Cinemas de rua: realidade ou ficção?

Se você detesta a ideia de precisar ir a um shopping center para ver um filme e morre de saudade dos cinemas de rua, saiba duas coisas: 1. Há milhares de pessoas como você, portanto, não se ache um louco solitário saudosista; 2. Há movimentos fortes em várias cidades, como São Paulo e Rio de Janeiro, que já têm conquistado a preservação e o retorno ao funcionamento de vários cinemas de rua que entraram em decadência a partir dos anos 1980, sucumbindo ao modelo do cinema de shopping.

Em São Paulo, por exemplo, no próximo sábado (17) — data que marca um ano do fechamento do Cine Belas Artes, na esquina da Rua da Consolação com a Avenida Paulista — será realizado um ato pela reabertura do cinema, às 16h, seguido de uma bicicletada, às 18h. É importante lembrar que a luta pela preservação dos cinemas de rua em São Paulo não é de hoje: em 2004 a cidade aprovou uma lei que concedia uma série de incentivos fiscais à manutenção das salas de rua, mas esta lei foi revogada em 2007. Em 2009, o Cine Marabá, uma das salas que fazia parte da chamada “cinelândia” paulistana, foi reaberto após um processo de restauro .

No Rio de Janeiro, em abril do ano passado, foi reaberto o Cine Joia, uma sala de apenas 87 lugares que funciona dentro de uma galeria em Copacabana, com programação de filmes alternativos — clássicos e de novos diretores — e ingressos a preços acessíveis. Já o famoso Cine Paissandu, no bairro do Flamengo, tem reestreia marcada para julho deste ano. Tombado desde 2008 como Patrimônio Cultural Carioca, desta vez o cinema — que foi ponto de encontro de jovens cinéfilos nos anos 1960 — abrigará também espaços para shows, peças de teatro, exposições, lojas e restaurantes. Também existem planos de reativar no Rio, ainda este ano, o Tijuca Palace, inaugurado em 1962 e fechado desde 1982.

Na zona norte do Rio, o prédio que durante décadas abrigou o Cine Vaz Lobo — inaugurado em 1941 — quase sucumbiu às retroescavadeiras da via Transcarioca, que está sendo construída para os Jogos Olímpicos de 2012. Graças à mobilização de moradores e pesquisadores, o projeto inicial foi alterado, preservando o prédio, e agora, a pedido da Rio Filmes, a reativação do cinema está sendo objeto de um estudo de viabilidade econômica junto à Secretaria Municipal do Patrimônio Cultural do Rio de Janeiro. O estudo inclui ainda outros seis cinemas de bairro.

Quem frequenta e ama os cinemas de rua, sabe que eles dão movimento e sentido aos espaços públicos e vice—versa: basta observar o que ocorre em torno do Espaço Unibanco, na Rua Augusta, em São Paulo. Estes cinemas fazem parte do ethos cultural das cidades e bairros, são pontos de encontro, rituais de escape, divertimento, sonho e reflexão que extravasam das salas para as calçadas ao redor. Lutar pela permanência destas salas, portanto, vai muito além de defender a continuidade de uma atividade ou de um edifício e deveria — cada vez mais! — ser objeto de políticas urbanas e culturais das cidades, estados e do governo federal.

Texto originalmente publicado em Yahoo! Blogs.

13 comentários sobre “Cinemas de rua: realidade ou ficção?

  1. Moro em São Paulo mas sou de Belém do Pará, onde depois de uma campanha grande nós conseguimos que não fechasse o cinema em funcionamento mais antigo do Brasil, o Cine Olympia. O cine Palácio, infelizmente, não teve o mesmo sim.

  2. Ir ao cinema de shopping, de certa forma, ajuda. Há estacionamento, relativa tranquilidade, conforto e a facilidade para uma esticada estomacal nas “praças de alimentação” (quê nome!). Mas é uma espécie de diversão tutelada. Coisa de monge medieval, mas sem a cantoria e o silêncio dos mosteiros. Já o cinema de rua tem seus encantos, e também seus riscos e desconfortos.

    De todo modo, uns e outros têm uma limitação: a comilança. Há uns dez anos que não vou mais ao cinema. Não dá mais. O converseiro generalizado, celulares tocando e os donos falando alto, um eterno vai e vem de pessoas se levantando para pegar mais pipoca e refrigerante – eles vão ali prá comer ou assistir o filme? E no final, a sujeira pelo chão, o fedor da manteiga torrada e nos rostos a expressão de festa.

    Da última vez que fui, o ruído da comilança me lembrou aquela dos porcos, no chiqueiro do fundo da casa interiorana de minha infância. Os porcos são eternos comilões e comem noite a dentro. E no escuro. Enfim, o ruido, o escuro, o fedor e a satisfação dos personagens eram similares. A analogia foi imediata.

    Em suma: do jeito que a coisa está, quem gosta de cinema não vai ao cinema!

    • Meu caro, nunca presenciei essa cena da comilança nos cinemas do Espaço Unibanco Augusta, no Cinesesc e no Belas Artes.

      Acho desagradável a tal comilança.. mas isso me parece um fenômeno típico de cinemas de shopping. Aliás, por isso também evito filmes em shopping.

  3. A cidade de Santos, no litoral sul de São Paulo, já foi uma referência nacional em quantidade de Cinemas de Rua. Infelizmente, nos ultimos anos com o migração do público para os shopping centers tem contribuido com o fechamento desses cinemas.

    A história dessas salas remonta à história do cinema mundial, afinal Santos tem salas há mais de 100 anos.

    Não conheço nenhuma iniciativa ou movimento de retorno de funcionamento dessas salas.

    Parabéns as cidades que tem lutado pela preservação das suas salas.

    Que essa notícia


  4. Que essa notícia ajude as pessoas a refletirem sobre a mobilização pela manutenção e retorno dos cinemas de rua.

    Aparecido

  5. Olá Raquel,

    em São Carlos um movimento de professores e alunos da Universidade Ferderal junto à prefeitura conseguiram reativer um antigo cinema no centro, que estava sendo usado como igreja.

    Me parece muito claro que tais projetos são um investimento na cidade e na cidadania e por isso devem ter o apoio do estado.

  6. Por favor, esqueçam cinemas de rua, isto não é mais viável no século 21, as avenidas vivem engarrafadas , a população quintuplicou desde os saudosos anos 60 até hoje, não há mais espaço, estacionamento, e o pior, não se prouduzem mais filmes como Poderoso Chefão, Tubarão, Ben-Hur, etc e ninguém esperaria uma ou duas hrs numa fila pra ver esses filminhos de hoje, mesmo em 3 d não compensa…caiam na real. Cinema agora, só em casa, numa tela de aspecto 21.9 de alta definição com clássicos em blu-ray, nem tudo tá perdido…

    • Esquecer os cinemas de rua! Não. Caro Francisco, felizmente ou infelizmente os tempos são outros, mas por que a mudança dos tempos tem de aniquilar os cinemas de rua? Tudo precisa mudar pra continuar existindo, e os cinemas de rua podem mudar e devem continuar existindo. Você quis dizer filme agora só em casa, porque cinema é outra coisa! Foi em casa, da forma que você disse, que eu vi os filmes ótimos que você citou, mas iria vê-los no cinema se fossem exibidos de novo, minha geração não teve esse privilégio… E aposto que eu não estaria sozinho na sala. É ótimo uma tela wide HD e Blu-ray + som DTS 5.1 fazendo tremer, mas se por um lado o cinema, de modo geral, não é mais viável, o home theater não é realidade do povo brasileiro, do trabalhador. Não sei não se nem tudo tá perdido…
      http://metaldiscoide.blogspot.com.br/2012/08/o-artista.html

  7. Eu adorava cinemas de rua, nos anos 80 fui muito neles, cansei de sair do cinema a tempo de pegar o metro, e NUNCA fui assaltado, hj por exemplo, eu nao conseguiria sair de uma Maraba, Ipiranga ou Marrocos com esposa e filhos e ir ao metro andando, me chamariam de louco se fosse, e nos anos 80 nao tinha o Crack, e os cinemas de Shopping querem nos matar com o Ar condicionado

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