São Paulo para poucos?

“Para morar nesta cidade [de São Paulo], [para] ser cidadão nesta cidade, tem que trabalhar, tem que ter recurso, tem que ter condição de pagar. Quem não pode, infelizmente, tem que sair ou ir para cidades menores.” Esta declaração da diretora da regional Norte da Secretaria Municipal de Habitação de São Paulo, feita numa reunião com moradores da favela da Coruja que perderam suas casas num incêndio no mês passado, foi amplamente divulgada na imprensa esta semana. Em reposta, a Secretaria afirmou que fará uma investigação interna para apurar o caso.

Hoje recebi um e-mail de uma funcionária da Secretaria que diz ter se sentido muito triste ao ler as notícias sobre as declarações da diretora e que acha que os jornais não apuraram devidamente o que ocorreu. “É pela convivência de quase um ano de trabalho, de muito sacrifício junto com os trabalhadores da Habi Norte, desde os técnicos até o pessoal administrativo, que enfrentam o rosto da problemática no dia a dia, que é meu dever, encaminhar este simples relato”, diz. Ela afirma que não concorda com a atual política habitacional da cidade, mas defende a diretora e diz que “[…] a administração pública com a justificativa de ‘apurar os fatos’ joga um véu de duvida, onde honestos e não, são confundidos.”

Obviamente não se trata de investigar o que pensa e o que disse uma diretora, instaurando um clima de caça às bruxas dentro da Habi Norte, onde, certamente, há profissionais comprometidos com o direito à moradia da população. O que de mais importante uma declaração como esta pode nos trazer é uma reflexão e discussão sobre as políticas habitacionais da nossa cidade. Ninguém de bom senso pode acreditar que uma bolsa-aluguel provisória de R$ 300,00 seja solução para famílias como as da favela da Coruja que perderam suas casas num incêndio ou outras que não têm a menor condição de entrar no mercado habitacional, mesmo de programas como o Minha Casa Minha Vida.

Uma declaração como esta, portanto, precisa nos levar a reafirmar, no debate público, que a missão da Secretaria Municipal de Habitação (em conjunto com outros órgãos da própria prefeitura e dos governos estadual e federal) é garantir o direito à moradia para todos, independentemente de sua renda. É este justamente o sentido de uma política pública – corrigir, compensar, redistribuir aquilo que a lógica pura do mercado aloca de forma desigual. Que políticas, portanto, estão sendo desenvolvidas e implementadas no âmbito da Secretaria de Habitação para garantir o direito à moradia adequada para todos? Esta é a reflexão que precisamos fazer, especialmente neste momento em que o país passa por um boom econômico que, por um lado, mais do que nunca, representa a oportunidade de avançar na efetivação de direitos da população, mas que, por outro, nos coloca diante do risco de que o processo de desenvolvimento econômico, ao invés de incluir finalmente a todos, esteja concentrando e excluindo ainda mais.

14 comentários sobre “São Paulo para poucos?

  1. Mais uma indicação de como é a postura da atual adminstração da cidade… Até quando a maioria que não sofre, diretamente, com esses problemas irá ficar de olhos fechados para os desfeitos do DEM (PFL) e companhia?

  2. Alguém me disse que ouviu não-sei-o-quê… Esse viés da discussão parece ter se tornado pessoal. Aguardamos uma visão crítica, isenta, sobre êxitos e desafios da ação da Secretaria Municipal de Habitação de São Paulo, porém num nível mais avançado, onde se analisem ideias e ações, não pessoas e nomes.

  3. Essa declaração guarda semelhança com aquela que deu o tal Jerome, da comissão da Copa 2014. Usou expressão talvez imprópria para relatar uma realidade. Tá punk viver em São Paulo. Quem pode embute preço, recompõe margem, em cima do consumidor, do povo. A politica está plasmada no seu nível mais baixo, reflexões eleitoreiras e nada mais. Exigir eficiência e ligação aos princípios de cada órgão ou empresa pública, com a grande cabidagem de emprego, especialmente no 1º e 2º escalão, é um sonho de uma tarde de Verão. Talvez tenha que piorar (muito) pra melhorar.

  4. Ela está lá para garantir o mínimo existencial, a dignidade da pessoa humana e o direito à moradia, se não consegue oferecer isso aos cidadãos, deve sair do carguinho que ocupa. Essa diretora tem o mesmo nível de inteligência da Maria Antonieta.

  5. Ao camarada “Justo”, acima. Infelizmente, a questão do planejamento urbano de São Paulo é muito complexa para um artigo de blog. Chega a ser falacioso contra-argumentar o artigo com esse tipo de questionamento. É praticamente uma versão do argumentum ad ignorantiam quando você critica o modelo simplesmente ao fazer uma pergunta q não é possível ser respondida aqui. Infelizmente, é uma simplificação necessária ao exercício. Não é um argumento justo, mas, no popular, “é o que temos pra hoje”.

    Mas, mesmo ponderando sobre a questão dos recursos, podemos sim tecer uma resposta, decerto que simplista, mas não mais do que a sua pergunta.

    p.: de onde virão os recursos para esta proposta?
    r.: do mesmo lugar de onde vêm os recursos para propostas mais elitistas e menos preocupadas com as periferias.

    Não te disse nada como réplica à sua crítica, mas a pergunta foi respondida. Usei do mesmo recurso q a crítica que também não apresentou nada, mas uma resposta foi dada.

  6. Não existe amor em SP.

    E a cidade nova que irão construir entre a Marques de São Vicente e o Viaduto da Pompéia, porque não disponibilizar moradias populares ali como retorno social?

    Aliás, porque quase não se fala dessa nova cidade em nenhum jornal? Será que é porque ela simplesmente degradar e superpopular 4 bairros numa tacada só?

  7. O que pode um discurso bloguista contra uma sociedade que se constitui secularmente materialisando formas de relações que moldam um comportamento serviu e alienado. Existe também o “intelctual” alienado que pensa que ao estar na frente du’ma máquina pensa estar fazendo um bem pra humanidade. O povão tá pouco se importando com estas opniões. Sequer tem acesso a elas. Porque vcs não levantam a bunda desta cadeira e vão pro meio do povo fazer alguma diferença…e o nosso amigo “justo” que vá pro gabinete do Kassab. Jota

  8. Infeliz comentário, de “alguém” civilizado, e que tem o dever, de comunicação; mas de forma precisa, correta e humana!
    Uma vergonha!

  9. Tem que pagar caro sim. Muito caro! Querem morar de graça na maior cidade da américa latina? Eu pago caro, todos pagam caro, quem não pode que vá embora, simples assim. A cidade e os paulistanos com certeza agradecem.

    • Apoiado! Eu pago carísssimo por um pedacinho de terra com uma pequena casa dentro no fim do mundo . E essas pessoas querem morar de graça. Que vão embora mesmo quem sabe teremos um lugar mais civilizado para viver. Tchauuu já vão tarde………..

  10. De fato , esta mesmo muito caro viver em São Paulo, o que me deixa com muitas dúvidas é se todo o dinheiro arrecadado em Operações Urbanas e negociatas com grandes contrutoras que constroem um após outro empreendimento de alto padrão , estão mesmo sendo utilizados para melhorar os entornos desses empreendimentos ? Recentemente a Folha de São Paulo publicou que o Shopping JK não receberia alvará enquanto não executasse o alargamento da Marginal , como foi feito com o outro empreendimento que fica na Ponte Euzebio Matoso , e depois nada mais se falou … devemos ainda lembrar que existe um TRIBUNAL DE CONTAS DO MUNICIPIO que DEVERIA estar fiscalizando todas essas “contas” … mas nunca vi em nenhum tipo de mídia uma “prestação de contas” feita pelo referido TRIBUNAL .
    Portanto o certo é apurar se os recursos provenientes de nossos impostos estão corretamente utilizados, ou vão se perdendo em “acertos politicos” no meio de todo este imbroglio !!!!

  11. Engraçado como uma pergunta sincera e simples é rotulada como critica!
    Onde esta a minha critica quando questiono algo prático?
    E isto não tem nenhuma conotação politica.

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