Cidades, bicicletas e protestos

A decisão (depois revertida) de um juiz de paralisar as obras cicloviárias da cidade de São Paulo -em resposta a uma ação apresentada pelo Ministério Público Estadual- coloca o Judiciário como nova arena de um conflito que já estava presente nas ruas da cidade desde que um movimento por formas alternativas de mobilidade foi ganhando corpo e exigindo espaço para as bicicletas, em um sistema viário no qual o transporte individual motorizado reina soberano há décadas.

Em São Paulo, assim como em outras grandes cidades do mundo, a implantação de ciclovias é resultado de anos de mobilização de ativistas que defendem a bicicleta como meio de transporte.

Em Nova York, por exemplo, desde o início dos anos 1970, mobilizações de ocupação das ruas por bicicletas acontecem na cidade, integrando o movimento ambientalista.

Mas foi apenas depois de uma grande greve de transporte público em 1980, quando cicloativistas estabeleceram rotas emergenciais de bicicletas para facilitar o deslocamento, que a ideia de utilizá-las como alternativa de transporte ganhou corpo e as primeiras faixas exclusivas começaram a ser implementadas. Mas após protestos de comerciantes e pedestres, o mesmo prefeito que as implantou decidiu eliminá-las.

A luta e a mobilização dos ciclistas, entretanto, continuaram até que, entre 2006 e 2010, mais de 400 quilômetros de ciclovias finalmente foram implantados. De lá para cá, o número de ciclistas mais do que dobrou. Ainda assim, a briga continua: entre denúncias sobre buracos e má execução de faixas, protestos de comerciantes e moradores, a integração da bicicleta como meio de transporte, juntamente com um programa de apoio à circulação de pedestre, é um dos eixos do departamento de trânsito da cidade.

O que estamos vivendo em São Paulo hoje não é muito diferente. A mudança proposta pelos cicloativistas e encampada pelo Plano Diretor significa muito mais do que a introdução de um novo modal. Faz parte de um movimento bem mais amplo de desconstituição da cidade para os carros -onde reina a lógica de que só os pontos de partida e chegada importam, e não o percurso-, em direção a uma cidade onde estar no espaço público é parte integrante da vida urbana.

Evidentemente, ainda falta muito para que São Paulo se reinvente. Para os que criticam ciclovias ainda sem muitos ciclistas, a resposta dos especialistas em transportes é que a oferta da nova infraestrutura fará que o novo modal cresça cada vez mais. Ainda, para os que denunciam que muitas faixas estão sendo mal executadas, basta olhar ao redor -para nossas calçadas ou mesmo vias pavimentadas- para constatar a péssima qualidade de execução. Este é, portanto, um daqueles temas que vão muito além das ciclovias…

Finalmente, o argumento de que comerciantes e moradores não foram ouvidos -que deveria valer para todas as iniciativas urbanísticas- procede. Porém, melhor do que guerra nos tribunais é o diálogo e o debate sobre os projetos. Se isso acontecer na implantação das ciclovias, quem sabe não passará a valer também para a implantação de pontes, viadutos, alargamentos de vias, traçados de linhas de metrô e tudo mais?

*Coluna originalmente publicada no Caderno Cotidiano da Folha.

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