Os Satyros anunciam que trocarão a Roosevelt pela Luz. Mas o destino da Luz pode ser o mesmo da Roosevelt…

A coluna da Mônica Bérgamo hoje na Folha traz uma pequena entrevista com Ivam Cabral, um dos fundadores do grupo de teatro Os Satyros, que tem sede na Praça Roosevelt. Cabral conta que, depois de 13 anos no mesmo local, a companhia procura uma nova sede, e diz que cansou de negociar o aumento do preço do aluguel. O grupo paga quase R$ 12 mil em dois espaços.

Cabral diz ainda que a decisão de sair da praça é política. Para o grupo, a Roosevelt virou um “lugar plastificado”. “Outro dia, vi que surgiu um espaço com uma panificadora gourmet aqui. A praça Roosevelt ficou burguesa. A papelaria que sempre existiu na praça foi expulsa. Não é mais a nossa”, diz. A ideia dos Satyros é buscar um espaço na região da Luz, a chamada “Cracolândia”. É nesta mesma área que a atual gestão da prefeitura pretende implementar o projeto de concessão urbanística Nova Luz, que prevê a demolição de 50% dos imóveis e a substituição dos atuais moradores e atividades.

É também nesta região que o governo do Estado de São Paulo pretende construir o Complexo Cultural Luz. Concebido por um escritório suíço, o projeto prevê, em um terreno de 18 mil m², a construção de um teatro de dança e ópera, um teatro experimental e uma sala de recitais. Ontem, inclusive, em reportagem do Estadão, o governo do Estado anunciou que o projeto está pronto e que o processo de licitação da gerenciadora da obra, orçada em R$ 400 milhões, será definido em dezembro.

Embora o complexo Cultural Luz e o projeto de concessão urbanística Nova Luz sejam iniciativas de distintos governos – prefeitura e governo do Estado – sua articulação no território repete o processo  já visto em inúmeras cidades onde equipamentos culturais de arquitetura “de grife” são parte integrante e ponta de lança de projetos de valorização imobiliária e captura de áreas da cidade, que ainda mantêm uma mistura de usos e classes sociais, por um setor de maior poder econômico.

Se o projeto Nova Luz for implementado e se o Complexo Cultural Luz for mesmo adiante, é muito provável que o destino das pessoas que vivem na área seja o mesmo destino dos Satyros. Certamente, de forma muito mais intensa do que na Roosevelt, já que se trata de um investimento muito maior.

No mínimo, as políticas culturais e urbanísticas da cidade, em vez de mimetizar os processos de gentrificação acriticamente, poderiam se colocar como desafio enfrentar a difícil equação da transformação e permanência. Se o único valor relevante é o valor de mercado, não há política de inclusão que se sustente. Ao menos com relação ao projeto Nova Luz, a próxima gestão da prefeitura de São Paulo, que se comprometeu a rever o projeto, terá a oportunidade de enfrentar este desafio, fugindo do “mais do mesmo”. Segundo matéria do Estadão, “a remodelação do projeto Nova Luz é uma das poucas certezas já trabalhadas pela equipe de transição de Haddad”. As modificações no projeto deverão ser encaminhadas ao Legislativo ainda no primeiro semestre de 2013. É o que esperamos.

3 comentários sobre “Os Satyros anunciam que trocarão a Roosevelt pela Luz. Mas o destino da Luz pode ser o mesmo da Roosevelt…

  1. Será que o Ivam se arrependeu de suas ligações com o PSDB, alicerçada por meio de seu amigo pessoal, José Serra?

    “Hoje nasce a SP Escola de Teatro. Idealizada há quase dois anos pelo Governador José Serra num pedido para Ivam Cabral, ator da Companhia de Teatro Os Satyros, a Escola foi sendo gestada (como eu sempre dizia pro Ivam) como um filho.” – http://gostodecereja.zip.net/arch2010-02-14_2010-02-20.html

    Imagens retiradas de seu blogue, Terras de Cabral:




    http://terrasdecabral.zip.net/arch2010-12-12_2010-12-18.html

  2. Até poucos anos atrás eu trabalhava no bairro dos Campos Elísios, vizinho da cracolândia. Todos os dias, passava a pé em frente à Sala São Paulo (uma pérola precursora do projeto Nova Luz), de manhã indo da estação da Luz ao trabalho e na volta fazendo o caminho oposto, junto a uma multidão de pessoas que vivem ou também trabalham na região. Em datas de concertos musicais na Sala São Paulo, o entorno da entrada dessa casa de espetáculos era devidamente lavado e desinfetado e, no final da tarde, eu e a multidão tínhamos de passar por ali contornando cordões de isolamento, seguidos atentamente pelos olhares severos de seguranças. Á noite o lugar seria da elite que chegava em seus carros fechados, pagava caro para assistir aos concertos e ia embora sem tomar conhecimento do dia a dia daquele bairro. E, passado o fim de semana, tudo estava de volta ao normal de sujeira e pobreza da praça. Assim a bela Sala São Paulo ficou para mim como a imagem da exclusão de que São Paulo tem sido feita. Torço para que a nova administração da cidade não leve adiante esse processo de exclusão, expandindo a “limpeza” da entrada da Sala para todo aquele distrito e desumanizando uma área que tem sua gente, sua cultura, sua vida.

  3. Nenhuma surpresa, mas pena que seja o Satyros e não o Parlapatões a sair da praça. Ninguém aguenta mais os burguesinhos a madrugada inteira no Parlapatões impedindo que se durma nos prédios. O Satyros, por outro lado, tirando o Satyrianas, tem uma ótima relação com a praça… Uma pena! A papelaria ter saído, com o Fernando ha mais de uma década aqui foi mesmo péssimo! Aliás, sobre a saída dele da praça e as mudanças pelas quais temos passado, escrevi para o SPressoSP:

    http://www.spressosp.com.br/2012/10/o-renascimento-da-praca-roosevelt-e-os-desafios-da-convivencia/

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