Crise da água em São Paulo: e a conta sobra… pra nós!

Em plena crise hídrica que afeta o estado de São Paulo, o governador Geraldo Alckmin anunciou que pretende aumentar a tarifa de água em 22,7%, a fim de compensar gastos realizados para enfrentar a situação. A proposta de reajuste da Agência Reguladora de Saneamento e Energia do Estado de São Paulo (Arsesp) é de 13,8%, já bem superior à inflação, mas o objetivo da Sabesp é repor suas perdas com a crise desde 2013…

Vale lembrar ainda que, desde janeiro, pelos mesmos motivos, a Eletropaulo já vem aplicando tarifas mais caras para o fornecimento de energia elétrica, já que os custos de sua operação também se elevaram com a crise da água.

Embora a Sabesp negue, é impossível não pensar que o “bônus” pela economia de água concedido em 2014 foi falso, já que agora vamos pagá-lo de volta. É absurdo que os cidadãos, além de já sofrer os transtornos gerados pela crise – com grandes esforços para economizar água, racionamentos não oficiais e reduções de pressão no fornecimento de água sem aviso – ainda tenham que mexer no bolso para repor expectativas de lucro não realizadas, garantindo a rentabilidade dos investidores. Com crise e tudo, o lucro da Sabesp no ano passado foi de 903 milhões e a empresa pagou R$ 504 mil em bônus para seus diretores, de acordo com informações divulgadas pela imprensa.

Agora, diante da ameaça de serem rebaixadas nos “ratings” elaborados por agências de classificação de risco – que basicamente estão focalizados na possibilidade de remuneração para quem investir nas empresas, e não na qualidade dos serviços que prestam –, empresas como Sabesp correm para aumentar seu caixa, cobrando mais por uma água cada vez mais escassa e de pior qualidade para os cidadãos.

Já afirmei antes que a crise da água é um problema nosso, de toda a população, e não apenas da Sabesp. Essa crise levanta questões da maior importância sobre nosso modelo de consumo, de organização do território, e nossa relação com bens preciosos como a água. É no mínimo melancólico que diante da crise o que prevaleça seja mais do mesmo… reformar o modelo nem pensar… Transfere-se a conta pra população, garantem-se os ganhos daqueles que “apostam” na água como um ativo e tudo continua como está. E se a água acabar? Bem, certamente existirão outros setores lucrativos para novas apostas…

*Texto publicado originalmente no Yahoo!Blogs.

4 comentários sobre “Crise da água em São Paulo: e a conta sobra… pra nós!

  1. Em toda crise é muito fácil colocar a culpa no governo. Acho que o governador pode ser muito bom para Estado de São Paulo, mas não faz chover onde quer, se tivesse tal poder, com certeza ele decretaria que chovesse o ano inteiro no Sistema Cantareira. Ele tem que cobrar do usuário mesmo, porque em parte o grande culpado do gasto e desperdiço da água é o consumidor. É sempre assim, só vamos economizar quando o quadro ficar crítico , a ponto do governo partir para um racionamento. É como a utilização excessiva dos carros na Capital de São Paulo, não adianta o transito travado, o rodizio, ou o que pior a poluição particulada, que aquele que tem carro , não abre mão do conforto. Somente o dia que São Paulo travar de vez, ou que ninguém conseguir respirar, que a grande maioria vai deixar seu carro na garagem.
    Com o consumo de luz é o mesmo, poucos se preocupam em economizar, só dão valor na hora do apagão, e não estamos longe disto, pelo menos na Região Sudeste, pois choveu muito pouco nos reservatórios das Hidrelétricas. É aquela velha história, “na falta de farinha meu pirão primeiro” Temos que pensar o tempo todo em Sustentabilidade e no Coletivo, ou seja se pouparmos os recursos naturais hoje , teremos futuro para nós e nossos descendentes.
    Grato por esta oportunidade
    Antonio da Ponte
    Ambientalista e Corretor de Imóveis.

  2. É uma desfaçatez mesmo, Raquel. Todos os sacrifícios e contribuições da população convertidos em penalização. A SABESP tem a obrigação de avaliar melhor a reação da população que se sentirá traída, fato que comprometerá campanhas futuras e será uma perda irreparável (perda de confiança). A situação é delicada e requer uma visão estratégica e de planejamento mais apurada. Um simples aumento de tarifa para recompor as “perdas” de receita e necessidade de reinvestimento, parece uma “solução” imediatista, irresponsável, unilateral, burra e indecente.

  3. Qual a alternativa. O artigo revela que a autora imagina os recursos públicos com elasticidade infinita. Existe um orçamento. É justo e desejável que a sociedade discuta a melhor forma de utilizá-lo, mas o que o artigo faz é um malabarismo ideológico vulgar. Em um momento de crise na oferta de água o preço é uma forma eficiente de racionalizar o consumo, de forçar a redução de desperdício e a mudança de hábitos. Além disso, quem vive nesta Terra Brasilis sabe que a economia está em crise, a arrecadação de impostos caiu e a receita encolheu. Que verbas Raquel Rolnik imagina usar para não aumentar tarifaz de água e eletricidade? Da educação, da saúde, da segurança pública, da contrução de casas populares, de investimentos em infraestrutura? Reclamar é fácil. Difícil é a vida e seu ofício.

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