Mais infraestrutura para o uso da bicicleta como meio de transporte, menos acidentes

Há uns dois anos, o Google já oferece no seu Google Maps um serviço de busca de rotas para ciclistas nos Estados Unidos e no Canadá. Na semana passada, a empresa ampliou o serviço para cidades europeias e australianas, e agora também é possível acessá-lo pelo celular. A ferramenta funciona de forma semelhante aos serviços já disponíveis no Brasil de busca de rotas de transporte público, de carro e de pedestre. Mas o mais bacana das rotas de bike é que são identificados não apenas ciclovias e ciclofaixas, mas também os caminhos mais curtos, mais suaves e tranquilos para os ciclistas.

É uma pena que este serviço ainda não seja oferecido no Brasil. Mas, muito pior que isso, é constatar que nossas cidades não têm políticas nem investem em infraestrutura para a ampliação do uso da bicicleta como meio de transporte. Em São Paulo, recentemente, o Diário Oficial do Governo do Estado publicou reportagem intitulada “Mais ciclistas, mais acidentes”, em que um ortopedista do Hospital das Clínicas afirma que há um aumento no número de acidentes envolvendo ciclistas e, por isso, defende que as pessoas não usem a bicicleta como meio de transporte.

Embora o Governo do Estado tenha divulgado nota afirmando que a opinião do ortopedista não reflete a opinião da administração, é visível que a política tanto do Estado quanto da Prefeitura é tratar a bicicleta apenas como forma de lazer. As poucas ciclofaixas e ciclovias da cidade funcionam apenas aos domingos e feriados e suas rotas foram pensadas para interligar os parques da cidade. É tão óbvio que a administração estadual trata o uso da bicicleta como forma de lazer que o folheto do metrô que orienta os usuários afirma “Confira o horário e divirta-se”.

Aliás, as restrições de horário ao uso de bicicleta no metrô e na CPTM são tão grandes que é impossível a um trabalhador hoje utilizar a bicicleta e o metrô ou trem de forma complementar. No metrô de São Paulo, o uso de bicicletas é permitido apenas após as 20h30 durante a semana, após as 14h aos sábados, e aos domingos. Nos trens da CPTM as bicicletas só entram aos sábados após as 14h e aos domingos.

Está mais do que na hora de as Prefeituras e Governos Estaduais de todo o país assumirem que uma parte importante da população usa bicicleta como meio de transporte e, na mais absoluta ausência de políticas de apoio a esta forma de circulação, estes usuários, assim como os pedestres (vale ressaltar), estão expostos a uma verdadeira carnificina no trânsito. Rodovias dentro de cidades, ruas e avenidas sem ciclovias ou ciclofaixas protegidas (e até mesmo sem calçada) expõem constantemente estas pessoas a acidentes e mortes no trânsito. E a culpa é delas?

7 comentários sobre “Mais infraestrutura para o uso da bicicleta como meio de transporte, menos acidentes

  1. Oi, Raquel, sou seu fã e ciclista. Adorei o texto. Só uma ressalva: nem os proprios ciclistas que eu conheço reinvindicam usar a bike no Metrô de SP em horário comercial. O Metrô é lotado demais e não dá para priorizar a bike. Este tipo de restrição existe em outras cidades bike-amigáveis também. O importante é integrar a bike à viagem de metrô de outras formas, com bicicletários, etc. Mas não necessariamente permitir que o usuario entre com ela no vagão a qualquer hora.

  2. Sei que já é pedir muito, mas acho estranha a ideia de não poder levar a bike dentro do vagão. Ora, se já permitem espaço reservado para algumas ocasiões, qual o problema de reservar o último vagão para as bicicletas? Acredito que se eu chego com a minha bicicleta num metrô, é porque quero poupar um tempo em que poderia ir pedalando, mas e se eu quiser seguir adiante com a minha bicicleta na estação seguinte, como faço? Acho que, assim como tudo no Brasil, as ideias além de chegarem atrasadas, chegam mal formuladas. Não adianta só eu deixar minha bike num bicicletário, quero ter espaço para me locomover com ela em qualquer outro lugar que eu descer, afinal, se não estou montado nela, também sou pedestre.

  3. A idéia do transporte intermodal é a melhor opção para inclusão da bike nos dias de hoje. No futuro o uso da bicicleta no trajeto inteiro pode acontecer, é claro com uma infraestrutura adequada.

  4. Vale lembrar que têm pessoas que usam a bicicleta por questão econômica, e não tem condição nem de pegar outro meio de transporte no meio do caminho. Tenho um amigo que mora na favela de Paraisópolis e trabalhava no Brás, e ia diariamente de bicicleta. Inevitável pegar grandes avenidas no percurso, até pontes e viadutos.

  5. Raquel adorei conhecer seu trabalho, é mesmo uma batalha neste país para que as pessoas entendam e aceitem outros tipos de transporte sem motor. Eu moro em Florianópolis em juntamente com uma amiga montamos um Projeto que se cham Floripa Quer Mais, para de uma forma inteligente digamos, falar sobre infraestrutura e estimular as pessoas a se manifestarem quanto as necessidades desta cidade. Precisamos te conhecer melhor, e juntar foças. Abç Clarice ( para conhecer o floripaquermais.com.br ou facebook/floripaquermais.

  6. Raquel, é preocupante a opinião do ortopedista de São Paulo. Entendo que ele está bem intencionado ao se preocupar com o número de mortes de ciclistas, mas como se diz, o inferno está cheio de boas intenções. Ele ignora um fato básico da segurança de trânsito, fartamente documentado na literatura: a “segurança em números” (safety in numbers), segundo o qual quanto maior o número de ciclistas nas ruas, mais eles serão respeitados pelos motoristas. Um corolário desse fenômeno é que as cidades mais seguras para os ciclistas são mais seguras para todo mundo – inclusive os motoristas. Por isso, o doutor, se realmente quisesse um trânsito efetivamente mais seguro, deveria estar defendendo a presença de mais ciclistas nas ruas e não a sua supressão. Será que ele vai propor que os pedestres também saiam das ruas, visto que eles são ainda mais vítimas dos crimes de trânsito? Não são os ciclistas – nem os pedestres – os responsáveis pela violência no trânsito, mas ninguém se atreve a propor a supressão dos automóveis – os verdadeiros causadores da carnificina nas ruas. (O excelente livro “Fighting traffic”, de Peter Norton, relata que muitas pessoas claramente propunham isso no início da explosão do uso do automóvel nos EUA, diante da tragédia diária do trânsito).

    Para ser coerentes com tal raciocínio, deve-se pedir às pessoas que evitem frequentar restaurantes em São Paulo, pois corre-se o risco de ser assaltado.

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