Carnavalizar as ruas de São Paulo

Bloco de carnaval na Vila Madalena, SP, durante o último domingo (23)

Bloco de carnaval na Vila Madalena, SP, durante o último domingo (23)

Quem vê essa foto certamente pensa que se trata do carnaval do Rio de Janeiro, do Recife ou de Salvador… Puro engano. Essa imagem é do carnaval de rua de São Paulo, que vem crescendo a cada ano. Para se ter uma ideia, um cadastro de blocos aberto pela prefeitura recebeu a adesão de 195 agremiações. Neste site é possível ver a programação e a lista dos blocos do carnaval de rua paulistano.

Um dos blocos mais antigos de São Paulo, Os Esfarrapados, fundado em 1947, percorre as ruas do bairro do Bixiga, um dos redutos do samba paulistano e da cultura negra da cidade. No Cambuci, o Bloco da Ressaca arrasta foliões desde 1984. De acordo com os organizadores, o bloco surgiu da vontade de proporcionar uma festa pública e gratuita pra comunidade, já que os ingressos para o desfile das escolas era caro, e também de resgatar a tradição carnavalesca da região. Foi no Cambuci que surgiu a primeira escola de samba de São Paulo, a Lavapés. Também as guerras de confetes eram tradicionais no bairro.

Pensando sobre a relação dos blocos com a cidade, me parece que o visível crescimento do carnaval de rua de São Paulo faz parte de um movimento mais amplo de ocupação e reivindicação dos espaços da cidade. Não é por acaso que um bloco como o Acadêmicos do Baixo Augusta surgiu cinco anos atrás… Aquela região da cidade concentra hoje movimentos e ações culturais que buscam se apropriar dos espaços, num movimento em direção de sua publicização com qualidade. Estou falando da Rua Augusta, mas também da Praça do Ciclista, da Praça Roosevelt, do Minhocão, do chamado Baixo Centro e mesmo de toda a região central.

A última novidade que fiquei sabendo foi a utilização do túnel que passa embaixo da Praça Roosevelt para apresentações musicais e discotecagem. Fechado no período noturno e bem iluminado, o espaço – agora denominado “Buraco da Minhoca” – foi descoberto por coletivos e artistas que ali realizaram uma primeira festa no mês de janeiro.

O mesmo tem ocorrido em bairros da região Oeste como a Vila Madalena e a Vila Pompeia, onde há alguns anos praças públicas vêm sendo utilizadas como espaço para festas infantis, piqueniques e até mesmo hortas comunitárias. No bairro da Lapa, no fim de semana das comemorações do aniversário de São Paulo, o cantor Marcelo Jeneci reuniu sua banda e fez um show surpresa numa praça. Não à toa essa região da cidade tem visto nos últimos anos surgirem inúmeros blocos de rua.

É importante lembrar que o carnaval de rua já foi forte na cidade, antes da institucionalização e confinamento das escolas de samba no sambódromo. Antes mesmo de surgirem as escolas de samba, já existiam os chamados cordões carnavalescos em diversos bairros, como Barra Funda, Liberdade, Bixiga, Limão e Tucuruvi, territórios negros da cidade. Enquanto as classes média e alta desfilavam com suas fantasias em carros (os chamados corsos carnavalescos), muitos cordões saíam inclusive pelo centro, arrastando o povão pelas ruas.

O renascimento do carnaval de rua que estamos vendo hoje parece expressar um novo desejo das pessoas em sua relação com a cidade. Elas parecem com isso afirmar que a São Paulo do trabalho, que não para, pode ser também uma cidade lúdica, que as ruas não são apenas lugar de passagem entre casa, trabalho e comércio, mas também espaço de lazer, de fruição, de permanência. Se novas culturas se constroem a partir de novas práticas, talvez São Paulo aos poucos esteja se transformando numa cidade que, às vezes, para… pra fazer festa no túnel, pro piquenique na praça, pra brincar no Minhocão, pra ver a banda passar…

*Texto originalmente publicado no Yahoo!Blogs.

5 comentários sobre “Carnavalizar as ruas de São Paulo

  1. Abaixo, esclarecimento feito pelos organizadores da festa no Buraco da Minhoca dia 1/03, atitude reflexiva e diálogo para uma cidade melhor para todos:

    “Esclarecimentos sobre o evento de ontem no Buraco da Minhoca:

    Informamos que ontem foi proibida por parte da polícia militar a realização de um evento parado dentro do Buraco da Minhoca, utilizando equipamentos de som maiores e a possível aglomeração massiva no espaço.

    A PM alegou que além da autorização da prefeitura, que nós tínhamos, era necessário também uma autorização da Secretaria de Segurança Pública com antecedência, o que não tínhamos, por entendermos que a autorização da prefeitura e o próprio conhecimento da realização pacífica de ao menos 5 eventos ali, seriam o suficientes. Para a PM a prefeitura não responde pela segurança do local sozinha, mas em conjunto com o Governo do Estado.

    De toda forma, nos foi autorizada a passagem do bloco de carnaval e a permanência na área externa, não coberta do túnel, desde que não fosse montada aparelhagem de som do porte que estava programada pela organização do Carlos Caps Lock e Seus Amigos.

    O próprio batalhão ali presente, percebeu o caráter pacífico do evento carnavalesco, conforme longas conversas com o capitão responsável, que mostrou-se solícito ao conversar e esclarecer durante horas, os pontos de vista (questionáveis, ok?) mas que fazem parte do entendimento da PM/Governo do Estado em relação à segurança do local e a autorização prévia da Secretaria de Segurança pública.

    Não houve nenhum tipo de confronto, pelo contrário, longas conversas foram realizadas ao longo da noite, resultando na permissão da passagem do bloco de carnaval e percussivo pelo Elevado Costa e Silva local de início e a permanência dos foliões no local, de forma restritiva ao espaço da entrada do túnel, mas com instrumentos percussivos ou música em volume baixo.

    A posição oficial da PM que nos foi passada ali portanto, é que, com aviso prévio à Secretaria de Segurança Pública + autorização da prefeitura e a estrutura mínima provida por esta última, como banheiros químicos, varrição e suporte à coleta de lixo e controle do número de pessoas dentro do espaço que é um túnel e limitado, não há impedimentos maiores para a realização de eventos ali, se assim o poder público entender.

    Lembramos a todos, que o Buraco da Minhoca é uma ocupação colaborativa “eventual” de um espaço público ocioso no período noturno, mas não a apropriação do local. Portanto, a realização de eventos ali é livre. A festa cancelada do Carlos Caps Lock e Seus Amigos seria um evento organizado por este coletivo/grupo e divulgada e apoiada pela página do Buraco da Minhoca, com nosso apoio colaborativo no local.

    Lamentamos o ocorrido, mas gostaríamos de reiterar que a ocupação do espaço público ocioso e no caso eventual (uma vez que o túnel só é ócioso a noite) é uma construção coletiva da cidade para a cidade. Sinalizamos e entramos no local, levantamos a reflexão sobre a virtude do uso do espaço e agora temos que encontrar respostas e soluções para o bom uso e consciente.

    É um diálogo no mínimo enriquecedor para todos!

    Fomentar a discussão sobre o porquê a permanência do espaço público é culturalmente vista de forma hostil e marginal mesmo que seja para “dançar” e expressar-se através das artes em geral. Por quê há uma excessiva valorização de espaços privados e segregados por perfil, retirando as pessoas das ruas e a convivência entre a diversidade humana? E pensar formas de viabilizar esta permanência no espaço público da cidade, numa construção coletiva.

    Enfim, todo este processo de reflexão é muito enriquecedor para todos que queiram pensar uma cidade melhor e mais humana e isso inclui naturalmente diálogos com o poder público, (Prefeitura, Governo do Estado/Polícia etc).

    Tenho certeza que daqui pra frente vamos conseguir levar todas estas questões para o Governo do Estado/Polícia Militar, Prefeitura/GCM + comunidade e chegarmos ao bom senso sobre os objetivos do Buraco da Minhoca.

    Abraços a todos,

    Chico Tchello”

  2. Olha, pra mim o carnaval de rua de SP só perde pro de Recife (tarde). No Rio é incrível, mas a superlotação dos blocos torna quase impossível a dança e a deambulação suave. Isso também ocorre em Olinda. Em Salvador o cordão tira o sentido da festa. No interior de Minas.. não conheço bem, mas alguns amigos relatam que a superlotação estraga um pouco.. Enfim, carnaval é festa e liberdade. Nada melhor que ele pra ocupar as cidades de alegria. Mas pela liberdade passa também a questão da superlotação e comercialização.. que tiram o fluxo da festa.

  3. As superlotações dos blocos de rua, tem muito a ver com as empresas de cervejas e os meios de comunicação. No Rio de Janeiro, a partir do ano de 2009 na atual Prefeitura tomou a proporção gigantesca com o intuito de maquiar muitos interesses por trás disso. Enquanto, os tradicionais blocos de ruas ou como eram chamados de “Pé Sujo”, desapareceram para dar lugar aos artistas com as suas micaretas e a tal empresa americana de amplificadores de som de alto volume . Se a população de São Paulo puder lutar para inibir esse tipo de transtornos que virão, melhor que seja agora, pois será, impossível frear depois.

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