Conheça sua cidade… a pé!

Em várias cidades brasileiras e do mundo, são muitos os grupos de pessoas que se organizam para andar de bike, promover discussões sobre a bicicleta como meio de transporte e sobre novas formas de percorrer as cidades e se deslocar. Menos conhecidos, mas também se multiplicando, são os grupos que se organizam para andar a pé… isso mesmo! No ano passado, por exemplo, visitei o “Tenement Museum” no Lower East Side, tradicional porta de entrada de imigrantes em Nova York, e tive a grata surpresa de, ao invés de percorrer salas fechadas com exibição de fotos e documentos, participar de uma caminhada pelas ruas do bairro, guiada por um monitor que ia, ponto a ponto, esquina a esquina, contando a história da cidade e da imigração.

Na semana passada, recebi de um leitor informações sobre a “Jane’s Walk”, uma iniciativa surgida em 2007, em Toronto, no Canadá, em homenagem à urbanista e ativista Jane Jacobs (1916-2006), cujo livro – “Vida e morte das grandes cidades” – tornou-se, há décadas, uma verdadeira ode à vida nas ruas par vida nas ruas e sua importância para as cidades. Anualmente, no mês de maio, para coincidir com o nascimento da urbanista, são realizadas caminhadas em grupo para explorar e conhecer diversos bairros. Para se ter uma ideia, da criação do grupo, em 2007, até maio de 2011, a iniciativa se expandiu, alcançando 75 cidades em 15 países do mundo. Além do evento anual em maio, as caminhadas podem acontecer em qualquer época do ano, desde que grupos locais se organizem.

Coincidentemente, na mesma semana, uma leitora entrou em contato para divulgar uma iniciativa semelhante em São Paulo. Trata-se do grupo SampaPé, que organiza caminhadas temáticas em diversos bairros, a fim de estimular o conhecimento dos caminhos a pé que a cidade oferece. A última caminhada aconteceu no dia 16 de março, no bairro da Penha. No site do grupo, além da agenda de caminhadas, é possível denunciar problemas nas ruas e calçadas, acessar materiais – como um mapa das feiras de rua e das obras de arte espalhadas pela cidade – e aplicativos.

Outra iniciativa que conheci recentemente é o “Rios e Ruas”, que realiza expedições a pé ou de bike para descobrir córregos e rios ocultos na cidade. O próximo passeio será no dia 30 de março, com concentração às 14h, na praça do Ciclista (Paulista x Consolação), com destino à Vila Pompeia, a fim de explorar o curso do córrego Água Preta.

Assim como no caso dos grupos de bikers, os grupos urbanos de caminhada apontam para outro tipo de relação com a cidade: ao invés de um cenário de passagem entre um ponto e outro de um deslocamento, o espaço da cidade passa a ser um espaço vivido. É evidente que a cidade, tal qual se organiza hoje, é absolutamente hostil a essa prática, uma vez que claramente a prioridade no espaço público é a circulação e, particularmente, a circulação de automóveis. Entretanto, quem busca conhecer a cidade a pé tem a oportunidade de se reconectar com a cidade, sendo capaz de fazer a crítica desse modelo e exigir outro, no qual estar será tão importante – ou mais – do que passar!

Texto publicado originalmente em Yahoo! Blogs.

9 comentários sobre “Conheça sua cidade… a pé!

  1. Raquel, aproveito a oportunidade para uma pergunta: Como ficou a tal proposta de intervenção urbana na Vila Madalena, em São Paulo? Faço a pergunta porque até hoje nada recebi como informação final a respeito. Grato pela atenção.

  2. Há uns 15 anos visitei Boston e usufrui de um sistema de “way-finding” turístico nesse mesmo sentido. Eram linhas pintadas nas calçadas que levavam os visitantes para diferentes caminhadas, passando por grupos diversos de pontos turísticos e edificações importantes para a história de Boston. Simplérrimo, o sistema levava o “flâneur” a andar pelo centro e vivenciar a cidade.

  3. Sou de São Paulo e moro em Madri há dois anos. Aqui temos o hábito de caminhar o tempo todo. Para quem mora no centro, é absolutamente desnecessário o uso do carro (até um tormento, dada a dificuldade para estacionar na rua e o alto preço dos estacionamentos).
    O metrô de Madri tem 12 linhas, quase 300km de extensão, funciona até 1h30 da manhã e ainda assim, se decidir ir a pé para casa, é sempre muito agradável, pois a cidade não é tão poluída e é relativamente plana.
    Pois tive uma grata surpresa ao visitar São Paulo no ano passado e caminhar pela cidade. As distâncias que no passado pareciam longas e incômodas para andar a pé se encolheram, simplesmente porque eu tinha adquirido o hábito da caminhada. Com isso senti que estava tendo uma outra relação com a cidade, exatamente como você menciona.

  4. Olá, sou estudante de jornalismo em ouro preto. achei muito interessante esse texto porque ja participei de algumas rutas turisticas a pe mas nunca tinha dado atenção a tamanha proporcao que isso leva.
    em ouro preto há um projeto chamado “sentidos urbanos”, sao grupos pequenos ou medianos de pessoas que sao guiados por alguem pertecente a universidade que contam curiosidades da cidade. A historia e a importancia da cidade pode ser conhecida nos museus mas detalhes e lendas que compoem o lugar sao explorados nessa gostosa caminhada que explora tambem os sentidos ao fazer uma pequena parte de olhos fechados.
    Pra terminar gostaria de parabenizar o texto e tambem o pessoal de op que esta com esse projeto que tem todo potencial.

  5. Oi, sou de Fortaleza e adoro caminhar, o que alias faco normalmente para me deslocar de um ponto a outro mesmo tendo carro. Nao suporto os onibus com suas excessivas paradas pelo intenso transito e caminhar eh um das minhas grandes paixoes.
    Evito o carro sempre que possivel e faco meus percursos a peh para resolver qualquer problema, voltando de onibus quando estou carregando algum peso. Os problemas que encontro nas minhas caminhadas sao calcadas estreitas, ocupadas por algum negocio ou carro. Adorei ler essa materia. Parabens!

  6. Na década de 1990, em Londres, havia um programa em que pessoas se ofereciam para fazer visitas guiadas pelas ruas, com roteiros concentrados e temáticos. Eram habitantes da região que anunciavam em um folheto com horários fixos e cobravam uma pequena taxa para contar a história do bairro e comentar sobre a arquitetura, pessoas públicas que moraram ou moravam por ali enquanto passeavam pelas ruas em trechos curtos, +/- 1 hora. O mais famoso era por Abbey Road, mas havia sobre Sherlock Holmes, parques e região central.

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