Pontos de ônibus: por que é tão difícil garantir qualidade e conforto?

Nas últimas semanas, começaram a ser instalados na cidade de São Paulo novos modelos de abrigo nos pontos de ônibus. Até o final de 2015, o consórcio vencedor da licitação para a realização da obra deverá trocar 6500 abrigos e 12500 totens. Os novos abrigos têm quatro diferentes modelos e serão instalados de acordo com o perfil de cada região da cidade. A notícia parece boa, mas muitos paulistanos têm reclamado.

A principal reclamação é que os novos pontos estão sendo instalados sem painéis de informação sobre as linhas de ônibus e seus itinerários. Quem anda de ônibus sabe a falta que faz esse tipo de informação. Outra queixa é com relação às coberturas de vidro dos abrigos. Embora o consórcio afirme que são vidros temperados e com proteção UV, a sensação de muita gente é de que os abrigos estão mais quentes e abafados.

Obviamente não é apenas São Paulo que enfrenta problemas com relação aos seus pontos de ônibus. Em geral, na maior parte das cidades brasileiras, os pontos de ônibus são equipamentos precários, sem conforto, sem segurança, enfim, sem nenhuma qualidade. Me parece que isso faz parte de uma cultura histórica em nosso país de associar o transporte coletivo – o ônibus, especialmente – às classes pobres. Se ricos e classe média andam de carro particular, para quê investir em pontos de ônibus?

ponto de onibus sp

Ponto de ônibus no bairro da Vila Mariana, em São Paulo.

Mesmo em São Paulo que, de qualquer forma, mesmo com críticas, está investindo em novos abrigos, ainda há regiões onde os pontos, quando existem, são totalmente precários. Às vezes há apenas um toco no meio da calçada, sem nada que o identifique com um ponto de ônibus. Enquanto isso, a população se vira como pode. Pra vencer o problema da falta de informação nos pontos, por exemplo, um pessoal de Porto Alegre criou um adesivo com os dizeres “Que ônibus passa aqui?” e um espaço para anotação das linhas. O arquivo está disponível pra download gratuito na internet e a ideia rapidamente se espalhou. Inclusive vários adesivos já foram colados nos novos abrigos de São Paulo.

Certamente falta diálogo dos gestores com a população na hora de pensar investimentos não apenas em pontos de ônibus, mas no mobiliário urbano em geral. Quais são as demandas, as queixas, os pontos positivos e negativos apontados pelos usuários desse mobiliário? Que tal ouvir a população e priorizar suas necessidades antes de implementar projetos desse tipo?

23 comentários sobre “Pontos de ônibus: por que é tão difícil garantir qualidade e conforto?

  1. Me pergunto como projetos visivelmente inadequados foram aprovados? E também o que aconteceu para que arquitetos renomados elaborassem propostas tão ruins do ponto de vista funcional? Não houve nenhum tipo de assessoria técnica? Cobertura e fechamento lateral de vidro numa cidade ensolarada como São Paulo e que convive constantemente com atos de vandalismo em equipamentos públicos? As falhas são tão absurdas que parecem intencionais.

  2. Parabéns pelo Post.. pensar a cidade é também pensar sobre o que parece um detalhe mas que na verdade é vital.

  3. Os abrigos poderiam trazer um QR Code ou algo assim. Bastaria aproximar o celular para obter as informações, inclusive com voz para os deficientes visuais.

  4. Já na casa dos sessenta abandonei o carro e passei a usar ônibus. Algumas coisas me chamam muito a atenção: a quantidade de pessoas que fazem sinal para parar um ônibus e perguntar o trajeto ao motorista; e a constatação, estupefada, (e confessada pelos motoristas), que a maioria das linhas pára de circular entre 11h e 15h ( como se fôssemos uma cidade de alguns mil habitantes!!). Meu Deus, ninguém para fiscalizar e colocar ordem na casa! Sobre as coberturas de vidro, uma perguntinha básica: a proteção UV também “barra” o calor? Acho que não. Vai ficar um dia desses de mais de 30° num ponto destes, e ver o que acontece. Bizarro, eu tentando me proteger do sol pela sombra da haste que sustenta a cobertura… Até quando?

  5. Pingback: Pontos de ônibus: por que é tão difícil garantir qualidade e conforto? | São Paulo a venda

  6. Cara Raquel,
    Dificilmente utilizo ônibus, mas na minha modesta opinião, os Abrigos de Ônibus, devem ser , antes de mais nada, a prova de vandalismo, e a prova de veículos desgovernados, aliás os pontos de ônibus deveria ter alguma proteção para o usuário, tais como alguma barreira, faixa amarela de segurança pintada na calçada, para o usuário ultrapassá-la só na chegada do coletivo. Agora, como a foto do ponto de ônibus da Vila Mariana, acima, percebemos que a calçada é estreita para conter um abrigo.
    Então são muitos detalhes que precisam ser resolvidos tecnicamente e artisticamente.
    Abçs
    Antonio da Ponte
    Ambientalista da Aclimação

  7. Em Brasília a maioria das paradas no centro da cidade é construída pela CEMUSA, uma empresa multinacional que usa os pontos de ônibus como espaço de publicidade. E está presente especialmente junto aos monumentos da cidade. Isso inclusive é utilizado por ela como publicidade da própria empresa, o fato de que estão ao lado de obras de Niemeyer, por exemplo, como pode ser visto em seu site.
    O ponto tem como forte um design supostamente sofisticado, que é a marca registrada da empresa. E também a captação de recursos por meio dos cartazes de publicidade.
    No entanto, no quesito conforto e utilidade o suposto design sofisticado não ajuda muito. Os espaços para sentar são extremamente desconfortáveis e ela não protege nem contra o sol, já que é feita coberta com vidro transparente, nem contra a chuva porque a cobertura é muito estreita.
    Tal como entendo a dinâmica dessa cidade, o design dos pontos de ônibus são pensados para proporcionar o mínimo de conforto e o mínimo de abrigo. E isso tem um motivo: moradores de rua e usuários de droga. Isto é, os pontos de ônibus dessa empresa é pensado para ser um anti-abrigo, um espaço anti-moradores de rua e anti-usuários de droga. E para isso são os mais desconfortáveis possíveis, os mais hostis possíveis, mas tudo embalado num design supostamente sofisticado.

  8. Outro dia li esta frase (desculpem, mas não havia a idenficiação do autor): “País rico não é aquele que pobre anda de carro,mas aquele em que rico anda de transporte coletivo”.
    Enquanto estivermos priorizando o uso de automóveis, situações grotescas como esta (abrigo com teto de vidro) continuarão a acontecer.
    Pesquisei, mas não encontrei: QUEM SÃO OS AUTORES DESTES PROJETO?
    Imagino que a execução do projeto não tenha sido finalizada ainda, que ainda há de se colocar adesivos/ insulfilmes com imagens de SP / informações e imagens históricas e, principalmente, os itinerários de ônibus e horários.
    Vamos torcer!

    • Solange, a frase é do ex-prefeito de Bogotá, Enrique Peñalosa, que ficou famoso por implementar durante sua gestão algumas soluções de transporte que removeram a prioridade dos carros particulares no viário.
      O autor do desastroso projeto de abrigo de ponto de ônibus é o escritório carioca Guto Índio da Costa.
      Sobre a iniciativa de sinalização das paradas, procure sobre o projeto “Que Ônibus Passa Aqui”, que é uma iniciativa de cidadãos procurando resolver um problema público.
      Abraços

      • Índio da Costa, como o vice do Serra nas últimas eleições? Índio da Costa, como o do partido do Kassab?
        O projeto foi feito na gestão Kassab? Que coincidência!!

  9. Olá! Esse blog é sensacional.

    Esse assunto é muito importante e afeta diretamente toda a cidade.

    Dois comentários trazem pontos que precisam de discussão.

    Um deles é a proposta de utilizar o celular como ferramenta de informação. Algumas cidades estão investindo nessa forma, mas ela não é adequada, se única. Não vem ao caso o motivo, nem quero militar sobre isso, mas por que eu teria que obrigatoriamente usar celular? A forma mais democrática de ter a informação é ela estar escrita no ponto, como em vários lugares do mundo – e não só do mundo rico. Como informação acessória, ou forma de acesso a cegos ou não alfabetizados sim, mas não como forma principal.

    Outro ponto, que me desagrada bastante, é o sempiterno temor do vandalismo. No Brasil nada pode existir, porque a priori o “povo” vai destruir. Não se melhora nada porque já se sabe (sic) que será destruído. Nem se tenta, para ver como seria. Pior que quem desmoraliza o sistema é a própria SPTrans e suas equivalentes. Várias placas de corredores estão limpinhas, sem nenhum tipo de “vandalismo” – mas desatualizadas há anos. Quem destruiu?

    Para mim, a coisa mais importante da discussão sobre transporte é a aceitação de vez de que o motivo do sucateamento é a associação do ônibus ao pobre, como diz Raquel Rolnik.
    Se é para pobre, por que deveria ser bem feito? Por que ter informação dos próximos pontos dentro, como acontece em vários lugares do mundo? Por que ser mais confortável para o motorista, se é visto só como um grosso desempenhando um trabalho braçal? Por que tirar a catraca (roleta ou borboleta, etc) se quem vai dentro tem que aprender seu lugar?

    Já discuti asperamente com passageiros que diziam que o povo não respeitaria um ônibus sem catraca – um deles me disse que canadense pode, brasileiro não.
    Não digo tirar o cobrador, apenas a degradante catraca. Cidades sem cobrador continuaram tendo a roleta.
    Não precisamos nem chegar ao passe livre (que defendo, todavia) – mas fazer como o resto do mundo faz. Ou todos os países têm prejuízo, menos o Brasil?
    Quem não paga pula ou obriga o motorista a abrir a porta de trás. Quem paga hoje em dia pagaria sem catraca.

    Desculpem pela extensão do comentário.

    Muito obrigado pelo espaço!

  10. A SP Trans desenvolveu um aplicativo para smartphone que informa o horário de saída dos ônibus nos terminais. Alguma coisa assim poderia ser utilizada nos pontos de ônibus. Ou até mesmo um numero de uma central poderia informar as linhas que passam em determinado ponto informado pelo usuário.

    Precisamos lançar mão da tecnologia.

    • Acho a proposta bastante válida, mas não podemos esquecer que muitos idosos não possuem familiaridade com essas tecnologias e estão acostumados com informações tradicionais. Isso vale também pra outros grupos, incluindo pessoas que apenas por opção, preferem viver sem celular, smartphones, tablets, etc. Ou seja, de alguma forma tem que ter informação no próprio ponto de ônibus.

  11. Engraçada esta crítica envergonhada da autora. É ruim pq é ruim mesmo e uma estudiosa do tema não poderia falar o contrário e jogar o seu diploma ao léu; mas é bom pq é algo que seu PT faz.

    • Olá Atenas.
      Pelo seu comentário, percebe-se que você não sabe, mas os novos pontos de ônibus são projetos da gestão anterior (Kassab). Foi uma das últimas ações do ex-prefeito. O atual Prefeito (Haddad) ficou com esse pepino nas mãos, e tem que cumprir o contrato por força da lei.

      • Paulo caro,

        Essa história de compromisso assumido por Poder Público ter de ser cumprido pode valer em outros lugares, mas não vale no Brasil.

        Haddad faz o que Kassab definiu porque quer.

        Ou ninguém viu uma obra pública parada pela metade?

        Bj

  12. Todos os locais com parada de onibus já estão com abrigos?
    Porque a Prefeitura esta trocando pontos de onibus com abrigo, sendo que há lugares onde só existem o ponto “de madeira”
    Quando todos os governantes querem deixar sua marca registrada.
    Seria mais louvavel depois que todos os locais tivessem pontos de onibus com abrigo, partissem para a substituição por mais modernos.
    Já vi em governos passados a mesma situação.
    Uma prefeitura estava lavandos os pontos de concreto com telhado, veio o proximo e derrubou para por um com assentos e o mesmo esta acontecendo agora

  13. Além da cobertura de vidro e da falta do itinerário, os novos pontos têm frestas que deixam passar a água da chuva. Frite no calor, se molhe na chuva, perca-se. Há algo correto nestes pontos? Parece brincadeira de mau gosto…

  14. Deixa eu mandar mais uma desses novos pontos.
    DE VIDRO MEU DEUS.

    Verão com 30 graus na sombra e esperando 40 minutos um buzão com solzão na moleira … incrível.

    Haddad, Kassab, Maluf … tudo Kebab anti-pobre.

  15. o descaso por parte dos governantes conosco causa revolta profunda ! Porque eles nos consultariam ? afinal não necessitam de transporte coletivo, não são eles nem seus filhos que precisam ficar em dias de chuva e vento gelado em baixo desses “ABRIGOS” !!!!!
    Um dia terão a resposta que merecem !!!

  16. voltei neste post hoje, pra expressar a minha indignação com ações burras como esta da substituição dos pontos de ônibus. Para além da aberração que é o projeto do ponto de vidro, acho importante ressaltar que eles estão sendo instalados “de acordo com o perfil de cada região da cidade”, ou seja no centro e centro expandido da capital temos pontos com a tal cobertura de vidro que, apesar de todas reclamações, deve pelo menos proteger da chuva. Moro no bairro de Perus, extremo noroeste da capital, e aqui o que está acontecendo é a substituição dos antigos pontos (precários, porém com cobertura) por simples totens, onde os usuários só estão sendo prejudicados, tendo de aguardar sob o sol ou debaixo de chuva, ônibus que tradicionalmente já demoram no mínimo 40 min para passar. É um absurdo, no mínimo deveriam deixar a cobertura antiga.

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