Recife pra quem?

Na noite de ontem, a população do Recife foi surpreendida com a notícia, nas redes sociais, da demolição dos armazéns do Cais José Estelita, no centro da cidade. Esta área, de mais de 100 mil m², pertencia à Rede Ferroviária Federal e foi arrematada à União por um grupo de empresas em leilão realizado em 2008. O consórcio formado por Moura Dubeux, Queiroz Galvão e GL Empreendimentos pretende implementar um megaprojeto imobiliário na área, o chamado projeto Novo Recife, que prevê a construção de torres residenciais e comerciais, totalizando 14 prédios com cerca de 40 andares.

Por todos os seus impactos – sociais, ambientais, na paisagem e no patrimônio histórico e cultural –, o projeto tem sido alvo de críticas de grupos e organizações da sociedade civil contrários à sua implementação. Para se ter uma ideia, ainda correm na Justiça cinco ações contra o projeto.

Ontem, ao tomarem conhecimento da demolição, integrantes do grupo Direitos Urbanos ocuparam a área e lá estão acampados até agora. O primeiro a chegar ao local, o Sérgio, relatou no Facebook que sofreu agressões físicas por parte de seguranças das empresas e registrou queixa na delegacia. Isso mais parece coisa de senhor de engenho…

demolicao estelita

Fonte: Grupo Direitos Urbanos

Hoje, moradores da comunidade do Coque, que fica bem próxima ao local e certamente será afetada pelos impactos do empreendimento, se somaram à ocupação. À tarde, a construtora Moura Dubeux divulgou nota na qual afirma que o processo de demolição tem como objetivo “iniciar as ações mitigadoras acordadas com os órgãos públicos” e que “obedece a todos os trâmites legais”. O Iphan, por sua vez, embargou a demolição, cobrando a apresentação de documentos que comprovem o atendimento a exigências feitas pelo órgão.

Os manifestantes divulgaram nota na qual reivindicam a suspensão imediata do alvará de demolição e a abertura de canal de diálogo paritário onde seja possível discutir o projeto. Além de exigir a abertura de uma discussão pública sobre o projeto, o grupo apresenta propostas para a área, como a “garantia da destinação de ao menos 30% do projeto para habitações populares; e a requalificação e revitalização do Cais Estelita orientada pelo uso misto do espaço, que atenda às diversas camadas sociais com seus equipamentos artísticos e culturais, em seus estabelecimentos comerciais e conjuntos de habitações.”

Para além das questões legais envolvidas neste e em outros tantos casos semelhantes Brasil afora, o que está acontecendo no Recife mostra mais uma vez como os moradores de nossas cidades estão cansados de transformações urbanísticas que ignoram solenemente a perspectiva dos cidadãos, suas relações históricas e afetivas com o lugar, suas propostas de transformação da cidade. Não há transparência, não há canais de diálogo, não há chance alguma de se discutir megaprojetos que afetam a paisagem e a vida de tanta gente.

A notícia da demolição na noite de ontem surpreendeu muitas pessoas. Mas, pensando bem, não estranha uma demolição na calada da noite quando absolutamente tudo acontece, também, às escuras. O que os ocupantes do Estelita – e muitos outros no Brasil – estão reivindicando é, simplesmente, que nossas cidades sejam planejadas e construídas às claras, com a participação ativa de todos.

14 comentários sobre “Recife pra quem?

  1. Na manifestação dos ocupantes (#OCUPEESTELITA) comparece a reivindicação quanto a “garantia de 30% da área para habitação popular”, ou seja, um item similar à “Cota de Solidariedade” que está sendo reivindicada na revisão do Plano Diretor de São Paulo. A essa condição, mais que justa e urgente, poderia-se acrescentar que a construção desse percentual de moradias populares viesse a ser construída antes mesmo das demais torres projetadas (em qualquer tipo de grande empreendimento).
    Lembro que dentre professores da FAU USP há os que dizem categoricamente que “pobre com rico não dá certo”. Daí essa questão a ser colocada, no sentido de efetivamente garantir a “Cota”. Pois em terras de senhores de engenho o verdadeiro “engenho” está em ficar na promessa.
    Força aos nossos parceiros do Recife na ocupação que resistirá à destruição de muito mais que uma bela paisagem urbana!
    Entrementes, há que ser lembrado aqui que a muralha de torres previstas deve tornar o centro do Recife numa fornalha insuportável. Houve Estudo de Impacto Ambiental nisso tudo? Quanto ao esgoto, joga-se mangue adentro?
    Ademais, a “pegada” da PARTICIPAÇÃO da sociedade civil nas políticas públicas e nos projetos urbanos TEM que vingar. E não vamos esquecer que em São Paulo foi a FALTA de PARTICIPAÇÃO o motivo pelo qual pudemos interditar o projeto Nova Luz de Serra e Kassab e o embargo da PPP da Casa Paulista prevista para as ZEIS centrais.

    • Arnaldo de Melo, uma das reinvidicação do Grupo Direitos Urbanos é a realização do Estudo de Impacto, como qualquer outro projeto de grande porte.

    • O QUE ACONTECE EM RECIFE,E IGUAL EM TODAS AS CAPITAES BRASILEIRA,TODOS QUEREM MORAR NO CENTRO AO SUL DE RECIFE,EXISTEM,VARIOS PARAISOS,COMO CABO DE SANTO AGOSTINHO,VEGETAÇÃO CENTENARIA DOS CAJUEIROS,PRAIAS,ESPETACULARES,PALMEIRAS VERDEDEIRO PARAISO,PORQUE AS PESSOAS GOSTAM DE VIVER MONTUADAS,PRESAS EM SEUS APARTAMENTOS,O MELHOR TER A LIBERDADE,DE VER O SOL NASCER E NO FINAL DO DIA O POR DO SOL,NÃO EXISTEM COISA MELHOR NESSE MUNDO.

    • Arnaldo, pelo menos em Recife houve venda da área governamental, ainda que por valor discutível, ou seja, pode ser que o valor mínimo devesse ser maior e que pode ter havido corrupção (ou roubo dos cofres públicos – de todos nós). Ou seja,em Recife não se trata de grave tentativa de roubo direto de propriedades da população, com função social totalmente preenchida por usos residencial e comercial, como no infame projeto Nova Luz que foi perpetrado por Serra-Kassab em conjunto com a especulação imobiliária. Quanto à Casa Paulista, considerando que o 1º Decreto de Desapropriação foi anulado, e que a prefeitura está trabalhando na “identificação de imóveis vazios” para um novo Decreto a ser lançado ainda neste ano, fica mais difícil de entender e opinar no momento.

  2. Um absurdo, professora. Gostei de sua ontem participação na Roda do Plano Diretor, na Câmara Municipal. Não concordei com tudo o que foi dito, mas sua opinião é sempre oportuna e respeitável.

  3. É muito triste ainda ver casos como esse, a especulação imobiliária passando por cima dos instrumentos urbanísticos – não conheço o PDDU da cidade, mas acredito que há exigência de um EIV nesse caso (no mínimo). O uso desses instrumentos deviam ser para promover situações contrárias a essa que aconteceu. É como se eles não existissem. Lamentável!

  4. O projeto tem que beneficiar alguém, e pelo jeito só vai beneficiar as empresar privadas que já tão com o rabo cheio de dinheiro. Poderiam fazer muito bem um conjunto habitacional para a massa do recife, 20% da população de recife vive em barracos que nem da pra viver ou vivem na rua nas custas da miséria do povo.

  5. Parabens p as autoridades pernambucanas. A cidade nao pode parar no tempo, muito menos ficar abandonada e cheia de favelas. O cais era uma aerea perigosa que nenhum pernambucano que oaga seus devidos impostos ousaria a caminhar por la. Quem tiver com peninha da comunidade coque que va morar la ou passear por lá e deixe a cidade p quem realmente contribui!!!

  6. Meus caros, quando do leilão dessa área ninguém se pronunciou. Quando as construturas envolvidas nesse projeto pagaram R$ 55 milhões, por ela nesse mesmo leilão ninguém se pronunciou – embora tenha achado e publiquei que era um valor baixo em relação a área que ocupa. Contudo, a venda do imóvel se deu e esses que hoje protestam nada fizeram para que tal venda fosse embargada. Realmente, é uma área de mais de 100mil m², que não servia a ninguém a não ser deixa a cidade mais feia sem atrativo, servindo de abrigo para viciados e traficantes, sem que nada de bom trouxesse a ninguém. Em fim, quando os compradores, seus agora legítimos donos, decidem dar um norte aquela área vem indivíduos com pretensas boas intenções protestarem quanto a historicidade do local. Por que não o fizeram quando tal área era publica. Por que esses mesmos que buscaram respaldar seu embargo junto ao IPHAN não apresentaram projetos viáveis para área (projetos viáveis – dentro da realidade). Leio jornais e revistas e não lembro de ter visto movimentos nesse sentido. Vocês acham que as construtoras compraram esse imóvel com fito filantrópico? ou que a deixariam anos a fio do mesmo jeito sendo deteriorado, até que suas paredes começassem a desabar e levar riscos a populção. Isso é no minimo ingenuidade, burrice ou hipocrisia. Prefiro acreditar na primeira alternativa. Eles são os donos e podem, nos limites da lei, dele fazer o que quiserem. Vocês acham que eles compraram aquela área com intuito de fazer casas populares e doar a população, que três meses depois de receberem tais imóveis os vendem e retornam as beiras dos canais, áreas de morro e de risco e continuam pedido por providência das autoridades quanto a sua condição. Pois, infelizmente sabemos que isso é a mais pura verdade. A prefeitura do Recife, quando da gestão de João Paulo, construiu conjuntos habitacionais, retirou aqueles que moravam em palafitas na Brasilia teimosa e meses depois parte dos imóveis havia sido alugado ou vendido. Ele ocuparam outras áreas e voltaram a cobrar providências do governo. E infelizmente faram de novo e de novo. Sejamos honestos e não tentemos tapar o sol com a peneira. impactos sempre teremos, o recife sofreu impacto quando da construção daqueles armazéns, sofreu impactos quando da construção do RIO MAR, TACARUNA, CAMELODROMO, e sofre impactos quando da reformulação dos armazéns do porto do Recife ( que embora sua construção esteja muito atrasada, em função da falta de controle e fiscalização das autoridades contratantes – dará uma nova cara ao Recife Antigo) entre tantas obras e não vi ninguém fazendo protesto ou tentando embargar nada. Hipócritas. Essa é minha opinião respeito as vossas se tiverem fundamentos plausíveis e não mascarados e usando como fundo a comunidade que será prejudicada elas também causaram impacto quando resolveram ali se instalar e ninguém foi embargá-los. Não trabalho para construtoras. Contudo, mostrar outros lados também são interessantes. não devemos criticar apenas por criticar, Mostra apenas a alienação de muitos quando as demandas postas.

    Um abraço

    • Primeiramente, não é porque você é dono de terreno que faz o que quer. Depois, não é porque não se agiu antes que não se pode agir depois. Você está errado, colega.

      • Se o caro Abdu’l, leu todo texto, terá lido que “Eles são os donos e podem, nos limites da lei, dele fazer o que quiserem. E é exatamente assim, podem sim fazer o que quiserem nos limites da Lei. O erro aqui é não perceber que esse imbróglio, tem como fundo a promoção para as eleições vindouras, logo vários atores políticos buscam seu logar ao sol perante a mídia com intuito de serem lembrados pela população!

  7. Curioso! Eu me peguei respondendo a essa questão e quando já estava na trigésima e poucas linhas eu refleti sobre o propósito e me convenci que era absolutamente desnecessário debater sobre tão completa desarmonização do conhecimento sobre o fato vindo de uma pessoa de São Paulo reprodutora do “CONHECIMENTO FACEBOOKIANO” que no discurso beira mais a repetição do fundamentalismo xiita que achei para o bem de meus sonos revelar a minha mais perfeita indiferença.

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