Chuva, suor e… o patrocínio daquela marca de cerveja?

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Já se foi o tempo em que São Paulo ficava vazia e tranquila no período do carnaval. Há algunsanos, o carnaval da cidade está mudando, graças à presença de muitos blocos nas ruas, arrastando cada vez mais gente pra brincadeira… A expectativa é que, até o final de fevereiro, 2 milhões de pessoas participem do carnaval de rua paulistano, já que este ano foram mais de 300 os blocos cadastrados.

Diante desse expressivo crescimento, muitos desafios são colocados para a prefeitura, que desde o ano passado decidiu entrar para apoiar e organizar a festa. Como garantir infraestrutura, segurança, banheiros, limpeza, agentes de trânsito, atendimento médico, divulgação, entre tantos outros requisitos para que o carnaval ocupe as ruas com muita folia e o menor transtorno possível?

Uma das polêmicas que sempre cercam a festa é a questão dos patrocinadores. Agora que o carnaval de rua de São Paulo começa a crescer, essa questão vai aparecer cada vez mais. Porque, claro, quando você junta muita gente num mesmo evento, imediatamente este se transforma em alvo de ações de marketing e propaganda, além de possível fonte de renda para seus promotores ou os que aproveitam a festa para vender seus produtos. É aí que começa uma verdadeira “guerra” de interesses comerciais.

Vamos lembrar o que aconteceu em Salvador: a lógica da venda dos abadás que dão acesso aos blocos com cordões de isolamento, além de privatizar a rua, só promoveu exclusão: quem tem dinheiro paga para ter conforto e não se misturar com o “povo”, que fica espremido do lado de fora do cordão. Aliado aos camarotes dos patrocinadores – frequentados por políticos, celebridades e gente rica –, tudo isso fez com que o carnaval da Bahia perdesse muito da sua força e da vitalidade popular que tinha até os anos 1980 para se transformar, majoritariamente, em negócio.

Esta opção, no caso de São Paulo, está proibida. Os blocos podem ter camisetas ou fantasias que os identifique, mas não podem “isolar” quem decidiu comprá-las das outras pessoas. Desde o ano passado, a prefeitura proibiu tais cordões e a comercialização de abadás. Ou seja, a cidade de São Paulo, até agora, tem optado por um carnaval como o de Recife/Olinda ou o do Rio de Janeiro: popular, aberto e não excludente.

Mas, então, como é que se banca um carnaval em que todos tenham o direito de brincar e usufruir da festa igualmente?

Botar 300 blocos na rua requer gastos, infraestrutura de apoio, planejamento e organização. Por isso é fundamental que prefeituras e governos estaduais organizem a festa. E como o poder público não quer tirar recursos de creches, hospitais e escolas, a solução é a busca de parceiros privados e patrocinadores.

Nessa busca, porém, os maiores blocos às vezes disputam com a própria prefeitura o financiamento dos grandes patrocinadores. Lembro bem, em meados dos anos 2000, a “chave-de-braço” entre a Prefeitura do Recife e a direção do Galo da Madrugada, o maior bloco da cidade, para conseguir garantir um patrocínio centralizado pela prefeitura para investir na infraestrutura e redistribuir os recursos para todos os blocos… Acontece que muitas empresas, em geral, de cerveja, buscam garantir seu nome e presença nos desfiles que vão ter maior visibilidade, deixando a demanda por um patrocínio mais geral na mão…

Em São Paulo, em outubro do ano passado, a prefeitura publicou edital de chamamento público para empresas interessadas em patrocinar o carnaval de rua. Na ausência de candidatas, o prazo foi prorrogado para janeiro, com possibilidade de propostas livres, ou seja, sem necessidade de cumprimento às exigências de quantidades estipuladas no edital. No fim das contas, uma única pareceria foi firmada, no valor de R$ 500 mil, para uma festa que custará R$ 4 milhões. Mas, desde a semana passada, já teve bloco desfilando com cartazes pregados nos postes e balões de propaganda de cerveja, o que, aliás, é proibido por aqui em função da Lei Cidade Limpa.

Além do mais, o problema não é só garantir a infraestrutura. Botar bloco na rua tem custos. Os blocos pequenos, que são a maioria, se viram como podem, com vaquinhas entre os integrantes e financiamentos coletivos para pagar gerador, amplificador, carro de som, motorista, bandas, orquestras etc. Outra opção é vender camisetas e realizar festas para arrecadar fundos. Mas nem sempre essas ações são suficientes…

No Rio de Janeiro, este ano, alguns blocos anunciaram que não vão desfilar por falta de recursos. São blocos de médio porte, que não conseguem se bancar sozinhos, apenas com vaquinhas, e nem atraem grandes patrocinadores. Em Olinda, onde centenas de blocos e troças carnavalescas desfilam todo ano, acompanhadas das tradicionais orquestras de frevo, o poder público apoia as agremiações cadastradas, mas não as impede de captar outros recursos. No entanto, há uma exigência: os blocos não podem ser patrocinados por empresas concorrentes dos patrocinadores oficiais da festa.

Pelo que temos visto nos últimos anos, o carnaval de rua de São Paulo deve crescer ainda mais, o que significa a necessidade de cada vez mais esforços, por parte do poder público, para planejar, organizar e articular parcerias, de forma a garantir uma festa realmente aberta, popular, sem nenhum tipo de restrição ou exclusão. De outro modo, corremos o risco de ver toda a energia espontânea que vem tomando conta da cidade nessa época ser capturada por outros interesses e se transformar em mero negócio, como já aconteceu em outros lugares. Sem dúvida, não é o que a cidade parece desejar.

Foto: Flickr/Overmundo (via Yahoo).

*Texto originalmente publicado no Yahoo!Blogs.

 

5 comentários sobre “Chuva, suor e… o patrocínio daquela marca de cerveja?

  1. Deveriam colocar a propaganda do Carnaval como exceção ao “Cidade Limpa”, e formar um pool entre patrocinadores e Prefeitura para viabilizar a festa, nos lugares em que é possível fazer isso.

  2. Parcerias sempre são bem vindas mas não vejo boa vontade da prefeitura ao dizer que não pode gastar R$ 4 mi no carnaval de rua mas dá 24 mi/ano para as escolas de samba produzirem aquele pseudo-carnaval e pretende construir a tal ‘fábrica de sonhos’ ao custo inicial de R$ 124 milhões (e não 214 como saiu em meu comentário anterior devido a erro de digitação)

    Outra incoerência é a contratação de Alceu Valença para encerrar o carnaval paulistano quando falta dinheiro para ajudar os blocos. Além de desnecessário, desvirtua o espírito de espontaneidade, originalidade e intimidade dos carnavais de rua, tão presente nas pequenas cidades. O melhor exemplo vem de São Luis do Paraitinga onde inclusive é proibido tocar funk ou axé para não corromper músicas e ritmos. Também ali não há a presença de grandes astros para não transformar o carnaval em uma indústria como em Salvador.

    Chega de ficar copiando Rio e nordeste. Vamos seguir o exemplo de Paraitinga e produzir um carnaval nosso, original, único, em que a atração principal seja a celebração da cidade – como aliás já ocorre na Virada Cultural. Basta de padronização. Basta de ficar tentando transplantar costumes de outros estados para São Paulo. O maior capital que esta cidade tem não é o dinheiro mas seu povo. Precisamos valorizá-lo.

  3. Raquel,
    Não encontrei a página de contato (denúncias, sugestóes), por isso pergunto aqui mesmo:
    Estão cortando árvores da Praça do Correio (centro de São Paulo). Árvores aparentemente saudáveis. A que se deve isso?

  4. Se 10% daqueles que se manifestam festivamente no carnaval resolvessem se manifestar contra os problemas que transtornam nossa sociedade, tudo estaria resolvido. Se 10% dos que saíram às ruas no pré-carnaval de Recife, cerca de 600 mil, ou seja apenas 60 mil, imagine, fossem às ruas para protestar contra a miséria de Pernambuco, aquele lugar seria revestido de ouro e prata e em minutos apareceria dinheiro pra tudo. Mas eles só querem se embebedar no carnaval, apenas isto. Recolher a urina destes foliões custa mais coro que a própria cerveja. Acho que as glamourosas marcas de cervejas deveriam ser responsabilizadas e obrigadas a recolher a urina dos foliões, não a prefeitura. Enquanto as ruas são alagadas pela urina e alguma coisa é recolhida pela prefeitura, os patrocinadores acham isto muito bom. Tudo continua… Esta festa deveria se chamar carnamijo ou mijoval, uma festa podre de um povo que se apodrece por opção.

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