A vez do pedestre também tem que ser agora!

calcada itaquera

Calçada em Itaquera, zona leste de São Paulo. Foto: Marcos Paulo Dias

Até o dia 17 de abril, os paulistanos podem contribuir pela internet com a elaboração do Plano de Mobilidade da cidade de São Paulo. A última rodada de debates temáticos presenciais acontece no próximo sábado, a partir das 9h, no auditório da Uninove (Vergueiro). A elaboração do plano é uma exigência da Política Nacional de Mobilidade, aprovada em 2012.

Um dos temas que serão discutidos no encontro de sábado é a mobilidade a pé. Embora ninguém nunca fale nos pedestres na discussão da mobilidade urbana, a quantidade de pessoas que se desloca no dia a dia principalmente desse modo é altíssima: chega a mais de 30% da população, segundo a pesquisa Origem e Destino realizada pelo Metrô em 2007.

Se considerarmos que os que utilizam o transporte público também se deslocam a pé no trajeto entre a casa/trabalho/escola e o ponto onde pegam o ônibus ou a estação de trem ou metrô, percebemos que o tema é absolutamente central nessa discussão. Mesmo quem utiliza o carro diariamente, em alguns momentos, é também pedestre: no horário de almoço, quando caminha até um restaurante, ou mesmo no trajeto entre o estacionamento e o local de trabalho.

Porém, quando se fala em mobilidade urbana, em geral pouco se pensa na situação dos pedestres na cidade. Lembro de uma pesquisa realizada pela CET em 2011 que mostrava que 89,6% dos motoristas não respeitam as faixas de pedestres e que cerca de 70% das pessoas que se deslocam a pé se sentem desrespeitadas no trânsito.

Em 2011, também, a Câmara Municipal aprovou uma Lei das Calçadas, estabelecendo novos critérios e parâmetros, e até publicou uma cartilha para orientar os proprietários de imóveis, que são, em grande parte das ruas da cidade, os responsáveis pela manutenção das calçadas. Obviamente, de lá pra cá, não vimos grandes mudanças, nossas calçadas, em geral, continuam sendo de péssima qualidade…

O fato é que esse modelo de gestão da infraestrutura de circulação dos pedestres, privado e individual, simplesmente não dá conta de enfrentar o problema. Se historicamente o poder público cuida do leito carroçável, onde andam os veículos, por que não pode ser responsável por garantir calçadas seguras e confortáveis para os pedestres?

Pensando em todas essas questões que envolvem o difícil cotidiano de quem se descola a pé pela cidade, um grupo de pessoas decidiu criar a Associação pela Mobilidade a Pé em São Paulo. O objetivo é se articular e somar forças para cobrar a inclusão de ações pela melhoria da mobilidade a pé nas políticas gerais de mobilidade da cidade.

E eles estão certos. Uma verdadeira política de mobilidade implica, sim, pensar ações de apoio à circulação dos pedestres. Em Nova York, por exemplo, existe um plano de mobilidade não motorizada que inclui tanto ações para deslocamentos por bicicleta – como o planejamento das ciclovias – como ações voltadas à melhoria da circulação dos pedestres na cidade.

Nesse momento em que a cidade de São Paulo busca mudar seu paradigma de mobilidade, investindo em mais espaço para o transporte público e para as bicicletas, com a implementação de faixas exclusivas de ônibus e de ciclovias, é fundamental, também, incluir iniciativas que melhorem as condições dessa parcela tão expressiva da população que se locomove a pé.

*Texto publicado originalmente no Yahoo!Blogs.

5 comentários sobre “A vez do pedestre também tem que ser agora!

  1. Em muitos condomínios fechados as calçadas são perfeitas. Não existem guias rebaixadas. As guias são em 45º o que permite o acesso dos automóveis às garagens e evita que se formem degraus na calçada. As guias a 45º podem perfeitamente serem instaladas em São Paulo.

    Precisamos entretanto de uma mudança na lei, proibindo o rebaixamento de guias.

    Interessante observar que qualquer medida que implique em mudança de mentalidade em relação ao deus automóvel gera protestos de todas as camadas sociais.

  2. De fato vemos em em nossas cidades uma esmagadora maioria de calçadas sem qualquer qualidade, em frente aos mais variados tipos de edificações. O deslocamento a pé não é levado a sério nem pelas gestões nem pelos munícipes.

  3. Muito bem lembrado, Raquel . O pedestre é sempre esquecido e as calçadas , idem . Como não há nenhum glamour em andar a pé , como não dá para colocar na capa de uma revista famosa modelos andando a pé ( como se faz com as bicicletas cada vez mais sofisticadas ) esta prática elementar ,universal, milenar , a primeira conhecida pelo homem cai no esquecimento apesar de toda a sua antiguidade . Deveria se pensar também em transformar a prática cultural do andar a pé em Patrimônio da Humanidade , quem sabe assim a coisa pega !

  4. Observa-se ainda nos condomínios fechados que há regras para tudo e ninguém desrespeita. Talvez seja porque condomínios fechados são feitos pela iniciativa privada.

    Compare com os espaços públicos – as ruas – onde as pessoas tem uma natural propensão em transgredir. Não respeitam o alinhamento do imóvel, invadem calçadas e fazem nela a rampa da garagem, criando degraus e contrariando o Código de Edificações.

    Brasileiros confundem espaço público com terra de ninguém.

    Por isso acho que a Prefeitura tem que reformar calçadas e multar pesadamente quem se apropria delas ou fere o Código de Edificações. A leniência do poder público é um dos vícios da nossa democracia que precisa acabar.

  5. Olá Raquel, sou o adm. de uma fanpage com o tema PEDESTRE-SE. Vou compartilhar seu artigo lá…achei muito interessante.

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