São Paulo – catástrofe ou utopia?

Ontem São Paulo completou 461 anos. Como será a cidade daqui a 39 anos, quando completará seu quinto centenário?

Observando os desafios que enfrentamos hoje, um dos cenários é, sem dúvida, catastrófico. Uma cidade sem água apropriada para consumo, sem energia elétrica acessível e produzindo cada vez mais lixo. Na paisagem, mais asfalto e concreto, mais e mais viadutos, pontes e túneis, péssimas calçadas, parques e praças residuais.

E as pessoas, claro, cada vez mais imobilizadas e trancadas: em casas e apartamentos cada vez mais caros, no carro, no trabalho, no shopping. Como em um filme de ficção, será um salve-se quem puder: os milionários, depois de terem extraído toda a riqueza que puderam, terão se exilado em uma colônia em Marte.

Mas também é possível vislumbrar um cenário otimista onde, na comemoração dos 500 anos de São Paulo, podemos ter uma cidade em que o espaço público seja o elemento estruturador, que contará com uma rede de transporte coletivo de alta qualidade, com múltiplos modais, garantindo total liberdade de ir e vir para toda a população… Os espaços privados individuais talvez se tornem ainda menores, mas estarão disponíveis para todos, e a oferta e a qualidade do espaço público e sua utilização democrática serão máximas.

Além disso, graças à recuperação dos mananciais da cidade e da mudança no modelo de gestão e consumo da água, todos os paulistanos poderão usufruir desse recurso. A produção de lixo também será mínima, tanto pela alta capacidade de reciclagem e reaproveitamento quanto pela diminuição do consumo. A maior parte da energia elétrica, em vez de comprada como mercadoria de luxo, será autoproduzida pelos cidadãos em suas atividades.

Mas o que separa a catástrofe da utopia? Não tenho dúvidas de que a inércia pode nos levar à catástrofe. Deixar tudo como está, não enfrentar os desafios que já estão colocados hoje, não promover as mudanças necessárias pode significar que estamos construindo para as próximas gerações uma cidade completamente inóspita.

A utopia, por sua vez, não deve ser entendida como algo impossível. A construção diária da utopia é o que pode nos levar a uma guinada. Para isso, é necessário nos convencermos de que parte importante do excedente de riqueza que a cidade produz deve ser usada para subsidiar suas demandas coletivas. Mas apenas isso não é suficiente. Outra dimensão fundamental é a da mudança cultural, e esta, me parece, já começou a acontecer.

São muitos os movimentos em São Paulo hoje que reclamam maior participação nas definições e decisões de políticas públicas para a cidade, que atuam nos bairros, que reivindicam moradia adequada, áreas públicas, mais praças, parques e espaços culturais. Que não se conformam com a força de um mercado que, da noite para o dia, destrói memórias, afetos e paisagens. Que não aguentam mais o desconforto, a desigualdade e a violência no trânsito e por isso cobram mais eficiência e qualidade no transporte público, mais e melhores espaços para ciclistas e pedestres.

Fortalecer essa cultura na construção da utopia, hoje, é o melhor presente que temos a dar para a São Paulo do futuro.

* Coluna originalmente publicada no Caderno Cotidiano da Folha.

7 comentários sobre “São Paulo – catástrofe ou utopia?

  1. Os motivos que nos trouxeram a esta situação de fragilidade em São Paulo estão prá lá de desgastados e as soluções continuam tímidas e controversas.
    Neste momento, discute-se a retomada da “revitalização” do centro, projeto ao qual o Prefeito prefere chamar de requalificação. Seja qual for a denominação, as ideias e proposições que se apresentam parecem por demais óbvias e até obsoletas, antes mesmo que sejam colocadas em prática. Falam em mudanças estruturais e em intervenções pontuais que se articulariam em um plano global. Do que posso depreender, participando e acompanhando o processo, com certeza o mal maior é a falta de uma política urbana séria e independente, voltada à qualificação urbanística que, via de regra, enfrenta resistências e barreiras de toda ordem, manifestas em todos os setores envolvidos: investidores imobiliários, agentes públicos, interesses políticos, iniciativa privada e sintetizadas na falta de personalidade e credibilidade do gestor.
    Assim, qualquer iniciativa pública logo é metralhada e contestada e qualquer iniciativa privada é submetida às generalidades das leis que regulam o espaço público e os empreendimentos imobiliários. Resultado: ausência de critérios de análise que poderiam contribuir para melhoria da cidade, beneficiando seus usuários e moradores e que pudessem transformar espaços de interesse exclusivamente financeiro e funcionalista em patrimônio urbano.
    As soluções se perdem no distanciamento, desencanto, sofrimento, pois, agentes públicos e leis não possuem a condição básica para o desenvolvimento da vida nas cidades: sensibilidade e percepção do tempo e espaço, atributos próprios das pessoas.
    Enquanto insistirem em tratar alguns assuntos como eminentemente técnicos ou econômicos ou políticos ou sociais, nada podemos esperar que nos surpreenda ou que mude o rumo da história.

  2. Nossa Raquel… Estamos morando no Uruguai, mas no segundo semestre vamos voltar pro Brasil. Senti uma tristeza ao ler essa reportagem, quisera eu ter a utopia de acreditar que dias melhores virão…

  3. Mantenho a opinião que vendo defendendo há anos.

    Todos os problemas de São Paulo advém da brutal migração sofrida nos últimos 40 anos que trouxe milhões de pessoas para morar no reduzido espaço da metrópole. Pessoas sem qualquer condição de morar em uma cidade cada vez mais cara e seletiva vieram para São Paulo com o único objetivo de ganhar dinheiro. O resultado, todos conhecem: favelização, destruição do meio ambiente (incluindo áreas de proteção de mananciais) inchamento da mancha urbana, aumento das distâncias e da poluição, violência, colapso dos serviços públicos e agora, ironicamente, a gota d’água do desabastecimento iminente.

    Porém, precisamos recorrer à política para resolver problemas. E o que faz a política? Trata a migração como um vistoso e inesgotável manancial de votos. Enquanto o legislativo faz farra no banquete eleitoral bienal o executivo fica enxugando o gelo. Observe que muitos políticos transferem-se para São Paulo apenas de olho nos milhões de votos dos bolsões de pobreza espalhados pela metrópole. Não têm qualquer compromisso com São Paulo que não seja chegar ao poder. Entrementes, os movimentos pró moradia como MTST e FLM só contribuem para agravar a crítica falta de espaço na metrópole exaurida, sem preocupar-se com o destino da cidade. Embora já tenham consumido mais de R$ 4 bilhões, os rios Tietê e Pinheiros continuam poluídos sem previsão de recuperação. A reconciliação da cidade com seus rios e matas é o passo decisivo para São Paulo voltar a ter qualidade de vida.

    Ou o governo federal intervém com medidas drásticas para inverter o fluxo migratório ou o futuro de São Paulo será mais para Mad Max do que para utopia.

    • Celso, concordo que todos os fatores por você apontados somados à incapacidade e incompetência da maior parte dos nossos políticos e a políticas públicas sôfregas, mal acabadas e ineficazes só podem resultar neste caos onde problemas crescem e recrudescem e as soluções minguam. Por isso é que a única alternativa é trilharmos um caminho diferente, com outros referenciais e parâmetros, sobretudo intelectuais e culturais, para que não morramos com um grito entalado na garganta. Quando nos dermos conta que sabedoria e conhecimento são mais importantes do que democracia e burocracia, que a inteligência, integridade e sensibilidade são virtudes e armas dos seres humanos das quais não podemos abrir mão, estaremos fazendo escolhas mais sensatas e perenes, contribuindo, de fato, para uma história mais bonita que esse filme de terror a que assistimos diariamente,
      Finalizando, precisamos manter a esperança porque é nossa obrigação, mas precisamos respirar porque é nossa salvação.

      • Meu caro Vital Kuriki

        Obrigado por ler meu comentário.

        Outro dia vi uma pichação na parede que dizia: ‘ os políticos são o tumor do Brasil. A solução é não votar’. Deve ter sido feita por alguns jovens.

        A verdade é que sinto-me como um jovem de 18 anos que já sabe que os políticos não agem em defesa da cidade de São Paulo. Muito pelo contrário, eles enxergam-na apenas como um manancial de votos.

        abraço

  4. As imobiliárias cada vez mais e mais manipulando mentes e sonhos com varanda gourmet, segurança, lazer … e estão deixando o velho de lado cada vez mais se acorrentando em pequenas ilhas paradisíacas na mente de quem vive e deixa o mundo exterior de lado.

    estudante de arquitetura e urbanismo paisagismo

    • Caro Felipe,
      Espero que suas referências na faculdade de Arquitetura e Urbanismo sejam as melhores possíveis e não se deixe levar por falsas impressões ou se deixe influenciar por ideologias que nenhum benefício trazem ao crescimento intelectual e cultural de qualquer civilização. Meu comentário é fruto da observação de sua manifestação em relação à nefasta participação do setor imobiliário na produção do espaço construído. Mais do que protestar e vociferar, é imperativo entender como funcionam as lógicas capitalista e socialista e como se comportam as pessoas e os agentes produtores e transformadores cujas participações são inevitáveis. Portanto, mais do que obstruir, precisamos conceber intervenções melhores que reflitam o nosso grau de entendimento e comprometimento com o urbano.
      Um abraço

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