São Paulo não é túmulo do samba, não, senhor

No final do ano passado, o Conpresp, órgão municipal de proteção ao patrimônio histórico, cultural e ambiental, declarou o samba patrimônio imaterial de São Paulo, reconhecendo a longa tradição que a manifestação tem em nossa cidade.

A verdade é que, ao contrário do que diz a célebre afirmação do poeta Vinicius de Moraes, São Paulo nunca foi túmulo do samba.

Inventariado por Mário de Andrade nos anos 20 do século passado, o samba rural de Pirapora do Bom Jesus, a 54 km da capital, é considerado uma das matrizes do samba no Estado.

Na capital paulista, a manifestação do samba está intimamente relacionada com a presença das comunidades negras na cidade. Um dos bairros mais importantes na história do nosso samba é o Bixiga, onde no final do século XIX havia um quilombo, o Saracura. É lá que surge, no século passado, a escola de samba Vai-Vai, uma das mais tradicionais do nosso carnaval.

Antes das escolas de samba, porém, já existiam aqui os chamados grupos ou cordões carnavalescos, surgidos em bairros da cidade onde se concentrava a população negra, com seus terreiros de samba, candomblé e jongo, e seus bailes de raça, posteriormente conhecidos como gafieira.

Os primeiros cordões surgiram no bairro da Barra Funda, lugar de trabalho de muitos negros que atuavam como carregadores ao longo da linha do trem. Foi ali que Seu Dionísio Barbosa, o chamado Nhonhô da Chácara, fundou o cordão carnavalesco que, mais tarde, deu origem, junto com outros cordões, à escola de samba Camisa Verde e Branca.

Durante os dias de carnaval, os cordões saíam pelo centro da cidade “extraoficialmente”, arrastando o povão pelas ruas, enquanto os chamados corsos carnavalescos – desfiles de automóveis enfeitados – tomavam conta da Avenida Paulista, levando as famílias aristocratas elegantemente fantasiadas.

O samba paulistano tem, portanto, uma longa história e tradição. Quem foi ao Theatro Municipal lotado na noite da cerimônia de tombamento do samba como patrimônio imaterial pôde ouvir muitos dos sambistas homenageados contarem sobre a repressão a que foram submetidos por serem considerados marginais e vagabundos.

Historicamente renegada numa São Paulo que tentou se identificar como branca e europeia, a cultura negra paulistana sempre esteve presente com força na vida da cidade, e o samba é parte disso.

Dos bailes de raça às gafieiras, dos sambas “extraoficiais” dos cordões carnavalescos às escolas de samba, passando pelas rodas dos bairros populares, a história do samba paulistano se confunde com a presença negra na cidade.

Viva o samba paulistano, patrimônio da cidade de São Paulo!

*Texto originalmente publicado no Yahoo!Blogs.

16 comentários sobre “São Paulo não é túmulo do samba, não, senhor

  1. SÃO PAULO TEM NAS SUAS ORIGENS OS PRIMEIROS FUNDADORES QUE FORAM OS INDIOS,PODEMOS NOS DA CIADADE CONHECE LOS EMBAIXO DO PICO DE JARAGUA,SUA ATIVIDADES SÃO DESDE O DESCOBRIMENTO,SUA ALIMENTAÇÃO EM FUNÇÃO DO MILHO,Á MANDIOCA PLANTADA AO LADO DA SUAS PALHOÇAS,DEPOIS VEIO Á ESCRAVIDÃO IMIGRANDO DA AFRICA PARA O BRASIL,COM SUAS TRADIÇÕES,SUA RELIGIÃO,MISTICISMO,CULTURA,FORAM AGREGADAS Á NOSSA,DEPOIS CHEGARAM OS ITALIANOS,ESPANHOIS,PORTUGUESES,ALEMÃES,OS ARABES,ISRAELITAS QUE ACRESCENTARAM TAMBEM SUAS CULTURAS,RELIGIÕES,SUA COMIDAS,SEUS DOCES SUAS BEBIDAS,CADA CENTRIMETRO DESSA CIDADE EXISTE UM IMIGRANTE DIFERENTE,COMO PODERIA DIZER QUE É UM TUMULO,SEM SAMBRA,SEM CORRERIA,NO SEU DIA Á DIA PARA ESCOLA,PARA O SERVIÇO,LEVAR AS CRIANÇAS NA ESCOLA,NO SHOPPING,NAS PRAÇAS JÁ UM SAMBA,ABRAÇOS A TODOS BRASILEIROS E TODOS OS CANTOS DESSA NAÇÃO,QUE CONSTRUIRAM SÃO PAULO,Á QUARTA MAIOR CIDADE DO MUNDO EM ADVERSIDADES,E RESTAURANTES,ISSO E SÃO PAULO,MEU NOME É ROBERTO GALDI

  2. Só tenho a dizer que sou do interior de São Paulo ,presidente prudente vim para SP muito pequena ,daqui nunca sai ,amo viver aqui ,tenho historias ,tenho raízes .
    São Paulo e o minha casa .

  3. Não é só em São Paulo, mas em todo o Brasil, o carnaval de escola de samba copia o modelo carioca. Se este fosse copiado em seus pontos positivos, até que não seria mal. Se São Paulo não é o túmulo do Samba, é o túmulo da festa. O Anhembi, “marginal” como diz a Dona Cida, tirou o carnaval de escola de samba da cidade, da avenida tiradentes, “marginalizou a negada do outro lado do rio (e essa é uma coisa que devia ser copiada do Rio: o carnaval na cidade, no centro da cidade).
    O carnaval dos bairros, das escolas menores tem que lutar todo ano por seu espaço, posto que a prefeitura já fez o crime de colocar as escolas do Grupo II da UESP para desfilar no Autódromo de Interlagos. (quem já teve o desprazer de desfilar naquele lugar vai entender o que estou dizendo). Mas, aos trancos e barrancos, o carnaval da Vila Esperança (que não poderia ter nome mais apropriado) segue como o mais animado e bonito de ver da cidade…
    A sociedade paulistana combate qualquer Festa. O argumento é sempre o mesmo: festa não pode atrapalhar o transito, blablá os carros, blábláblá “eu pago imposto”. A Pholia na Faria foi parar no Memorial da América Latina, sufocada pelas grades, morreu sem deixar testamento. E agora, até o “rolezinho” no shopping estão querendo mandar pro cemitério, digo, pro Sambódromo do Anhembi

  4. Raquel, amiga querida. Saudades.

    Muito bom seu texto e, sem dúvida nenhuma, escrito ao som do samba de um dos lugares de sua pareceria nascitura: São Paulo. O Rio e a Bahia se associam a esse reconhecimento, Patrimônio imaterial é, certamente, a identidade da cada esquina e até das estações do trem de todas as horas.
    Parabéns, Raquel e São Paulo.

  5. A valorização do samba como a mais legítima manifestação da nossa cultura é de extrema importância. Esperemos que assim, como patrimônio imaterial, ocupe não só a cozinha mas todas as casas da sociedade paulista.
    Quanto a afirmação do querido Vinicius ele corrigiu “São Paulo é o cúmulo do Samba”

    • No livro ‘A era de ouro da MPB’ do jornalista Ricardo Cravo, não há uma única citação de um sambista paulista. Todos os homenageados são cariocas: Chiquinha Gonzaga, Ernesto Nazaré, Donga, Pixinguinha, Ataulfo Alves, Cartola, Noel Rosa, Ismael Silva, Jacob do bandolim, Nelson Cavaquinho, Ivone Lara, Paulinho da Viola, Martinho da Vila, João Nogueira, Zeca Pagodinho, Dudu Nobre, Jorge Aragão, Arlindo Cruz…a lista é imensa. O motivo óbvio é que o volume de produção de samba no Rio é muito maior que em São Paulo. Além do mais há o eterno bairrismo e o natural ufanismo carioca que coloca o Rio no centro de irradiação cultural do país. Soma-se ainda a aura de capital federal durante os anos dourados da MPB – quando surgiu a Bossa Nova – e a Globo ter sua sede no Rio para o nosso samba não crescer ultrapassando as fronteiras do estado.

      A única exceção é Adoniran Barbosa.

      Por isso penso que para o samba paulista alçar vôo precisa libertar-se do Rio a partir do espetáculo maior do gênero, o carnaval. Enquanto continuar fazendo igual, São Paulo ficará condenada a permanecer na sombra do Rio, sem direito a luz própria.

      • Olá Celso. Aqui fala uma carioca apaixonada por samba, o carioca por sinal. Sem bairrismo ou arrogância. Gosto de muitas outras coisas em SP, mas do samba não. Adoniran e os Demônios, imprimiram o jeito e a marca de SP, acho lindo. O fato que muitos discutem que o samba nasceu na Bahia. Não concordo. O que se fazia na Bahia era totalmente diferente do que foi feito no RJ. Não vou aqui entrar no mérito das varias influencias que sofreu o samba naquela época e hoje , não tenho competências acadêmicas para isso. O certo é que também se fazia samba em SP, MG, BA e RJ, e cada um sofreu uma influencia. Mas o samba que se vê hoje e que ficou conhecido mundialmente, tem pai e mãe carioca. Esse samba urbano, não o de roda ou outro qualquer, é totalmente carioca. Você cita o livro : ” a era de ouro da MPB” e cita a exclusão de SP, a questão não é exclusão e sim riqueza e criatividade, que infelizmente em SP era raridade. Compararemos sambista como Cartola, Noel (cada qual no seu estilo, óbvio) são de uma beleza, criatividade e riqueza impar, e isso nada tenha a ver com propaganda de emissora carioca. Eles vieram bem antes. Sem contar que a TV brasileira nasceu em SP, e vocês tem uma mídia extremamente forte por aí, então o argumento não se mantém. Cartola, Noel, Paulinho, Pinxiguinha, (esse no chorinho) e muitos outros, não são filhos da mídia, por favor não menospreze os talentos. Paulistas não entraram em maior numero, não porque não existiam, mas porque, infelizmente, não existiram em qualidades como os citados acima. E isso é inquestionável. Não quero parecer arrogante , a questão é que se você ouvir as musicas de cartola, ou Noel, você fica em êxtase. Fechar os olhos então…. É poesia pura. Vamos tirar o chapéu pra quem realmente merece, tiro o chapéu pra varias coisas em SP, mas para o samba não. Sem bairrismo. Abraços.

  6. Excelente post. Importante lembrar o nome de um dos fundadores do Clube Paulistano da Glória o Maestro Bem, que comandou famosos bailes de gafieira para associações e entidades negras. Esquecido na história, mas não na memória dos que reconhecem a origem dos bailes de raça.O maestro Bem (nascido na cidade de Rio Claro) encantou com seus músicos vários bailes de carnaval na cidade de São Paulo e interior. Minha homenagem ao maestro Bem, a seu irmão Mário (também musico) e àqueles que estão invisibilizados na maior festa popular do país, mas haveremos de reconstruir, nosso gingado tem raiz na luta por liberdade e justiça: não conseguem imitar.

  7. Doralice Barbosa encanou-nos com as lembranças da Batalha de Confetes do bairro Liberdade, do belo carnaval de rua do bairro Tucuruvi. E como você bem alerta parece que há uma implicância (em qualquer lugar) com o barulho, se for do surdo ou do ganzá pior a gritaria, é a intolerância. Valeu José Jambo Filho (Chiclete), Pé Rachado, Lucrécio, Seu Nenê, Madrinha Eunice, Inocêncio Tobias e outras celebridades do samba e da cultura negra. Saudades.

  8. A referência ao poetinha Vinicius de Moraes, na verdade essa declaração dele foi totalmente descontextualizada, como muitas declarações hoje o são. Tem o vídeo do Toquinho explicando isso: http://www.youtube.com/watch?v=gRRhrErMgF4

    Vininha, ao que me parece, jamais quis menosprezar SP, terra de muitos sambistas fantásticos!

    Parabéns pelo texto e pelo blog!
    Abs.

    • ‘magina, Antonio! Quem não sabe disso?

      O carnaval carioca é a maior festa do planeta e ninguém jamais vai equiparar-se ao Rio copiando-o.

      As escolas de São Paulo precisam recriar o carnaval. Mas diferente do Rio, se desejam obter algum respeito e reconhecimento dos brasileiros, a começar pelos paulistanos. Se insistirem em copiar, a comparação fica inevitável e o Rio ganha de lavada uma vez que tudo foi criado lá, no início do século passado. O grandioso desfile da Sapucaí é o original. O do Anhembi, uma esforçada cópia que jamais passará dessa condição. Por mais que se esforcem, tudo que conseguem é valorizar ainda mais o primeiro, atraindo todas as atenções para a quarta-feira de cinzas quando dá-se a apuração e resultado do carnaval oficial do Brasil transmitido ao vivo pela televisão.

      A primeira coisa a fazer é ter humildade e admitir que o desfile do Anhembi é um erro. Um enorme desperdício de dinheiro público que só depõe contra a cidade dando margem a piadas Brasil afora, abaixando a auto-estima do povo. Não é por outro motivo que muitos paulistanos simplesmente detestam o desfile do Anhembi. Basta dar uma olhada nos comentários nas redes sociais para constatar.

      A prefeitura porém, gasta R$ 34 milhões por ano nessa, digamos assim ‘festa’ e está torrando mais 126 milhões na construção da tal Cidade do Samba, outra ideia copiada dos cariocas.

      Quantas habitações populares daria para construir com essa grana preta?

      abraço e continue postando.

    • Meu caro Renatão, grato pelo comentário.

      Estendendo a conversa, diria que estamos discutindo identidade de uma cidade.

      Todos os povos tem a sua e a defendem. Mas em São Paulo, não consigo entender porque os paulistanos têm uma natural adoção por costumes de outros estados, em detrimento de sua própria identidade.

      Veja por exemplo na culinária.

      São Paulo gaba-se de abrigar a ‘maior gastronomia do mundo’ Isso é verdade e bom mas é perigoso para a sobrevivência da culinária paulista, escondida debaixo de tantas influências gastronômicas de outros estados e países. A tendência é o desaparecimento. Na feira gastronômica da última Virada Cultural não havia uma só barraca destinada à culinária paulista e ninguém reclamou. Basta disso, não? Precisamos lembrar das nossas origens na memória das receitas, sabores e costumes.

      Bairros

      Nomes de bairros paulistanos estão sumindo graças à chegada de novos moradores trazendo na bagagem seus costumes, valores e lembranças. Talvez venha daí a mania de subdividir bairros rebatizando-os e apagando da memória urbana o nome original. Chora Menino por exemplo, não existe mais. Você conhece alguém que mora lá?. Veleiros, Caxingui, Eldorado, Jaçanã, Peruche (apesar da escola de samba) e outros estão igualmente sumindo da boca do povo. As pessoas falam que moram em um tal ‘jardim’ que ninguém nunca ouviu falar nem existe no Google. A subdivisão de nomes é tanta, são tantos os ‘jardins’ ‘vilas’ e ‘parques’ que no antigo Guia de Ruas as palavras ficavam quase que sobrepostas nas páginas do livro. Mais prejuízo para a identidade paulistana.

      Carnaval

      Bem que as escolas de samba poderiam ocupar as ruas celebrando a cidade, não? Afinal, é assim nos melhores carnavais do Brasil como Olinda e Recife. Em artigo anterior, a Raquel chegou a esboçar uma interessante ideia da apropriação do espaço urbano – as ruas – pelas escolas. O artigo denunciava a ameaça de desapropriação da Vai Vai no Bexiga para a construção de uma estação de metrô. As escolas porém tem uma relação umbilical com o bairro. Nasceram ali. Arrancá-las de seus bairros seria condená-las ao exílio, à perda do passado e da identidade. No momento em que as escolas afirmarem seu amor pelo bairro desfilando pelas ruas, estarão agindo em defesa própria, do bairro e da cidade. Isso não existe no desfile do Anhembi, um espetáculo grandioso mas artificial sem raízes e sem alma.

      grande abraço

  9. A verdade é que são paulo não tem identidade própria, fica difícil saber qual é a verdadeira cultura de são paulo, não gosto de funk nem de samba só de alguns funk dos anos 90. Vou dá um exemplo estive vendo no youtube uns vídeos dos anos 30 e 50 que os americanos filmaram no rio sobre o carnaval e a cidade, procurei no youtube sobre videos de carnaval de são paulo dessa mesma época 30 e 50 e não achei nada isso me fez deduzir que a cidade de são paulo não tinha cultura nenhuma do carnaval naquela época e hoje em dia cópia o carnaval carioca. Eu acho que a mídia que proporciona isso , por são paulo ser a cidade mais rica e importante do brasil do ponto econômico, ai se faz de tudo para são paulo sempre estar na mídia. Eu particularmente não acho isso bom para são paulo, por exemplo eu sou morador do rio e conheço funk desde 89 e passei a conhecer mais nos anos 90. Nessa época são paulo e o restante do país nem sonhava em saber o que era funk , então a grande mídia paulistana coloca são paulo sempre junto com a cultura carioca, por que isso vende revistas e jornais e os artistas sempre sai nas escolas de sampa, já parou pra pensar se são paulo não tivesse desfile de escolas de samba a mídia ia falar de quem, ai e que tá somente o rio estaria em destaque coisa que a mídia paulistana não aceita. As duas cidades são completamente diferentes na sua formação. Outro exemplo, no rio inventaram o passinho alguns anos depois surge em são paulo o passinho do Romualdo, Ai no carnaval de escolas de samba acontece quanto a mídia internacional fala de carnaval lembra do rio e nem se refere a são paulo. No meu ponto de vista eu não gostaria que minha cidade cópia se a cultura de uma outra cidade o bom é ter cultura própria.

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