Severiano Porto, uma arquitetura do lugar, em extinção

Na semana passada, dia 19 de fevereiro, o arquiteto Severiano Porto completou 85 anos. Nascido em Minas Gerais, viveu grande parte de sua vida entre o Rio de Janeiro, onde se formou arquiteto nos anos 1950, e Manaus, onde desenvolveu as grandes obras que o projetaram internacionalmente e que o levaram a ser conhecido como “o arquitetoda Amazônia”.

Nesses tempos de uma arquitetura de linguagem internacional padronizada, sem qualquer vínculo com os lugares onde os projetos são implementados, em que muitas vezes não conseguimos identificar se estamos em Miami, no meio do deserto em Dubai ou nos manguezais da Cidade do Panamá, a obra de Severiano Porto merece ser lembrada porque é justamente o oposto disso: uma arquitetura com fortes elementos regionais, relacionados à cultura ribeirinha, e ao mesmo tempo com linguagem modernista e técnica contemporânea.

A madeira, por exemplo, é um material que tem forte presença nas obras do arquiteto. Imagine que hoje, em plena Amazônia, a Caixa proíbe nos projetos de habitação social do Programa Minha Casa Minha Vida a utilização desse material. Aliás, os conjuntos habitacionais do programa são um bom exemplo de uma arquitetura produzida em série, um carimbinho que se reproduz em qualquer cidade do país, sem qualquer relação com o ambiente do lugar.

De alguns anos para cá, infelizmente, algumas obras de Severiano Porto em Manaus já foram demolidas, outras certamente estão sob ameaça. Um exemplo é o Estádio Vivaldo Lima, um dos primeiros trabalhos do arquiteto, derrubado após 40 anos para dar lugar à Arena da Amazônia, um dos estádios da Copa do Mundo e outro exemplo de arquitetura do não lugar. Além do estádio, já foram demolidos também um restaurante e a casa onde o arquiteto morou antes de voltar definitivamente para o Rio de Janeiro, onde vive hoje. Não faz muito tempo li que o Centro de Proteção Ambiental da hidrelétrica de Balbina, um dos mais belos projetos do arquiteto, está em ruínas…

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Foto: Marcos Costa (https://marcosocosta.wordpress.com). Centro de Proteção Ambiental de Balbina.

São obras de Severiano Porto o campus da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), a sede da Superintendência da Zona Franca de Manaus (Sufram), o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa); a sede do Banco do Estado da Amazônia, o campus da UNAMA (em Belém), entre muitas outras, incluindo restaurantes, pousadas, parques. A cidade de Manaus, seus moradores e todos os brasileiros devem se orgulhar desse legado… e lutar para preservá-lo. *Texto originalmente publicado no Yahoo!Blogs.

4 comentários sobre “Severiano Porto, uma arquitetura do lugar, em extinção

  1. Raquel, ontem o pessoal do A Batata precisa de você compartilhou um video com um fala tua….. suponho que se lembre do que disse rs…. não perdi a oportunidade é claro pra compartilhar o video usando a tua expressão genial… ‘lugar do nada’….. são tempos de lugar do nada!

  2. Severiano é um dos maiores exemplos que ao conceder ao arquiteto e ao urbanista a responsabilidade por elaborar obras coerentes e belas, a tarefa pode ser cumprida com louvor. Agora, quando acharmos que o limite da expressão e da criação são leis ambientalistas capengas que tratam a arquitetura como uma arma contra a natureza e mero crime ambiental, é porque pouco temos a fazer numa “civilização” perdida, onde o humano deu lugar ao profano e ao insano. Honras a Severiano, arquiteto da Amazônia.

  3. A colega Mércia Parente que morou em Manaus muito tempo já havia me falado do descaso com essa obra ímpar. Esse país não valoriza muitos daqueles que produz. Severiano Mário Porto sempre foi para mim, desde minha graduação, uma referência de como fazer arquitetura com criatividade em um clima aparentemente adverso. Deveria, como foi comentado acima, ter o devido reconhecimento das instituições CAU, IAB entre outras. Se houvesse um Prêmio Pritkzer brasileiro com certeza ele seria um dos escolhidos há muito tempo.

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