Carros e centros

A prefeita de Paris acaba de anunciar que, até 2020, quer reduzir drasticamente a poluição na cidade e, para isso, pretende radicalizar a mudança da matriz de mobilidade. Paris já implantou 652 km de ciclovias, tem um dos maiores sistemas de compartilhamento de bicicleta (vélib) e já oferece um de carros (autolib). A proposta agora é introduzir o compartilhamento de utilitários (utilib), dobrar a extensão das ciclovias e fechar o acesso aos quatro distritos centrais para carros particulares. A circulação no centro de Paris seria feita apenas por transporte público, bicicleta e a pé. As exceções seriam veículos de moradores, serviços de entrega e emergência, além dos táxis, com utilização de tipo específico de combustível.

No centro de São Paulo, desde o final dos anos 1970, temos uma extensa área de circulação exclusiva de pedestres -são os calçadões entre a Sé e a República, que ocupam hoje cerca de 400 mil m². Ao ler a notícia sobre Paris, lembrei que, não faz tanto tempo, a Associação Viva o Centro propunha, além de medidas para melhorar os calçadões, a ampliação dos pontos onde a circulação de carros é permitida.

A associação se queixava de que “mais de dois quilômetros lineares dos calçadões do centro estão situados a mais de cem metros de distância de um ponto acessível por veículos particulares ou mesmo de estações de metrô” e apresentava propostas de intervenção para reduzir esse trecho. A ideia partia da tese de que a “decadência” do centro estaria associada à dificuldade de acesso e estacionamento de veículos, o que teria contribuído com a “fuga” de empresários para outras áreas da cidade. Facilitar o acesso de carros particulares seria uma medida que ajudaria a “revitalizar” a região.

A tese não se sustenta. A migração de parte do setor empresarial começou antes mesmo da construção dos calçadões, motivada pela abertura de novas frentes de expansão imobiliária. Neste movimento, empresas abandonaram o centro na direção da Paulista para depois seguir em direção das margens do rio Pinheiros.

Além disso, a política de transportes transformou o centro em um grande terminal intermodal, com estações de metrô e vários terminais de ônibus. Ou seja, o que alguns definem como “decadência” nada mais é do que a popularização do centro. É certo, entretanto, que se os térreos comerciais continuam vivos, os andares superiores dos edifícios se esvaziaram, sem que qualquer política de reabilitação para novos usos –inclusive moradias– tenha sido implementada.

O debate sobre a abertura dos calçadões foi feito há uns dez anos -e imagino que hoje dificilmente alguém propusesse algo do tipo-, mas mostra a força do paradigma do urbanismo dependente do automóvel que estrutura nossa cidade há mais de meio século.

Apenas muito recentemente começamos a enfrentar com seriedade o tema da mobilidade, que aos poucos vem se traduzindo em ações concretas, mas ainda temos um longo caminho a percorrer.

Nele, repensar o centro, seus usos, a forma como o transporte público se insere na região, atualizando, inclusive, seus calçadões, é fundamental para uma São Paulo com menos carros, mais espaços públicos qualificados e formas mais saudáveis e confortáveis de circular, o que parece ser o desejo de cada vez mais paulistanos…

*Coluna originalmente publicada no Caderno Cotidiano da Folha.

3 comentários sobre “Carros e centros

  1. É fácil baixar leis, decretos e proibições. Difícil é mudar uma mentalidade.

    Não sei como pode-se falar em reduzir o uso do automóvel em um país que estimula seu uso com redução de IPI, incentiva a vinda de mais montadoras e demora demais em implantar linhas de VLT no centro das cidades. Deveria era reduzir o IPI das bicicletas.

    É o governo federal dando marcha à ré nas prefeituras que lutam para retirar os automóveis do caótico centro das cidades.

    A mídia também ajuda bastante. Recentemente a Folha publicou matéria sobre Melgaço-PA, cidade com o menor IDH do país ressaltando que na pequena localidade ‘falta tudo, até carros’ como se a presença dessas edeusadas máquinas fosse um indicador de progresso.

  2. Raquel, sou um fã dos seus textos, mas permita-me lhe pedir para refletir sobre o que está escrito aí. A proibição não é contra carros, mas contra carros Á DIESEL. Aqui, em Paris, temos inúmeras pessoas que não têm sido favoráveis às práticas da atual prefeitura. Sou um delas. Vale ressaltar que o estímulo aos carros elétricos, na França, significa estimular o uso de energia nuclear (matriz energética do país). Nos últimos dias, a prefeitura, por exemplo, anunciou a suspensão de uma medida incrível, próxima ao Pompidou, e que tem tido um bom resultado: a Paris Respire. O que é isso? Uma medida que incentiva as pessoas a utilizarem bicicletas, patins, skates, patinetes e, claro, a andar a pé. A razão? Liberar o espaço para carros. Abç.

  3. Dona Raquel
    A questão é que em Paris existe uma estação de METRO a cada 300 metros, assim, fica fácil impedir o uso de carros com esta imensa oferta de transporte público que eles têm. Enquanto isso em terras tupiniquins as autoridades ficam copiando pela metade as soluções implantadas no primeiro mundo. Nem tudo que existe lá dá certo aqui.

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