Por conta do metrô, quadra da Vai-Vai tem que sair do Bixiga?

Recentemente a imprensa paulistana divulgou que a quadra da escola de samba Vai-Vai, no bairro do Bixiga, região central de São Paulo, poderá ser desapropriada por conta das obras da linha 6-laranja do metrô. Embora não queira deixar o local, a direção da escola vê aí a possibilidade de mudar para um espaço mais amplo, possivelmente na região da Luz. A escola imagina que, se a prefeitura ou o governo do Estado doarem para a escola um dos terrenos vazios e ruínas do projeto Nova Luz, com os recursos da desapropriação, a agremiação poderia construir uma sede maior e melhor. Tudo certo? Não! Uma possível saída da escola de samba do bairro do Bixiga é mais complexa do que isso. O bairro é um histórico território negro da cidade de São Paulo e a quadra da Vai-Vai insere-se nesse contexto, significando a importante – e invisível! – presença da cultura afro-brasileira na cidade.

Para se ter uma ideia, em 1854, dos 30 mil habitantes de São Paulo, cerca de 8 mil eram escravos, quase 1/3 de sua população. Em 1872, a população negra da cidade subiu para 12 mil pessoas (ainda 1/3 da população total), das quais 3.800 ainda eram escravas. Naquele momento, além de possibilitar o acesso à liberdade pelas vias institucionais, a cidade oferecia também uma chance maior de anonimato para os escravos fugidos das fazendas. Embora a maior parte da historiografia refira-se apenas aos quilombos situados em zonas rurais, havia também quilombos urbanos. Eram cômodos e casas coletivas no centro das cidades ou núcleos semi-rurais. E o bairro do Bixiga, originário do quilombo do Saracura, é um bom exemplo desse tipo de configuração.

Com as crescentes restrições ao tráfico e a chegada de mão de obra de imigrantes europeus, a população negra da cidade sofreu um forte decréscimo. Se em 1872 os 12 mil negros da cidade representavam 1/3 da população, em 1893 eles eram menos de 11 mil, para uma população de quase 65 mil habitantes, ou seja, menos de 20%. Por essa época, a população negra da cidade concentrava-se nos cortiços e porões do velho centro, ao mesmo tempo em que novos núcleos iam surgindo literalmente aos pés das novas zonas ricas da cidade (Campos Elíseos, Higienópolis, Av. Paulista etc). Isso, evidentemente, está ligado ao fato de que uma das poucas fontes de emprego para os negros da cidade era, naquele período, o serviço doméstico, uma vez que o imigrante realmente havia ocupado o mercado de trabalho das ocupações mecânicas antes realizadas por libertos.

Aliás, em 1893 os imigrantes já constituíam 80% do pessoal ocupado nas atividades manufatureiras e artesanais. Assim, os novos bairros proletários que surgiram na cidade nesse período eram, em sua maioria, habitados por imigrantes estrangeiros. Uma das exceções foi o Bixiga, que abrigava núcleos negros desde a existência do quilombo do Saracura.

No início do século XX, a população negra que ocupava o centro velho de São Paulo acabou por ser desalojada por grandes operações de renovação urbana que se iniciaram durante a administração de Antônio Prado (1899-1911). A operação limpeza foi implacável: para a construção da Praça da Sé e remodelação do Largo Municipal, os cortiços, hotéis e pensões das imediações foram demolidos. Está ligado a esse processo de “limpeza” do centro a expansão e consolidação do Bixiga como território negro em São Paulo, com um grande aumento de moradores.

Nos anos 1920, não apenas no Bixiga, mas também na Barra Funda, Liberdade e certos pontos da Sé, territórios negros importantes se configuraram na cidade, não apenas com moradias, mas também com suas escolas de samba, terreiros, times de futebol e salões de baile. Organizaram-se ainda sociedades negras, com atividades culturais e recreativas que envolviam a publicação de jornais e a produção literária, musical e teatral. Os chamados “salões de raça” eram a opção de lazer da “elite negra” (funcionários públicos, comerciários, contadores e técnicos).

A quadra da Vai-Vai é a presença desta territorialidade negra na cidade. As escolas de samba, mais do que produtoras de desfiles de carnaval, são verdadeiros nós de uma rede de indivíduos, famílias e instituições ligadas à tradição religiosa, cultural e social afro-brasileira.

A construção da linha 6-laranja do metrô ainda vai demorar um pouco para acontecer. O edital para licitação da empresa que irá construí-la ainda nem foi publicado. Antes que isso aconteça, porém, é importante lembrar que o Bixiga e a quadra da Vai-Vai não são um lugar qualquer, não são um “lugar nenhum”. Fazem parte da tradição afro-brasileira de uma São Paulo que, historicamente, pouco fez para que essa história fosse respeitada e preservada e pudesse, assim, afirmar seu lugar no ethos da cidade.

Este post é baseado em artigo meu originalmente publicado em 1989 com o título “Territórios Negros nas Cidades Brasileiras (etnicidade e cidade em São Paulo e Rio de Janeiro)”.Clique aqui para acessar o artigo.

* Originalmente publicado no Yahoo!Blogs.

12 comentários sobre “Por conta do metrô, quadra da Vai-Vai tem que sair do Bixiga?

  1. entendo o questionamento, mas quais seriam as sugestões de local alternativo para a estação, que contemplem tanto a preservação quanto a necessidade da presença desse ponto da malha metroviária?

  2. Se andar por este bairro, principalmente o local da vai-vai, esta questão cultural já foi minado há muito tempo. A questão cultural é com a escola de samba e não simplesmente o local que significará este contexto. É a escola que carregará a sua história e legado. O bairro se modifica em conformidade com a evolução da cidade. Se realmente há cultura e história a ser preservado, então, o governo e a população deve se mobilizar para tornar o bairro ou alguns prédios como patrimônio cultural. Caso contrário, tal fato ficará apenas na história que ocorre a todo momento para qualquer bairro de uma cidade.

  3. Vou postar meu comentário aqui já que no yahoo ele não aparece.

    Uma crítica sobre o carnaval paulistano

    As escolas de samba foram criadas no Rio de Janeiro no início do século passado no bairro do Estácio. Depois os cariocas criaram os desfiles, a competição, os figurantes, sambas-enredo, comissão julgadora, apuração, proclamação do resultado, etc. Em 1984 chamaram o Oscar Niemeyer para projetar o sambódromo. Foi quando o carnaval carioca ganhou dimensão mundial e a onipresença no Brasil. É a maior festa do planeta, segundo eles.

    Em São Paulo porém, tudo, absolutamente tudo o que vemos no Anhembi foi copiado do Rio. Até o sambódromo foi projetado pelo mesmo arquiteto. Porém, como qualquer pessoa minimamente informada sabe, a cópia não tem valor algum uma vez que jamais deixará essa condição. É falsa por definição. Nunca poderá comparar-se com o do Rio.

    O resultado do esforço que se faz em SP para conferir algum respeito ao seu carnaval é que os principais jornais brasileiros não publicam sequer uma única linha sobre nosso pálido desfile-pirata, a não ser nas páginas policiais como no ano passado. Turistas do mundo inteiro desembarcam no Rio para conhecer o carnaval verdadeiro. Quem vai interessar-se pela réplica quando o original está logo ali pertinho?

    Salvador e Recife disseram não à padronização criando seus próprios carnavais, ancorados pela forte cultura popular local. Hoje seus carnavais rivalizam com o do Rio em prestígio internacional. Algumas capitais do norte seguem o mesmo caminho e o carnaval ali assume conotações de boi-bumbá. mostrando que são as diferentes manifestações culturais regionais que fazem do Brasil um país interessante, jamais a monocultura.

    O que a Vai-Vai e as outras escolas precisam é criar um carnaval paulistano e parar de copiar o Rio. Quem sabe, com essa conotação urbana de territorialidade como disse a Raquel, cada escola desfilando em seu próprio bairro, seu prório território. Sem competição ou baixaria mas com muita festa, alegria e cor que São Paulo tem e pode mostrar.

  4. Muito oportuna a discussão.

    A diversidade cultural é a marca mais importante de São Paulo. Porém, o efeito de tantas influências de outros estados acabou soterrando a cultura paulistana e paulista. Sim, ela ainda existe. Está presente na culinária com o feijão tropeiro (SP, MG e GO) no camarão na moranga e azul-marinho (pratos típicos do litoral paulista) além do frango com polenta e do virado. Sem falar na caipirinha, bebida que foi criada aqui no interior paulista e por isso tem esse nome. A imortal música caipira das duplas de violeiros também é um dos orgulhos do povo de SP.

    Ocorreu que o crescimento da influência da TV trouxe desvalorização da cultura paulista. Atualmente não é prestigiada nem pelos próprios nativos. Preferem abrir as pernas para influências de outros estados especialmente Rio e nordeste. O resultado é uma cidade sem identidade, ‘amorfa’ como já dizia Gilberto Gil há muitos anos.

    O carnaval paulistano é um reflexo dessa falta de identidade.

    Existia um carnaval de marchinhas em São Paulo. Mas resolveram esquecê-lo para adotar o modelo carioca das escolas de samba, transmitido via TV para todo o Brasil. Nada contra o samba mas não precisava copiar exatamente igual ao que é feito no Rio. O resultado aí está, nas palavras do Celso: São Paulo produz um carnaval que não conta com o respeito dos brasileiros uma vez que falta-lhe legitimidade.

  5. Não é bem que a quadra quer sair. A quadra foi “saída” dali. É a história racista se repetindo.

  6. Quem nunca viu o samba amanhecer, vai no Bixiga pra ver. O samba não levanta mais poeira, pois asfalto hoje cobriu o nosso chão. Lembrança eu tenho da Saracura. Saudades, tenho do nosso cordão. O Bixiga hoje é só arranha-céu e não se vê mais a luz da lua. Mas, o Vai-Vai, está firme no pedaço. É tradição, e o samba continua. Quem nunca viu, venha ver!

  7. O campo cultural diz respeito à totalidade da vida social, estabelecendo uma interação entre práticas e representações e introduzindo critérios que possam avaliar a pertinência do bem cultural e seu potencial de interlocução, pois o valor não se encontra em sua natureza intrínseca, mas na sua produção de significado, pois o patrimônio antes de qualquer coisa é um fato social, sendo um campo de conflito e confronto, que exige constante negociação por ser complexo, pois exige habilidade para lidar com diversidade de valores que não estão previstos, nem impostos, mas propostos e transformados.

    A discussão entorno da construção da linha de metrô e a permanência da Escola de samba no bairro,é de grande valor e não pode ser tratada como algo tão simples,são justamente as controvérsias de se viver num contexto urbano, onde uma série de interesses estão em jogo,mas que podem sim coexistir,sem que mais uma vez a história e o processo de construção identitário,sofram com uma mentalidade homogeinizadora,onde uma cultura é atropelada por um progresso e desenvolvimento mais uma vez colonizador.

  8. Olha todo mundo aqui criticando, duvido que alguém aqui mora ao lado desta filial da cracolandia, onde se trafica todo o tipo de droga, embaixo das barbas das autoridades públicas. Outro problema é o barulho que ultrapassa qualquer limite imposto pela lei, sem horário para terminar porque depois que termina o tal ensaio ainda tem o desmonte das barracas limpeza da via pública, “paga com dinheiro público” sujeira pessoas urinando na porta da sua casa, carros estacionados não calçadas são inúmeros os problemas que os vizinhos tem com este antro.

  9. Moro na região, mas sou a favor da mudança:
    1. Como disseram nos comentários, uma escola com a tradição da Vai-Vai leva seu histórico e cultura onde estiver, não é o local que faz isso, por mais que haja toda a história do Bairro.
    2. A escola desrespeita a comunidade, pois seus ensaios não são no barracão, são na rua (que fica fechada para isso – os carros de som alto dominam toda a redondeza), TRÊS VEZES POR SEMANA (terça, quinta e domingo), com som altíssimo (moro no nono andar de um prédio do outro lado da avenida e não consigo nem assistir TV, mesmo com as janelas e portas fechadas) e cada vez terminando mais tarde, inclusive passando MUITO do horário estipulado pela lei de pertubação do sossego.
    3. Depois que espalharam os dependentes químicos da Cracolândia, veio muito tráfico para a rua da Vai-Vai, consigo ver da janela transações suspeitas na porta em plena luz do dia.
    Enfim, sempre fui Vai-Vai, até morar na região e presenciar esta falta de respeito com a comunidade que “prezam” tanto.

  10. A escola Vai Vai esta ocupando um terreno fiscal que por causa da nova estaçao, foi convidada a sair do terreno. Por que nao poderia mudar para um outro terreno fiscal localizado a apenas 50m? Para quem estão sendo reservados esses terrenos?
    TOMBAMENTO DO BAIRRO DA BELA VISTA (Resolução nº 22 / CONPRESP / 2002)
    A Bela Vista é considerado como um dos poucos bairros paulistanos que ainda guardam inalteradas as características originais do seu traçado urbano e parcelamento do solo.
    A permanência e ampliação dos seus residentes é considerada fundamental para a manutenção da identidade do bairro.
    É assim que a Prefeitura esta preservando o bairro?
    Que interesse imobiliário esta por trás de tudo isto? Acredito que para o mercado imobiiario nao seja interessante o “barulho” de uma escola de samba, verdade?
    A escola faz parte da identidade da Bela Vista, como também os italianos e os nordestinos..ou….Seria impensável o bairro sem eles, mas por que com a escola não acontece igual…?
    Ate quando vamos ter que aguentar uma Prefeitura que não impõem as regras ao mercado imobiliário, e que abaixa a cabeça perante as incorporadoras e construtoras? Quem esta enchendo os bolsos?
    Sandra Irala

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