São Paulo não aguenta novos shoppings!

Desde o mês passado os paulistanos acompanham pelos jornais a novela sobre a inauguração do Shopping JK Iguatemi, no bairro da Vila Olímpia. Prevista para o dia 19 de abril, a inauguração do empreendimento foi proibida pela Justiça porque as obras exigidas pela Prefeitura de São Paulo para minimizar seus impactos no trânsito não foram concluídas. Além do shopping, o empreendimento inclui duas torres comerciais, uma reforma no prédio da loja Daslu, que passará a abrigar um teatro, e um banco.

É importante esclarecer que qualquer grande empreendimento em São Paulo que se enquadre como polo gerador de tráfego, antes de iniciar suas atividades, precisa realizar uma série de obras, a fim de minimizar os impactos no trânsito do seu entorno. No caso do Shopping JK, até agora, das exigências feitas, já foram realizadas a ampliação de uma ciclovia e o alargamento da Marginal Pinheiros. Faltam ainda uma passarela e um viaduto.

Na semana passada, o shopping voltou ao noticiário porque a Procuradoria-Geral do Município de São Paulo emitiu um parecer dizendo que é possível inaugurar o shopping, dividindo em etapas a entrega das obras viárias exigidas pela prefeitura. O entendimento da Procuradoria é de que, como o complexo inteiro só ficará pronto em 2014, as obras viárias podem ser concluídas também neste prazo.

O que o noticiário não explicou é que o empreendimento já está dividido em etapas e que as obras mitigadoras exigidas foram estudadas a partir do impacto de cada etapa. A 1ª fase, correspondente ao edifício do Banco Santander, já foi concluída: as medidas mitigadoras foram entregues e o alvará emitido. A 2ª fase inclui justamente o Shopping JK Iguatemi, as duas torres comerciais e a reforma no prédio da Daslu.

Para inaugurar as obras desta 2ª fase, portanto, o empreendedor deve entregar o conjunto de obras viárias exigidas pela prefeitura para minimizar os impactos no trânsito. O que a Procuradoria propõe é a divisão da 2ª fase destas obras em três novas fases — uma 2ª que corresponda apenas à abertura do Shopping, uma terceira referente às duas torres de escritório e uma última referente ao prédio da Daslu.

No entanto, fica a pergunta: qual obra viária, isoladamente, minimizaria os impactos deste shopping, que terá quase 8 mil vagas de estacionamento? Certamente não serão a ciclovia, nem o alargamento da Marginal Pinheiros, partes concluídas até o momento. Até agora a CET não apresentou nenhum estudo que analise os impactos destas três novas fases separadamente…

Para além de saber a que corresponde, individualmente, o impacto de cada obra no trânsito da região, uma questão me parece mais importante e não tem a ver apenas com este caso: esse modelo de estudo de impacto do trânsito me parece que já está superado. Trata-se de um modelo que, ao considerar a construção de cada novo shopping, cada nova torre, não leva em conta que, na verdade, a cidade já está saturada para este tipo de empreendimento.

Dividir grandes empreendimentos de forma que ele pareça ser parte de um conjunto de obras de pequeno impacto não é novidade. Isso já é recorrente quando se trata de licenciamento ambiental. Também é comum, por exemplo, que empreendimentos habitacionais sejam feitos em fases para que não se enquadrem em parâmetros que requerem Estudo de Impacto de Vizinhança, que geralmente exigem medidas mitigadoras. Sobra para o poder público realizar estas obras ou deixar que a cidade “se vire”, sem planejamento algum.

No fundo, este modelo acaba permitindo que cada vez mais novos empreendimentos de grande impacto sejam construídos, quando já está claro que a cidade não os suporta mais. Em Manhattan, em Nova York, por exemplo, não existem shoppings. Só se permite construir este tipo de empreendimento nas estradas, longe da cidade. Me parece que está mais do que na hora de dizer que em São Paulo não dá mais pra ter shopping, sobretudo em áreas que já estão supersaturadas, como é o caso da Vila Olímpia.

Texto originalmente publicado no Yahoo!Blogs.

7 comentários sobre “São Paulo não aguenta novos shoppings!

  1. Empresas privadas são obrigadas a colaborar com obras viarias e a prefeitura? faz o q? A responsabilidade de melhoria da cidade são dos governantes e nao das empresas. Se novos shoppings estão sendo contruidos e ainda sim eles estão cheios, é pq existem sim espaço para eles na cidade. Isso tudo por causa do ritmo dos moradores, que trabalham durante toda a semana e somente aos fins de semana podem sair para fazer compras, comer. Não é todo mundo q tem o poder aquisitivo que a senhora deve ter de ir restaurantes caros da região do jardins ao inves de uma praça de alimentação.

    • Peraí cara Ana .. então quer dizer que uma empresa privada vem, se instala, gera disturbios, afeta a vida da população de vários bairros (porque existe um efeito cascata em qualquer novo empreendimento) impacta a qualidade de vida de centenas de pessoas e a prefeitura é quem tem que fazer algo? Sim, a prefeitura deveria fazer algo, deveria não ter aprovado tal empreendimento … se a empresa privada “piora a cidade” cabe à prefeitura “melhorar a cidade” enquanto o lucro vai para o bolso de poucos proprietários? … não se engane, vc não ganha nada com um novo shopping … muito pelo contrário … shopping não é a única solução para o estilo de vida agitado que vc tem … fazer compras, comer, passear no final de semana pode ser muito mais agradável do que um shopping aos moldes americanos … pense grande e “outside the box” …

  2. Conordo em partes com seu comntário. Porém faltou dizer que as obras de melhorias no entorno do empreendimento, não foram finalizadas porque o projeto para o mesmo ainda encontra em análise e aprovação na prefeitura.
    Ja que houve a permissão para a construção do empreendimento, e teve alvará autorizando a construção, não é muito lógico a prefeitura “segurar” a aprovação do projeto de melhorias.
    Pelo que li, o Walter Torres (proprietário do empreendimento) depositou em juízo todas as despesas e taxas que já deveriam ter sido pagas para que o empreendimento funcionasse.
    Será que é só o empreendedor causador dessas situações?
    E vou mai além, no nosso Plano Diretor, ou seja, em questões legais, não existe nenhum impedimento para que o Shopping fosse construido ali.
    Acho que é o caso de voltarmos e discutirmos todo o nosso lano diretor, que não é tão antigo, porém sempre apresentam problemas.

  3. Comparar SP com Manhattan sobre esta ótica é muito errado. A geografia e principalmente a estrutura urbana são tão diferentes. O que esta esquecendo é que Manhattan é muito mais densa que SP e que quando se constrói um prédio ou conjunto de prédios como este nao se exige que sejam construídas 8000 vagas. Esta na hora de questionar o poder publico que poderia ter uma parceria muito mais ampla com o setor privado para investir na infra-estrutura de transporte da cidade. Ainda ontem vi uma noticia sobre uma garagem em NY a venda por 1 milhão de dólares, aí esta a diferença. Tínhamos que criar o movimento por menos garagens. Essa discussão vai longe…

  4. Há Metodologia necessária à aplicação da Lei No 15150 e do Decreto No 51771 de forma adequada? A legislação é nova e pouco clara quanto ao que pode e deve ser solicitado aos projetistas de qualquer edificação que se enquadra como polo gerador de tráfego. Há necessidade da prefeitura desenvolver uma metodologia referente à aplicação desta Lei.
    Suely Mandelbaum, urbanista

  5. Ana, a responsabilidade pela melhora da cidade nao eh da prefeitura nem das empresas: eh de todos. E a prefeitura esta fazendo a parte dela, que eh exigir que a legislação e a lei sejam cumpridas, ao preço de nao fazendo-o lhe ser imputado crime de responsabilidade. Agora ao shopping cabe cumprir o que foi assinado em contrato, simples assim.

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