Bicicleta: forma de lazer ou modo de transporte?

Itaú e Bradesco estão disputando quem poderá instalar um sistema de aluguel de bicicletas na cidade de São Paulo. O Itaú já explora o serviço no Rio de Janeiro, desde outubro do ano passado, em parceria com a prefeitura. Lá o sistema conta com 600 bicicletas, espalhadas em 60 pontos de bairros da zona sul e do centro. Não é muito difícil imaginar onde serão os pontos de aluguel em São Paulo…

Aqui a previsão é de que sejam disponibilizadas entre 3 mil e 5 mil bicicletas, com a primeira hora de uso gratuita, como acontece no Rio. A partir da segunda hora são cobrados R$ 5 por hora, mas não há limites no número de viagens diárias — com um cadastro mensal que custa R$ 10,00 é possível realizar várias viagens diárias desde que cada viagem não ultrapasse 60 minutos e que haja um intervalo de 15 minutos entre cada uma. Para saber mais, clique aqui.

Poder acessar uma bicicleta para percorrer pequenos percursos ao longo do dia é, evidentemente, uma iniciativa muito positiva, mas, tanto pelo baixo volume de bicicletas (para se ter uma ideia, em Paris, um sistema semelhante disponibiliza 20 mil bicicletas em 1.800 estações), quanto pelo custo e modelo (várias pequenas viagens ao longo do dia), o sistema termina sendo voltado muito mais para lazer e turismo do que para as necessidades da população que realmente usa a bicicleta como meio de transporte diário, sobretudo casa-trabalho ou casa-escola.

O mesmo podemos afirmar em relação às iniciativas recentes de implantação de ciclofaixas e ciclovias nas cidades brasileiras — como é o caso das ciclofaixas de domingos e feriados  em São Paulo, que hoje conectam parques da zona oeste e sul, ou das ciclovias à beira mar em algumas cidades. Nada contra sua existência, apenas cabe a pergunta: a que ciclistas elas atendem?

O fato é que iniciativas como essas não dão conta da real demanda da população com relação ao transporte não motorizado (a pé e por bicicleta). Segundo a última pesquisa Origem e Destino do metrô, aplicada na Região Metropolitana de São Paulo, esse tipo de deslocamento teve um aumento de 18% entre 1997 e 2007. De acordo com a pesquisa, em 2007, dos 304 mil usuários de bicicleta de São Paulo, 61,5% tinham renda familiar de até R$ 1.520,00. Além disso, 22% das viagens de bicicleta têm por motivo o alto custo da condução e 57%, a pequena distância da viagem – imagino que aí estejam incluídas as milhares de pessoas que se deslocam de bicicleta até a estação de trem e de lá seguem para o trabalho em várias regiões do município ou em cidades da Região Metropolitana, como Suzano, Mauá e outras. Segundo reportagem especial do Jornal da Band esta semana, mais da metade das 60 milhões de bicicletas que existem hoje no país são usadas pela população para ir ao trabalho.

Para essas pessoas, para quem a bicicleta é meio de transporte cotidiano, é preocupante a quase total ausência de políticas públicas de mobilidade urbana que incluam a bicicleta como modo. É importante lembrar que, no ano passado, a Secretaria de Transportes de São Paulo tinha previstos em seu orçamento R$ 15 milhões para o desenvolvimento do Plano de Mobilidade da cidade e nada fez; isso também vale para outras cidades: em Fortaleza, por exemplo, desde 2010 foi aprovada a Lei 9.701, que trata do Sistema Cicloviário, mas suas determinações nunca saíram do papel.

É muito positivo que em nossas cidades estejam crescendo, ainda que lentamente, a quantidade de ciclovias e ciclofaixas e que sistemas de aluguel de bicicletas estejam sendo implementados. Mas essas iniciativas precisam ter foco e prioridade, ou seja, precisam ser parte de políticas de mobilidade que compreendam a bicicleta como meio de transporte utilizado por milhares de pessoas nas cidades.

Publicado originalmente no Yahoo! Colunistas.

22 comentários sobre “Bicicleta: forma de lazer ou modo de transporte?

  1. Ola Raquel,
    Moro em Nova York onde me desloco basicamente a pe. Recentemente passei 1 mes em Sao Paulo e constatei algo que na verdade ja sabia, apenas havia esquecido, a cidade eh totalmente hostil ao pedestre. Salvo em regioes como a Paulista, senti muita falta da sinalizacao para pedestres, eh necessario que o pedestre olhe o farol dos carros para saber se pode atravessar. Um detalhe simples, mas que faz toda a diferenca.

  2. Raquel, a meu ver estão fazendo muito auê em disponibilizar bicicletas mas se esquecem de duas coisas: primeiro, onde vamos estacioná-las; e segundo, qual é a vantagem de ter ciclofaixa ligando o nada a lugar algum.

    Ciclofaixas ou faixas de duas rodas (compartilhadas com as motos) e mais bicicletários e paraciclos, de preferência perto de terminais, estações de trem e metrô e prédios públicos, seriam mais úteis do que essa iniciativa dos bancos, que soa mais como “vamos imitar as grandes cidades do mundo” do que “vamos dar uma solução inteligente e sustentável para o transporte em São Paulo”.

  3. Olá Raquel, sou de Cascavel /Pr. e aqui nosso mior problemas e ausencia de ciclovias padronizadas, os trechos que trafegamos são disputados com os pedestres, pois andar em ruas e avenidas nos coloca no mesmo nivel de risco que as motocicletas, de forma geral aqui as bicicletas atendem mais os trabalhadores durante a semana, mas tem uma tendencia de muitos ciclistas no fim de semana(neste caso meus dois filhos são exemplos disto), creio qeu uma politica voltada a este meio de transporte não tme ainda respaldo no meio do planejamento urbano local(Cascavel) , pois aqui stamos stabelecendo binários apra melhorar o transito, com ruas largas, rápidas…mas sem espaço para ciclistas..uma pena

  4. Pois veja esta:
    Uso a ciclovia da Marginal Pinheiros para transporte no dia-a-dia. O acesso mais fácil para mim seria pela Av. Guido Caloi. No entanto, o Metrô não permite que eu atravesse a estação Santo Amaro do Metrô, que fica suspensa acima do rio, empurrando a bicicleta. Tenho que pedalar mais uns dois ou três quilômetros e atravessar uma ponte para acessar a ciclovia pela estação Santo Amaro da CPTM, do outro lado do rio. Faz algum sentido?

  5. Ola,

    Moro em Perdizes, e utilizo bicicletas para diversas atividades diárias que não são muito distantes de casa e que não necessitem utilizar grandes avenidas (vale lembrar que, recentemente, um ciclista experiente morreu na Avenida Sumaré).

    Pouco tempo atrás, a prefeitura instalou Rotas de Bicicletas em alguma ruas. Iniciativa que seria legal, se de fato mudasse alguma coisa. As placas que avisam o motorista que, naquelas ruas, a preferência é das bicicletas (o que, por acaso, já esta previsto no Código Brasileiro de Trânsito para toda e qualquer rua) não muda em nada o desrespeito para com os ciclistas.

    Mudar a cultura do carro para uma cultura aonde caiba a bicicleta nas ruas como meio de transporte é uma longa jornada. Mudar a mentalidade sempre é difícil. Mas concordo com você: caminhamos a passos lentos e talvez até mesmo em direção ao caminho errado.

  6. Não podemos esquecer, de todas as formas de violência, que estamos enfrentando em nossa cidade; e como será a questão dos direitos e deveres, dos ciclistas, haja vista, tantas injustiças que vivenciamos em nosso país…

  7. Raquel ,
    Estou plenamente de acordo . Precisamos de politicas publicas locais e nacionais de trasnporte publico coletivo , como as bicicletas . A construção de ciclovias tem que ser devidamente planejadas e preservadas em conjunto com os demais meios de transporte de passageiros . Aproveito para denunciar que dois projetos governamentais em Belém ( PA) , a ” Via expressa” da Prefeitura e o Ação Metropole do governo do Estado , ameaçam a maior ciclovia que temos , na Av. Almirante Barroso , construida pelo PT nos anos 90 e que reduziu consideravelmente a morte por atropelamento de trabalhadores , principais usuários desta ciclovia .
    Abraços
    Marly Silva

  8. Oi Raquel!

    nunca fiz parte de nenhuma pesquisa…rsrsrsrs, sempre usei minha bike como meio de transporte, moro em São Caetano do Sul, e vou de bike até o trem (deixo em um estacionamento e pago R$30,00/mês), e pego o trem até a Barra Funda aonde trabalho! O interessante quando você usa a bike como transporte e os horários de rush que estou voltando do serviço, poucas pessoas me vêem como transporte, já passei por cada uma, mas graças a Deus estou inteira, já fiz a loucura de levar minha filha na cadeirinha com capacete, mas acredito que exponho ela d+, pois a experiência que tive com ela na garupa, foi de carros em alta velocidade, passando muito próximo a bike, por isso que decidi que não vou mais andar com ela na cidade. Já ouvi pessoas (motoristas de carro), falarem que os “carros” nao estão preparados para a bicicleta. Bom acredito que tudo evolui, então acredito que alguns costumes podem ser mudados.
    Parabéns pela reportagem,

    Cibele S.Silva

  9. Olá.
    Eu faço muito de meu deslocamento diário em cadeira de rodas motorizada.
    Com ela faço muitos trajetos na região central de SP, acesso ônibus e Metrô.
    Claro, tenho ciência de que esse meio de transporte é para uma minoria, as pessoas com deficiência física, como é o meu caso, mas, de qualquer forma deveria ser um meio de transporte considerado enquanto isso, e para tanto melhores condições para seu uso deveriam ser pensadas e implantadas.
    Obrigado.
    Tuca Munhoz.

  10. Raquel,

    São Paulo já tem, há cerca de 3 anos um sistema de empréstimo e estacionamento em estações de metrô e outros locais, tocado pela Parada Vital. É o único sistema que conjuga estacionamento gratuito e empréstimo de bicicletas que conheço! Eles emprega jovens em primeiro emprego e sou super bem atendido, não tenho queixa, a não ser o fato de não ter mais bicicletários! Quando chega a onda marqueteira, a midia se rende e, parece, fica de olho nos patrocinadores e começa a dar crédito a, como você bem disse, a projetos voltados ao lazer no centro expandido.
    Hoje, aconteceu a fatalidade com uma ciclista no berço do centro expandido e midia e todos nós somos levados a comoção. Ora, cerca de 5 coiclista morrem, em média por mês em São. Mas quantas centenas de motociclistas, motoristas e pedestres morrem e, ok, tá tudo certo?
    Tá na hora de fazermos a lição de casa e cobrar uma postura adulta de quem define o que é certo e errado há anos por aqui, não é?

  11. Tenho a impressão que os movimentos dos ciclistas são muito isolados. Na minha opinião, o primeiro passo seria a definição de uma pauta de reivindicações clara e objetiva. A partir daí, as ações deveriam ser coordenadas para que esta pauta fosse implementada: bicicletadas, protestos, articulação com vereadores, apoio da grande mídia, etc.

  12. Essa é uma grande questão. Enquanto a prefeitura fala de ciclorotas de lazer e começa a instalação de ciclavias por Moema com uma adaptação grosseira na via pública, as discuções sobre a duplicação da M Boi Mirim, Belmira Marim e Teotônio Vilela nem mencionam a palavra ciclovia. Essas três vias de acesso aos bairros da zona sul terão que ser, mais cedo ou mais tarde, duplicadas porque já não dão vazão às demandas de trafego. Esse seria um grande momento pra estimular a prefeitura a elaborar um projeto que já contemplasse a ciclovia de uma forma definitiva e estruturada. Existem circunstâncias idênticas em todas as regiões da cidade mas a prefeitura insiste em iludir a população com gambiarras que não resistirão por muito tempo pelo simples fato de não terem sido concebidas pra funcionar e sim pra servir como propaganda institucional. Lamentável.

  13. Eu apoio a idéia, mas duvido da aderência da população – e da minha. São Paulo é íngreme, diferente do Rio de Janeiro (só parte dele) e de outras cidades costeiras. Sempre tomamos como exemplo Amsterdam e outras cidades européias que são planas e muito, muito menores do que São Paulo. Londres possui um vasto sistema de metrô e ônibus e não investe em ciclovias. Elas não cabem lá. Cabem aqui, talvez? Não seria melhor reunir as reivindicações de ciclistas e pedestres para, primeiro, acelerar a construção de uma rede de metrô bem mais vascularizada (em vez de criar reivindicações diferentes)? Só temos eixos centrais. E mais, quando uma pessoa tem que cruzar 15 ou 30 quilômetros para ir ao trabalho (e tudo de novo ao voltar pra casa) em uma cidade íngreme, esburacada e chuvosa como SP, duvido que adote a bicicleta. Para esses, ver dinheiro público de todos nós ser gasto para privilegiar apenas alguns bairros pode gerar injustiça também. Afinal, quando se trata de campanha, construir ciclovias é bem mais barato e rápido do que construir metrô e isso pode ser usado como um ótimo palanque eleitoreiro. Defendo que a briga seja pelo metrô primeiro e, depois, pelas ciclovias ligadas a ele. Lutar por bicicleta, agora, é sair do foco mais urgente.

    • Caro Henrique,

      uma luta não precisa excluir a outra. A bicicleta e o investimento em calçadas para pedestres é a solução mais barata de oferecer novas maneiras de transporte. Quando eu era criança viva numa cidade cheia de morros e meu principal meio de transporte era a bicicleta. Não podemos menosprezar a capacidade das pessoas e nem as possibilidades de transporte.

      Não é porque nós não nos vemos usando uma bike pr atravessar a cidade que todos pensem assim.

      A variedade de opções é a única opção pra resolvermos o transporte em SP.

  14. Concordo com o comentário acima. Se a idéia não é coerente com o contexto, não vinga. E SP é sim essa cidade íngreme, cheia de buracos, chuvosa (estamos em 800m acima do nível do mar). A potência vem da união. Se ficarmos defendendo idéias picadas, fragmentadas, sem consciência coletiva, poderemos apenas continuar chovendo no molhado e alimentando esse comportamento em nossos políticos.

    • Cara Amanda, para complementar o comentário acima.

      Lembremos também que Amsterdam e Copenhague são planas, porém são cidades extremamente frias no inverno. E mesmo assim a bicicleta e a calçada são os principais meios de transporte.

      p.s Amsterdam é fria e muito chuvosa.

      p.s 2 não achamos que a cidade toda irá andar de bicicleta, mas é uma opção necessária, barata e saudável. Pra trajetos pequenos a bicicleta é perfeita. Muita gente trabalha próximo ao trabalho. Muita gente usa o comércio próximo de sua casa.

  15. Muio legal o artigo. É isso mesmo. Vejo dois fenômenos. Na ditadura dos carros, os ciclistas estão submetidos a um apartheid e além disso a um genocídio lento, morre mais de um ciclista por dia o Brasil. De fato muitos motoristas não toleram os ciclistas nas ruas assim que interferir na sua própria velocidade, apartheid. O pior é que a lei da esse direito ao ciclista mas apesar disso não pode exercer esse direito em condições decentes. É teno, além disso vejo muita gente negando o direito de segurança através das ciclovia. Essas pessoas são cúmplice do genocídio que continua. Será que podemos também considerar isso para os gestores que não aplicam o Plano Diretor Urbano da sua cidade e não implementa ciclovia? É uma realidade bem difícil. O Brasil é o campão da marginalização mas a luta pacífica para reverter a marginalização dos ciclistas está lançada.

    http://vitoria-sustentavel.blogspot.com/2011/12/apartheid-contra-ciclistas.html

  16. Todas as experiências narradas servem para confirmar que a bicicleta já chegou no Brasil como meio alternativo de transporte e não só de lazer em parques. Agora é mais um objetivo do poder público incluir esse veículo nas vias de trânsito de uma maneira organizada e segura. Também é necessário que os motoristas se acostumem com esse novo usuário das vias de trânsito que já divide espaço com tanta pressa quanto eles. Eu, como síndico aqui no nosso condomínio enfrento reclamações de pessoas que ainda não enxergaram a bicicleta como parte de nossas vidas e apesar de termos um bicicletário para usuários de fim de semana e colecionadores (só tem bicicleta para ocupar espaço) já se faz necessário um estacionamento para o usuário do cotidiano. Vou resolver e apóio incondicionalmente o uso da bicicleta, até porquê a Ciclovia chegou de vez em Porto Alegre, tendo o seu início de obra em frente de nosso condomínio à Av. Ipiranga.

  17. As pessoas primeiro precisam saber que andar de bicicleta é agradável e viavel. Um bom inicio é a construção de ciclovias e o estimulo de produção de bikes. Quanto mais as pessoas em seus carros notem que elas estão paradas, enquanto os ciclistas se locomovem livremente melhor.

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