Ciclovias em São Paulo: diálogo não é perda de tempo…

Há alguns anos vemos crescer em São Paulo movimentos por melhoria do transporte público, por melhores condições para os transportes não motorizados, como as bicicletas e os deslocamentos a pé, enfim, por uma mudança radical no modelo predominante de mobilidade na cidade. Os grandes congestionamentos, os acidentes e mortes no trânsito – somente de ciclistas, no ano passado, foram 35 – mostram que a situação é mesmo alarmante.

Desde a campanha eleitoral, o prefeito Fernando Haddad assumiu o compromisso de implementar ciclovias na cidade. No ano passado, anunciou que até o fim de seu mandato seriam implementados 400 km de ciclovias, integradas ao sistema geral de transporte, superando a visão de que a bicicleta é instrumento apenas de lazer. Nas últimas semanas temos visto, finalmente, essa proposta sair do papel.

O plano desenvolvido pela Prefeitura, divulgado recentemente, prevê a implementação dos 400 km de ciclovias até o final de 2015 e apresenta objetivos, diretrizes, estimativas de custos e cronograma. Embora não em detalhe, é possível conhecer também a rede proposta, ou seja, os locais onde serão construídas as ciclovias. Entre as diretrizes, por exemplo, estão previstas a interligação com outros modais – metrô, trem, corredores de ônibus – e com equipamentos públicos – escolas, postos de saúde, hospitais, áreas de lazer.

Estas são excelentes notícias. E fazem parte de uma escolha da cidade de São Paulo de melhorar a mobilidade urbana e reverter o modelo histórico do transporte baseado no uso do carro particular. Temos que ter clareza de que não estamos falando apenas de uma mudança na forma de nos deslocar, mas de uma transformação estrutural e cultural profunda. E é impossível promover tais mudanças sem conflito.

Afinal de contas, o espaço público da rua é finito, e para implementar uma ciclovia – ou um corredor ou faixa exclusiva de ônibus – é necessário tirar espaço de circulação ou de estacionamento de carros, o que deixa muita gente insatisfeita, como temos visto a imprensa noticiar. É o mesmo filme a que assistimos quando a prefeitura começou a implementar as faixas exclusivas de ônibus no ano passado.

Mas porque finalmente estamos mudando a política de mobilidade da cidade, não significa que as intervenções propostas pela prefeitura não devam ser debatidas com os cidadãos antes de serem implementadas. Algumas reclamações, portanto, fazem sentido. Uma das principais queixas de moradores da Santa Cecília, por exemplo, é que a ciclovia foi implementada da noite pro dia, sem comunicação prévia, nem discussão com os moradores e comerciantes locais.

Nesta – como em outras iniciativas – faltou promover canais de comunicação e diálogo nos bairros, apresentar a proposta, receber sugestões, enfim, promover a participação da população. A prefeitura tem pressa – porque os cidadãos também têm – em querer ver seus projetos implementados, mas é fundamental reconhecer que tais projetos só têm a ganhar quando amadurecem em diálogo com os moradores da cidade…

*Texto originalmente publicado no Yahoo!Blogs.

12 comentários sobre “Ciclovias em São Paulo: diálogo não é perda de tempo…

  1. A Prefeitura esqueceu-se de considerar os grandes pagadores de IPTU e de ISS (setor de serviços), além do comércio, na construção de ciclovias – podendo assim afugentá-los e obter efeitos econômicos e urbanísticos negativos. São Paulo requer, para atravessar distâncias usuais de 50 km em seus limites, transporte público de massas suficiente e de qualidade, esquecido no Plano Diretor. Uma cidade inóspita como São Paulo também requer exímios ciclistas para minimizar riscos, mesmo em curtas distâncias. Falta desenvolver uma Carteira de Habilitação do Ciclista, adaptada aos públicos infantis, adolescentes e adultos que envolva o treinamento na convivência com a sinalização de trânsito, com os pedestres e os veículos motorizados leves e pesados. O novo sistema ciclo viário da Prefeitura, mais adequado a acessos de vizinhança, alega utilizar os modelos de Berlim, Nova York e outras grandes cidades onde há transporte de qualidade, mas, pretender a mobilidade paulistana com o uso de bicicletas, nesta cidade sem outros modais eficientes, só encontra paralelo nas grandes cidades chinesas da época de Mao Tsé-tung.
    Ainda assim, espero que em breve poderei compartilhar com o seu otimismo.

    • Suely, a média de distância nos deslocamentos casa-trabalho em São Paulo é de 6,5 km. Claro que pedalar 50 km para chegar ao trabalho é algo proibitivo para a grande maioria das pessoas (mas sei de gente que pedala 40), mas não é esse o panorama geral. Essa distância, 6,5km, é facilmente vencida por qualquer pessoa com a saúde razoavelmente em dia, mesmo com a topografia acidentada característica da cidade. Certamente que não iremos resolver a complicada equação do transporte em São Paulo apenas com bicicletas, mas ela é parte da solução. O outro modal de transporte que cabe à prefeitura, que é o ônibus, tem sido amplamente contemplado, tanto em ações concretas recentes como no plano diretor. Agora, para além do estímulo à bicicleta como modal de transporte, as ciclovias principalmente protegem a vida de quem já utiliza esse veículo nos seus deslocamentos diários. As viagens sobre bicicletas em SP, sem infraestrutura nenhuma, representam o dobro das viagens de táxi, por exemplo. Já é justificativa mais que suficiente para as ações recentes da prefeitura.

      • Agradeço a resposta. Aproveito a oportunidade para acrescentar que as ciclovias paulistanas são inconstitucionais. Conforme a Constituição do Estado de São Paulo, artigo 180, “no estabelecimento de diretrizes e normas relativas ao desenvolvimento urbano, o Estado e os municípios assegurarão a participação das respectivas entidades comunitárias no estudo, encaminhamento e solução dos problemas, planos, programas e projetos que lhes sejam concernentes”; em São Paulo, a população não é consultada. O fato de ciclovias fazerem parte do Plano Diretor aprovado não significa licença para infringir a Constituição. A ciclovia que circunda o calçadão do centro velho foi construída do lado errado das ruas; de fato, os pedestres que chegam ao centro de ônibus ou taxi passaram a ter de desembarcar do lado oposto dessas vias públicas e atravessar vias movimentadas, além da ciclovia, para acessar o calçadão – demonstrando assim a incapacidade técnica do secretário de Transportes e da CET e a não oitiva da população.

  2. Acho que não devemos pensar na bicicleta como solução mas parte da solução. Como disse a Suely, as enormes distâncias de São Paulo são proibitivas para a bicicleta. Sem falar na topografia inadequada e na disputa com os carros pelo exíguo espaço das ruas. Porém, como foi colocado na matéria, é possível deslocar-se da zona leste até o centro via metrô desde que haja adaptação nos vagões para o transporte de bicicletas.

    O maior desafio será vencer a cultura do automóvel e motos, os grandes responsáveis pela tragédia urbana brasileira.

    • Não é necessário utilizar a bicicleta em todos os trajetos que for fazer. Isso não é viável.
      Porém, você pode integrar a bicicleta aos outros modais, como é o caso do Metrô e trem. Justamente por isso que, como diz no próprio texto, as diretrizes buscaram integrar as ciclovias com aparelhos públicos e terminais.
      Dizer que ‘não pedalo pq não tem estrutura’ está se tornando uma desculpa esfarrapada. Eu mesmo sou advogado, vou ao trabalho de bicicleta e utilizo metrô junto. Intermodalidade.
      E não se trata apenas de desafogar o trânsito, mas de proporcionar um percurso seguro ao ciclista que já pedala e que não vai sumir da cidade. É uma realidade e estamos completamente atrasados, se comparado com outros países.
      Vivemos ciclos, eras. A era do automóvel está com os dias contados.

    • Nao se trata de apenas vencer a cultura do automovel- ha pessoas que, como eu, utilizam o veiculo automotivo apenas para trabalhar, transporto material de construcao com ele. O transporte coletivo, (principalmente o de massa) e insuficiente e ruim, faltam investimentos e politica. Como vc mesmo afirmou, a bicicleta deve ser parte da solucao, caso contrario vamos nos igualar a China de Mao Tse Tung mesmo. Abs

  3. Eu acho que só tem medo de ciclovia quem acha que seus clientes só vão se deslocar de carro e que a falta de vagas vai afugentá-los.Será que aquele que tem carro SÓ PODE SE DESLOCAR DE FOR DE CARRO?Será que aquele que pedala NÃO PODE SER ENCARADO como CLIENTE EM POTENCIAL?Será que o estigma da bicicleta como “coisa de pobre”(logo,alguém que não vai consumir e,por isso,alguém indesejado no meu comércio,na minha rua,no meu bairro)e do carro como “afirmação e status”(logo,o único modo de se deslocar,nem que seja pra dirigir até o outro lado do quarteirão)??
    Acho que pagadores de IPTU e ISS são importantes mas não podem deliberar sozinhos sobre como a cidade deve funcionar,a menos que aquele o novo conceito de cidadania esteja ligado à renda,consumo e/ou pagamento de tributos,onde quem paga mais pode mais,quem paga menos pode menos e quem não paga nada não pode nada.
    É exatamente pra democratizar o espaço público(lembrando que público é aquilo que pertence a todos por igual,e não mais a quem tem mais e menos a quem tem menos)que estão sendo tomadas iniciativas que permitem que todos se apropriem deles(pedestres e cadeirantes em calçadas refeitas e bem-conservadas,bicicletas em estruturas cicloviárias,faixas exclusivas para o transporte coletivo funcionar bem e até faixas de rolamento para carros e algumas vagas de estacionamento),como já acontece nas principais capitais do mundo,aliás.
    Ciclistas teem que ser educados(desde a escola,concordo)para fazerem a coisa certa e respeitarem as leis de trânsito,mas inventar habilitação para eles é um modo de inventar uma possibilidade de punição para eles caso errem e,naturalmente,fazer disso um instrumento de intimidação da presença do ciclista na rua por parte de quem não deseja sua presença lá,tenho certeza que agentes da CET vão estar muito mais propensos a multar ciclistas que errem do que a motoristas que coloquem a vida do ciclista em risco,por exemplo(sendo que um erro do ciclista leva o retrovisor do carro embora,um erro de quem dirige leva uma VIDA embora,ambos erram,mas a capacidade de gerar danos é obviamente de quem é mais forte e mais pesado).
    Obrigar ciclista a ter habilitação,a comprar capacete,a emplacar a bike(ainda bem que isso foi barrado)é desestimular o uso da bicicleta e fazer com que as pessoas desistam,recoloquem as mesmas na garagem e saiam novamente de carro,e a ideia é justamente o contrário,fazer as pessoas deixarem o carro em casa e só saírem com ele quando for REALMENTE NECESSÁRIO.
    O modelo de mobilidade urbana baseado no veículo particular é justamente o que tá levando as grandes cidades brasileiras ao colapso,ninguém deseja que as pessoas joguem querosene nos seus carros e risquem o fósforo,só querem que a mobilidade seja baseada em múltiplos modais sendo o automóvel MAIS UM,sem privilégios(hoje,o motorista tem lugar pra passar,lugar pra parar e os demais que se acomodem onde sobrar,o modal menos eficiente é justamente o privilegiado).

  4. Moro em Toronto, a maior cidade do Canadá, onde me transporto diariamente de bicicleta para qualquer lugar da cidade.
    Os ciclistas daqui, como os de qualquer lugar onde eu tenha me locomovido de bicicleta, têm infinitas reclamações a respeito das ciclovias – e têm razão. Lidamos com ruas esburacadas, motoristas despreparados, trilhos dos bondes que cortam nossos pneus, falta de estacionamento e ciclovias que não conectam nada.
    Mesmo assim você vai ver centenas de milhares de pessoas se locomovendo para o trabalho de bicicleta todos os dias. Quando saio de casa de manhã, me junto a um grupo de mais ou menos 7 pessoas que fazem a mesma rota diariamente. São homens de terno, estudantes, mulheres de vestidinho, gente indo para a academia. Na hora de estacionar, por mais que haja vagas exclusivas para bicicletas em qualquer calçada da cidade, as vezes fica dificil e eu tenho que subir com minha bike para o escritorio causando exatamente nenhum estranhamento. Muita gente aqui tras sua bike pra dentro do escritorio assim como trazem seus cachorros pro trabalho.
    Pedalando na rua, somos obrigados a respeitar sinais de transito e avisar quando vamos virar a direita ou a esquerda ou estacionar. Podemos ser multados por policiais mesmo que nao tenhamos a necessidade de ter carteira de motorista para bicicleta, como alguem sugeriu aih. A multa chega em casa mesmo assim. Ao mesmo tempo, carros que desrespeitam ciclistas sao multados tambem. Quer abrir a porta do carro despois de estacionar? É SUA obrigação olhar pela janela primeiro. Aqui aprendi que com segurança dá para pedalar no inverno canadense, mesmo que faça -15 C lá fora. Quando a prefeitura quer implementar ciclovias ou quaisquer mudanças no transporte e na urbanização da cidade, eles promovem reuniões publicas, que sao anunciadas em panfletos-convite deixados na sua porta. Observam tambem ciclistas que fazem contra-mao regurlarmente em ruas de menos trafego e em vez de punir, usam o dado para construir ciclovias onde elas são necessarias. Há mapas das ciclovias da cidade que sao distruibuidos de graca para a populacao. Eu ando com o meu na mochila e programo minhas rotas baseado nele. O norte da cidade fica bem acima do nivel do centro e, quando quero ir a um lugar que é longe/complicado/exaustivo demais para ir pedalando, coloco minha bike dentro do bonde/metro ou na frente do ônibus e volto pedalando. Quando chove a maioria dos motoristas dá a vez aos ciclistas nos cruzamentos – acho que com pena das nossas caras ensopadas. Em todo o centro você pode alugar a bicicleta compartilhada da prefeitura (bike share toronto) em estacoes no meio da rua. Nas estações de metro e de trens que ligam toronto às cidades vizinhas, há estacionamento para bicicletas. Por isso muita gente vai de casa ate a estacao de bike, deixa a bicicleta e segue para o centro onde aluga a bicicleta da prefeitura.
    Isso tudo acontece mesmo com um prefeito que odeia bicicletas.
    Como isso tudo começou eu não tenho a menor ideia.
    Mas a verdade é que se as mais ou menos 600.000 pessoas que usam a bicicleta como meio de transporte na cidade, usassem carros, cada um no seu, o transito seria pior que o de são paulo.

    Ciclovias são uma grande solução para grandes cidade e eu sinceramente acho que boa parte do rancor contra elas se deve à esse sentimento de “underdog” que nós brasileiros temos. COmo se o povo da Alemanha ou do Canada fosse muito melhor do que o nosso. Te digo: não é. E para aqueles que acham que ciclovias fazem piorar os negocios dos comerciantes, instalem estacionamentos – veram que ciclistas têm muito mais facilidade para parar suas biclicletas a qq momento e explorar as lojas locais.

  5. O Sistema Cicloviário que, agora enfim, começa a nascer (conquanto se cria uma rede de ciclovias) é parte (PARTE!) do Sistema de Mobilidade Urbana. Com este entendimento – e acho que o plano de 400km de ciclovia leva em conta este pressuposto – a Prefeitura reconhece o que prevê o Plano Diretor aprovado em 2014. Portanto, não vejo motivo para crises – inclusive porque a ideia de se “fazer coisas da noite para o dia” neste caso vai na direção da melhoria da cidade, em cumprimento ao que o Plano Diretor aponta. Ademais, parece que as críticas angustiadas dos resistentes às ciclovias representam o velho movimento que um dia se chamou, nos EUA, de “NYMB” – Not in My Backyard (do inglês, “não no meu quintal”). Ou seja, muita gente fala que é preciso repensar as mobilidades urbanas em São Paulo – mas se isso pressupuser “roubar” vagas de estacionamento na frente da “minha” rua com ciclovias ou faixas de ônibus, sou contra. Faz mais prá lá… e prá lá… e prá lá… até que não se faz mais!

  6. Pingback: Leaving the Public in the Dark: Proposals for Bike Lanes in São Paulo, Brazil l The Grid l Global Site Plans

  7. Sou contra as tartarugas nas ciclovias,nos motoristas usamos diariamente as ruas..cade os ciclistas para usar essas ciclovias que nos atrapalha diariamente,,CADÉ..CADE..eles pagam ipva,colocacam combustivel,trocam oleo..sim porque eu faço a economia diariantente andar e pago meus impostos..e esses mal educados alem de não contribuir com a economia não USAM A CICLOVIAS,como deveriam usar diariamente ja que fizeram tanto..

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