Férias: como viajar sem sair de casa

Obras da literatura brasileira proporcionam uma boa viagem (Foto: ThinkStock)

Obras da literatura brasileira proporcionam uma boa viagem (Foto: ThinkStock /Yahoo)

Véspera de natal, um novo ano chegando e… como sempre, o que todo mundo quer mesmo nessa época do ano é férias e descanso: relaxar na praia, visitar parentes no interior, conhecer outras cidades e países… Tudo isso, porém, tem seus inconvenientes: trânsito infernal nas estradas para o litoral e interior, passagens áreas e hospedagens caríssimas, aeroportos sempre lotados…

Mas existem outras maneiras de viajar e descansar sem precisar passar por tanto transtorno, nem gastar dinheiro. Em casa, confortavelmente acomodado em uma boa rede ou no sofá, no parque ou na praça, sob a sombra de uma árvore, podemos percorrer ruas, becos e segredos das cidades… sem stress de aeroporto, nem estradas lotadas.

Muitas obras da literatura brasileira têm como personagem as cidades. Assim, em Dona flor e seus dois maridos, de Jorge Amado, para além da história de amor, emerge a cidade de Salvador de meados do século XX, uma cidade que certamente já não existe, mas que revive nas páginas do livro. Com poetas como Manuel Bandeira podemos visitar um pedacinho do Recife de sua infância e, com João Cabral de Melo Neto, penetrar nos bairros pobres às margens do Rio Capibaribe, em O cão sem plumas:

Entre a paisagem
o rio fluía
como uma espada de líquido espesso.
Como um cão
humilde e espesso.

Entre a paisagem
(fluía)
de homens plantados na lama;
de casas de lama
plantadas em ilhas
coaguladas na lama;
paisagem de anfíbios
de lama e lama.[i]

Outra maneira de visitar a capital pernambucana é pelo livro do jornalista Urariano Mota, “Dicionário Amoroso do Recife”, lançado este ano. Além de percorrer lugares históricos, o livro rememora personagens e episódios emblemáticos da cidade.

Podemos, também, viajar ao Rio de Janeiro do século XIX com os romances e contos de Machado de Assis ou, se quisermos visitar o Rio contemporâneo, O leite derramado, de Chico Buarque, é um bom companheiro de viagem.

Mais ao Sul, podemos percorrer a cidade de Curitiba através dos contos de Dalton Trevisan, reunidos na coletânea Em busca de Curitiba perdida.

Curitiba que não tem pinheiros, esta Curitiba eu viajo. Curitiba, onde o céu azul não é azul, Curitiba que viajo. Não a Curitiba para inglês ver, Curitiba me viaja. Curitiba cedo chegam as carrocinhas com as polacas de lenço colorido na cabeça – galiii-nha-óóó-vos – não é a protofonia do Guarani? Um aluno de avental branco discursa para a estátua de Tiradentes.[ii]

E, ao Norte, conhecer a Manaus de Milton Hatoum, nos contos de A cidade ilhada, ou em A caligrafia de Deus, de Marcio Souza, que passam longe do exotismo de exportação para revelar as entranhas de uma cidade fulminada pela modernização.

Estes são só alguns – poucos – exemplos de roteiros de viagens possíveis, entre tantos poetas e romancistas que, como eu, mera colunista de urbanismo, amam as cidades e não conseguem deixar de escrever sobre elas…

Boas festas, boas férias e… boa leitura!

——–

[i] Trecho do poema O cão sem plumas, de João Cabral de Melo Neto. Em: MELO NETO, João Cabral. Serial e antes. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997.

[ii] Trecho do conto “Em busca de Curitiba perdida”, de Dalton Trevisan. Em: TREVISAN, Dalton. Em busca de Curitiba perdida. Rio de Janeiro: Record, 2012.

 *Coluna originalmente publicada no Yahoo!Blogs.

 

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