São Paulo, o Ibirapuera e a Bienal

Instalação 'História de Aprendizagem' (Foto: JF Diorio/ Estadão Conteúdo)

Instalação ‘História de Aprendizagem’ (Foto: JF Diorio/ Estadão Conteúdo)

Domingo quente e seco, 3 horas da tarde, chego a um Parque do Ibirapuera que ferve. Entre a entrada da Bienal e o Museu de Arte Moderna, uma moçada circula, dança, anda de skate, toca música, conversa. O agito desta área parece adentrar o pavilhão da Bienal. Primeira surpresa: cadê a catraca?

Sem nenhuma barreira física, entramos na “exposição” e somos recebidos por uma imensa arquibancada que serpenteia o andar térreo. Um minissarau realizado por poetas do Campo Limpo, bairro da periferia de São Paulo, nos recebe com versos de Maiakóvski, declamados sob um guarda-chuva. E um imenso mapa de lugares inventados, espécie de tapete estendido na entrada da Bienal, nos convida a subir as rampas do belo prédio modernista de Oscar Niemeyer.

Este mapa imaginário anuncia uma Bienal de menos representação e mais presença nas inquietudes do mundo. Um mundo marcado por crises de toda ordem, inclusive da própria arte e da representação, onde artistas tornam visíveis conflitos, interrogações e desassossegos.

Mas a 31ª Bienal não apenas participa e intervém nas inquietações e indefinições que vivemos hoje através do conteúdo das “obras” que ali estão expostas. Ela vai mais longe: abrindo-se para o parque – e, portanto, também para a cidade –, apresenta projetos colaborativos, que começaram durante o processo de elaboração e que continuam nos diversos espaços de interação com o público, através de debates, performances e diálogos. Dentro e fora do pavilhão.

Trata-se de um feliz encontro entre um espaço público da mais alta qualidade – o Parque do Ibirapuera –, profundamente apropriado pelos paulistanos e em constante mutação, com uma Bienal cuja curadoria teve a sensibilidade de perceber o momento sociopolítico e cultural que vivemos em São Paulo.

Sessão de filme da israelense Israel Bartana 'Inferno'

Sessão do filme “Inferno”, da israelense Yael Bartana.

O projeto modernista do pavilhão da Bienal, que coincide com o projeto progressista da cidade nos anos 1950, anunciava um futuro moderno, de ruptura com a herança colonial e de possibilidades infinitas de desenvolvimento. Tudo isso pode ser visto na exposição “Ibirapuera: modernidades sobrepostas” – organizada pelo Museu da Cidade de São Paulo para celebrar os 60 anos do parque –, que está em cartaz na OCA, vizinha ao prédio da Bienal (as duas exposições têm entrada franca!).

Momentos de incertezas e de ausência de alternativas claras para questões como a violência; a desconexão dos rituais do mundo político com os desejos de mudança existentes na sociedade; a dificuldade de apresentar alternativas para a redução da vida à esfera do consumo; a falência de utopias sociais e políticas que se apresentaram como alternativas no século passado… são questões que estão presente s hoje no velho/novo Ibirapuera, com a 31ª edição da Bienal, que expressa e reverbera estas e tantas outras indagações, em sintonia com a cidade, o país e o mundo.

*Texto publicado originalmente  no Yahoo!Blogs.

5 comentários sobre “São Paulo, o Ibirapuera e a Bienal

  1. Boa tarde!

    Nossa que e-mail legal, professora Raquel Rolnik!! Como eu gostaria de poder ir a uma exposição dessa magnitude. Enquanto estudiosa da temática cidade, isso me interessa sobremaneira.

    Grande abraço!

    Maria Alves da Silva Técnica NRCOM/CREDE 19 Juazeiro do Norte – Ceará

    Date: Thu, 2 Oct 2014 17:42:23 +0000 To: malves1377@hotmail.com

  2. Creio que este texto da Raquel é o melhor “resumo da ópera” já publicado sobre a 31a. edição da Bienal, chamada por alguns de “bienal social”: menos representação, como ela diz, e mais apresentação dos dilemas e paradigmas atuais, sendo agora as obras de arte convencionais trocadas por uma miríade de formas alternativas de pensar o mundo em que vivemos. Poderíamos ainda dizer que esta é uma bienal beuysiana, pois foi dito por Joseph Beuys que “todo ser humano é um artista”. Ademais, foi também esse artista alemão quem cunhou a frase Die Revolution sind wir (A revolução somos nós), formulando um conceito ampliado de arte e um convite à ação do homem-artista, eticamente aderido à transformação das estruturas sociais em atividades criativas e libertadoras.

  3. Pingback: Parque do Flamengo, Parque do Ibirapuera: Rio e São Paulo | Sonia Rabello

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