Falta de energia, a Eletropaulo e a cidade

eletropaulo yahoo

Foto: Yahoo.

Em mais um dia de pane elétrica na cidade de São Paulo, quando 800 mil casas ficaram sem luz, a concessionária de energia Eletropaulo culpa as árvores – e os bombeiros – pelo atraso no restabelecimento da normalidade. Nesta quarta-feira, mais de 300 mil casas ainda estavam sem energia. O enredo é conhecido dos paulistanos: temporais de verão, árvores caídas, postes e fios derrubados. Acaba a luz. O trânsito fica caótico. Imediatamente começa a discussão sobre culpados e soluções.

Sem sombra de dúvida, a forma como hoje é distribuída a energia, assim como os cabos das redes de telecomunicações, é totalmente inadequada. Postes compartilhados por centenas de fios pendurados e gambiarras atravessando as ruas não apenas são uma agressão à paisagem, mas também conformam um sistema totalmente inseguro para a eficiência da atividade numa metrópole.

Ou a culpa é mesmo das árvores, que estão no meio do caminho, atrapalhando a distribuição da energia e o trânsito? Se “a culpa é das árvores”, então vamos eliminá-las da paisagem urbana? Ou a “culpa é da prefeitura”, que não as vigia para saber quais podem cair, quais atrapalham os fios, e quais, então, devem ser podadas? Fala sério: alguém acha mesmo que é viável vigiar árvores para perceber quais podem eventualmente cair? Ou acha que as árvores devem ser podadas não de forma que seja saudável para elas e embeleze a cidade, e sim de maneira a permitir passar os cabos elétricos?

O enterramento dos fios, com galerias subterrâneas compartilhadas pelas empresas que as utilizam para distribuir os serviços que vendem aos consumidores, é a única solução. E por que isso não ocorre até hoje, apesar de uma lei municipal já ter determinado, desde 2005, que concessionárias, empresas estatais e operadoras de serviço enterrem todo o cabeamento do município, incluindo rede elétrica, telefonia, televisão a cabo e afins?

*Leia texto sobre esse assunto que publiquei aqui em 2013.

O problema hoje reside na queda de braço, entre a prefeitura e as empresas distribuidoras, para ver quem vai pagar a conta do enterramento. Para o vice-presidente de operações da Eletropaulo, Sidney Simonaggio, o enterramento da fiação “são custos de obras civis, não têm nada a ver com eletricidade. É a repavimentação, a reconstrução da calçada. Não deveriam estar com o setor elétrico”, de acordo com declarações dadas hoje à Folha. De fato, para quem considera a cidade apenas uma fonte de extração de renda, “urbanismo” é problema “dos outros”, embora a distribuição de energia seja a concessão de um serviço público, isto é, “nosso”.

Além de utilizar o espaço da cidade para vender seu produto, sem pagar nada por isso, a Eletropaulo aluga 50 cm de cada um dos seus (ou nossos?) mais de 2 milhões de postes fincados em nossas calçadas, para 18 empresas clientes da área de telecomunicações, cobrando valores que vão de R$ 4,00 a R$ 13,00 mensais, por poste e por empresa. Até a CET paga aluguel à Eletropaulo para pendurar a fiação de semáforos e radares!

Ou seja, além da tarifa “módica” que pagamos à Eletropaulo, ela ainda ganha 10% do valor de todo esse aluguel, já que os demais 90% do que é arrecadado vai para um fundo destinado a subsidiar a tarifa, mantendo-a “baixa”.

A Eletropaulo reclama que, com este “dinheirinho” extra que recebe alugando os postes (milhões de reais por mês), não consegue nem fiscalizar todas as gambiarras e organizar os postes devidamente. As empresas de telefonia e banda larga, por sua vez, reclamam que a Eletropaulo cobra tarifas diferenciadas e não abre novos espaços para elas. A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) tenta regulamentar o aluguel de postes, mas os interesses econômicos são tão grandes que até hoje não conseguiu… No ano passado, o governo federal prometeu soltar um decreto regulamentando a questão, mas, até agora, nada…

O fato é que no processo de privatização da energia, ninguém pensou neste pequeno detalhe: a distribuição da energia se dá no espaço público das cidades, propriedade coletiva dos cidadãos. E agora, tome apagão de energia, fios pendurados nas fachadas e ruas e crises e jogos de empurra a cada grande temporal de verão.

*Coluna originalmente publicada no Yahoo!Blogs.

3 comentários sobre “Falta de energia, a Eletropaulo e a cidade

  1. Bravo, Profª Rolnik!
    Se quisesse poderia ter parado no terceiro parágrafo. As árvores como culpadas de (quase) tudo. Ainda bem que assim não o fez. Oferecendo-nos com explicações claras e diretas sobre o empurra-empurra das responsabilidades no caso. Mais um daqueles onde a cidade é dividida em seções de lucro, e se parte para a queda de braço institucional. Urbanismo só consta nas brochuras de turismo e convites à futuros negócios.
    Pólis é grego para eles…

  2. É um raciocínio simplista no processo de privatização: a “apropriação” pela iniciativa privada dos investimento realizados pela iniciativa pública, aliada ao “esquecimento” da necessidade de reformas e adequações da infraestrutura existente. Enfim, erros crassos que julgamos, por vezes, por incompetência e, por outras, premeditados que acabam arruinando cada vez mais qualquer tentativa de correção e as finanças públicas, transformando a administração pública em fonte de receita para ambos os lados: funcionalismo e fornecedores. E o povo? Ah, ele que se organize e vá procurar os seus direitos!

  3. Caros Leitores deste Blog e Sra. Raquel
    Depois de , praticamente, 20 anos de privatização, a Eletropaulo que já foi considerada a maior empresa da área no Estado de São Paulo e uma das maiores do mundo, não soube acompanhar o crescimento da Cidade de São Paulo e do Estado de São Paulo. Mas , ela não está sozinha para assumir a culpa dos inúmeros apagões em toda Cidade de São Paulo e grande São Paulo (como ocorreu com o Hospital em Osasco , divulgado por toda imprensa)
    Onde estão o Ministério Publico , e Defesa Civil. A quem cabe a coordenação para resolução de catástrofes. De 29 de Dezembro para cá, houveram varias catástrofes, desde das inúmeras descargas de raios, queda de mais de 1.000 árvores, sadias ou não, isto não importa. O que importa que o estrago já foi feito, e agora a única coisa a fazer é consertar tudo o mais rápido possivel. Quanto ao presidente da Cia. não adianta ficar dando declarações que não levam a nada. O caso é digno de apuração por parte da Agencia Reguladora e se ficar provado que a Eletropaulo não está capacitada para cumprir suas tarefas, que se faça um Leilão Internacional e se coloque uma Empresa capacitada, e que realize investimentos a altura do crescimento da Cidade e do Estado. O que não deve acontecer é o famoso jogo de empurra-empurra. Não adianta culpar Bombeiros ou Prefeitura , esta ultima já sabemos que não funciona mesmo, Infelizmente a Prefeitura não pode ser privatizada. Quem sabe? Estou lançando aqui a proposta. Pelo menos acabaria com os cabides de emprego. Assim como já existe o Sindico Profissional, poderia existir o Prefeito Profissional, tenho a certeza que seria melhor para a Cidade, ou pelo menos mais eficiente, e se não for, é só despedi-lo e contratar outro. Os vereadores terão a incumbência de fiscaliza-lo, juntamento com um Conselho Voluntario formado Cidadãos Comuns, Arquitetos, Urbanistas, etc. Uma coisa é certa, tanto a Eletropaulo como a SABESP já prestaram melhores serviços.
    Grato pela oportunidade
    Antonio da Ponte
    Ambientalista

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