborativo na envergadura da responsabilidade social, unindo o conhecimento científico com as práticas de projeto concernentes à habitação popular.
    Trata-se de um desperdício o potencial de uma FAU USP, por exemplo, em mãos de estudantes e professores coordenadores de projeto, ante o vazio das instituições.
    Trabalhando diretamente com movimentos de moradia, continuo a organizar grupos de alunos no estabelecimento de estudos preliminares para a conversão de edifícios ocupados em HIS. Dessa forma, o desenvolvendo dos nossos estudos levam ainda em consideração a participação efetiva dos moradores, o que representa, em simultâneo, a conscientização dos chamados sem teto em face da provisão de moradia digna. A base técnica de nossos trabalhos, entrementes, se associa ao acompanhamento das questões jurídicas caso a caso. Nada disso, no entanto, parece ser objeto de preocupação das escolas, ou ainda não de forma tão clara quanto necessária. Por seu turno, os alunos que já tiveram belos projetos aprovados nas escolas de arquitetura, não raro se esquecem de devolver suas notas 10 aos movimentos de moradia que lhe abriram as portas, o que é uma pena, pois não imaginam o quão significativo é um 10 em projeto nas escolas de arquitetura para o empoderamento das ações dos ocupantes. Nesse sentido, continuam as ocupações a servirem-se de “safari” exploratório das práticas projetuais dos alunos, e as escolas parecem (ainda) não perceber o sentido efetivo dessa praxis como efetiva responsabilidade social.
    Creio que essas palavras possam sinalizam algo mais que um comentário, mas uma proposição de fato. O terreno é fértil para mudanças e, como tenho visto, os mais jovens captam muito bem essas demandas, comportando-se até mesmo como verdadeiros técnicos ativistas. Alguns (incluindo estrangeiros em intercâmbio) passam a morar nas ocupações e, assim, compreendem melhor o significado da construção da cidadania, ao invés de elencar meramente a cidade sob aquele jargão terrível e já vicioso que relaciona desenhos afins com “a cidade que queremos”. Em suma, é partir para a Função Social do Arquiteto (!) antes de discursar sobre a Função Social da Propriedade.

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