Desastres não são naturais

Em comemoração aos seus 94 anos, a Folha de S. Paulo convidou colunistas para opinarem sobre temas atuais, buscando pontos de vista distintos sobre cada assunto. Participei deste especial com um texto sobre a crise hídrica em São Paulo, que compartilho a seguir.

Resposta à pergunta: O governador Alckmin é culpado pela crise hídrica em São Paulo?

Sim

Pobre governador, como poderia prever uma seca tão grave como a que vem ocorrendo na  região metropolitana de São Paulo e outras áreas do Sudeste há pelo menos dois anos? De fato, este, como outros desastres ligados a fenômenos da natureza como terremotos e inundações não são controláveis, mas suas conseqüências, e, sobretudo, seus efeitos sociais e econômicos podem ser evitados ou, ao menos, minimizados.

No caso da atual crise hídrica, o governo do Estado de São Paulo é sem duvida o maior responsável não pela falta de chuva, mas pelos enormes danos que já estamos sofrendo a partir desta. Por quê?

O governo do estado é responsável pela política de saneamento, recursos hídricos e meio ambiente de São Paulo, além de ser ao mesmo tempo o regulador e maior acionista da Sabesp.

Nas últimas décadas o governo fez muito pouco para ampliar a cobertura vegetal e assim garantir maior capacidade de recarga das nascentes e rios. Pelo contrário: quem convive com as regiões onde se situam as maiores represas e seus formadores assiste a um processo contínuo e permanente de desmatamento e ocupação.

Se as possibilidades de recarga são cada vez mais limitadas, pior ainda é a situação do saneamento em São Paulo. Como é possível que na metrópole de maior PIB da América Latina os rios Tietê e Pinheiros, além de vários de seus afluentes, ainda estejam poluídos por esgoto doméstico? Como uma das maiores empresas de saneamento do mundo –segundo o site da Sabesp–, que reverte quase 51% do seu lucro para o governo do Estado e que cobra não só a água, mas também o tratamento de esgoto de um enorme mercado cativo de consumidores, não foi capaz de tratar o esgoto, comprometendo com isto a qualidade da água de represas (como a Billings), que poderiam representar hoje uma alternativa ao desabastecimento?

Finalmente, ao negar de forma eleitoreira a crise ao longo de 2014, o governo do Estado nos impediu de adotar medidas de economia com mais antecedência, evitando assim o desastre anunciado.

*Coluna originalmente publicada no site da Folha.
* Veja nesta página todos os temas e opiniões.

3 comentários sobre “Desastres não são naturais

  1. Em vez da relatora do ONU Catarina de Albuquerque, fico com Martha Lu que deixou o conforto do seu apartamento em Moema para tornar-se ativista da crise da água. Ela fez a relatora gaguejar ao laçar-lhe a pergunta avassaladora: ‘a ONU está preparada para dar água a 20 milhões de pessoas? Até que a relatora capitulou e disse que não.

    À essa altura, de nada adianta procurar o culpado pela colisão com o iceberg quando o navio começa a fazer água. A prioridade agora é salvar as pessoas.

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