Pedágio metropolitano: quem vai pagar esta conta?

Até 2014, o Governo do Estado de São Paulo pretende instalar um sistema eletrônico de cobrança de pedágios nas rodovias privatizadas. De acordo com reportagem da Folha de São Paulo publicada nesta segunda-feira, com o novo sistema de cobrança serão pedagiados trechos urbanos como os que ligam Campinas à Unicamp e a PUC-Campinas e também a vários bairros e empreendimentos da região, como três shoppings. Serão pedagiados também trechos das rodovias que atravessam a Região Metropolitana de São Paulo, como por exemplo as ligações da capital paulista ao aeroporto de Guarulhos, a São Bernardo e Diadema e a Cotia. O Governo do Estado, no entanto, declarou que ainda estuda quais trechos urbanos deverão serão pedagiados.

Os pedágios das rodovias estaduais paulistas são os mais caros do país. Dependendo da região, o pedágio de uma viagem de 300 km, ida e volta, pode custar mais de R$ 100,00. É fato também que as estradas paulistas são as melhores do país, mas, por outro lado, a equação entre custos, benefícios públicos e lucros das concessionárias é muito pouco transparente. Isso porque quase todas as concessionárias são constituídas pelas mesmas empreiteiras que constroem e reformam as rodovias. Ou seja, as rodovias privatizadas foram construídas com dinheiro público e depois passaram a ser exploradas pela iniciativa privada, que ganha duplamente: recebem os pedágios que os cidadãos pagam e com isso investem em obras, remunerando suas próprias atividades como empreiteiras.

Com a implantação do novo modelo proposto, mais motoristas terão que pagar pedágio, mas o Governo do Estado argumenta que o sistema será mais justo porque reduzirá o valor da tarifa de cada um. Atualmente, o sistema está em fase de teste na rodovia SP-75, no trecho que liga Campinas a Indaiatuba, com pórticos de cobrança a cada 8km. A cobrança eletrônica será feita através da instalação de chips nos veículos, medida que já será obrigatória a partir de 2013 por decisão do Conselho Nacional de Trânsito.

Além de afetar o bolso, o novo pedágio poderá impactar também a forma como as grandes cidades do Estado têm sido construídas. Nas últimas décadas, nas metrópoles, mas também em redes de cidades paulistas como as do Vale do Paraíba, o modelo de desenvolvimento e expansão urbana foi se estruturando, cada vez mais, no entorno das rodovias. São fragmentos de cidade que vão espalhando a urbanização por um vasto território, sem continuidade, através de ligações basicamente rodoviárias. São bairros, mas também shoppings, condomínios industriais e centros de logística, fechados e isolados, muitas vezes cercados por muros. É o que vários pesquisadores denominam de “modelo de urbanização dispersa”, no qual não existe mais claramente definida a fronteira entre o urbano e o rural, já que o “urbano”, como continuidade de um tecido que agrega várias funções, desaparece para reaparecer como uma soma de empreendimentos isolados.

Para quem vive em cidades construídas neste modelo, pedagiar a rodovia é a mesma coisa que pedagiar as vias internas da cidade, já que, na prática, são exatamente estas rodovias que constituem as únicas possibilidades de ligação entre estes fragmentos de cidade. Ou seja: a cobrança eletrônica de pedágio nas rodovias estaduais vai obrigar quem mora ou apenas circula no interior de uma macro-metrópole a pagar para se deslocar dentro da cidade. A pergunta é: quem vai ganhar e quem vai pagar esta conta? Primeiro se construiu um modelo urbanístico carro-dependente e agora se transforma esse modelo num modelo caro e excludente que dificultará a circulação nestas cidades.

 

Texto originalmente publicado em Yahoo! Blogs.

7 comentários sobre “Pedágio metropolitano: quem vai pagar esta conta?

  1. Há ainda uma outra questão à ser analisada: O modelo de desenvolvimento regional no interior.
    Cito o exemplo de Bauru, aplicável à outras regiões, onde há um intenso movimento entre as cidades dessas regiões, seja para transporte de mercadorias e até mesmo atendimento médico não disponível em cidades menores. Como fazer uma pessoa que está acostumada a circular entre esses municípios pagar tarifa por uma simples ida ao Shopping Center não disponível em sua cidade!

    • Concordo com essa ideia, mas o problema, Felipe, é a adoção de um modelo e depois a mudança de modelo. Serão feitas vias alternativas para essas rodovias? O exemplo de Campinas é clássico: Os maiores shoppings da cidade tem acesso pela rodovia. E as pessoas que trabaham e vivem desses shoppings? O transporte público aumentará o preço? As lojas repassarão esse aumento de custo aos consumidores? Que faixa da população sai prejudicada e que faixa sera privilegiada com essa medida?

      • Mas não é porque um modelo foi adotado que ele deverá ser seguido até o fim dos tempos. Sabemos dos problemas causados por esse modelo, que hoje se mostra cada vez mais insustentável. Sempre que há uma mudança de paradigma existem os beneficiados e os prejudicados, sendo que é possível medidas mitigadoras para amenizar os efeitos dessa mudança (como a construção de novas avenidas e o incremento do transporte público. Quando a rodovia foi aberta, os donos dos terrenos nas adjacências, onde hoje estão esses empreendimentos, foram beneficiados, com essa mudança, os empreendimentos instalados nesses terrenos serão prejudicados. Mas a sociedade, e as cidades como um todo, provavelmente sairão ganhando com essa mudança.

      • concordo com você Sander, quando diz que é preciso mudar-se paradigmas, e que alguns sofrem com isso. O problema, no caso de São Paulo reside que este paradigma sempre muda sem a consulta aos envolvidos, sem a construção de alternativas, de forma truculenta, e beneficiando grandes conglomerados (no caso aqui, as concessionárias) e as classes mais favorecidas (a quem a nova cobrança ira ter menos impacto orçamentário). É prática habitual do gov. estadual e municipal tomarem decisões deste porte sem consulta a população e sem a devida contrapartida para os menos favorecidos. E também não exigem dos grandes beneficiados (as concessionárias que passarão a ter maio receita) contrapartidas.

  2. Morei 25 anos em São Paulo, por onde viajei desde o litoral até as “barrancas de rios e fronteiras estaduais”. Voltei há 5 anos para Natal-RN e sinto saudades dos pedágios de SP. Por aqui, buracos , má conservação, assaltos, acidentes e mortes (lamentável!). Esse modelo (disperso e concentrado; centro e periferia; + e -) é muito bipolar. No cômputo final, há ganhadores e perdedores, em um jogo de poder e pactos, no qual a sociedade brasileira continua sendo a mais punida, e isso há muitas décadas,séculos, independente de governos. Há muito o que pesquisar e conhecer sobre a nossa sociedade…

  3. Essa é uma possibilidade de alterar a lógica atual das cidades, baseada nos deslocamentos por automóveis. Sendo que onde as rodovias já são verdadeiras avenidas, precisam ser feitas marginais, administradas pelo município, de modo a desonerar as concessionárias, possibilitando a queda das tarifas dos pedágios. Hoje, em São Paulo, o que se vê é justamente um tráfego intenso até a última saída antes do trecho pedagiado, mesmo que seja mais fácil e rápido chegar ao destino por este trecho. É necessário restabelecer a função das rodovias, para grandes deslocamentos, e deixar as avenidas para os deslocamentos urbanos por automóveis.

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