Agora é em Pinheiros que não querem “gente diferenciada”?

Hoje de manhã ouvi uma notícia na CBN que me chamou a atenção. Um grupo de moradores e comerciantes de Pinheiros recolheu mil e duzentas assinaturas num abaixo-assinado contra a instalação de um albergue para moradores de rua na região e encaminhou o documento para o Ministério Público.

Na verdade, o albergue já existe, apenas será transferido. Hoje ele funciona na altura do número 3ooo da Rua Cardeal Arcoverde, com capacidade para 80 pessoas. Em dezembro ele será transferido para um novo endereço, na mesma rua, só que 1km pra cima, e poderá abrigar até 120 pessoas.

O mais interessante é que o abaixo-assinado foi parar nas mãos do promotor Maurício Antônio Ribeiro Lopes, que não só indeferiu o pedido dos moradores e comerciantes de Pinheiros como também encaminhou o caso para a delegacia especializada em crimes raciais e delitos de intolerância.

Segundo declarações do promotor à CBN, as observações feitas pelo grupo eram “completamente vazias de qualquer sentido”. Ele conta ainda que, no documento, essas pessoas chegaram ao absurdo de dizer que os cachorros dos moradores de rua iriam atacá-las. Mas como bem lembrou o promotor, a classe média também tem cachorros e “nao é morador de rua que tem pitbull”.

Ouça a notícia no site da CBN.

13 comentários sobre “Agora é em Pinheiros que não querem “gente diferenciada”?

  1. Já reparou que todo mundo é bom samaritano virtualmente? As pessoas ajudam o próximo sem pestanejar… na internet, claro. Nós repassamos email aos montes prá ajudar criancinhas, prá acabar com a fome na África, prá encontrar crianças desaparecidas. Nós mudamos a foto do facebook, passamos correntes inúteis (não custa nada, né?), nós somos ciberativistas ferrenhos, desde que não isso não quebre a rotina do nosso mundo real. As pessoas querem eletricidade, mas não querem morar perto de subestações. Querem presídios, mas não perto de seus condomínios. Querem ajudar os pobres, desde que eles continuem lá nas suas favelas.
    Por fim, nós juntamos as mãos, fechamos os olhos e pedimos ao nosso deus que tudo no mundo seja melhor para todos, mas quando abrimos os olhos e olhamos para o lado, não fazemos efetivamente nada para que isso seja uma realidade.
    Às vezes dá tanta vergonha de ser classificado como HUMANO.
    Essa notícia é um dos motivos.

  2. Olá Raquel,

    Pois é, esse bichuinho do Higienismo gruda mesmo…. ontem logo cedo, mandei mensagem via twitter ao pader Julio Lancelotti, dizendo que o promotor merecia nossa solidariedade.

    Lembre ainda que Serra fez escola, deixando seu lagado inesquecível, as rampas da Paulista.

    Hora de irmos em frente e colocar esse debate nas redes sociais e na agenda eleitoral que se avizinha.

  3. Deviam mandar os moradores de rua para perto da casa do promotor. Tenho certeza de que ele os trataria muito bem!

    • Tenho certeza que o promotor iria tratá-los como devem, como SERES HUMANOS, com respeito e ao passar por eles saberia dizer até um bom dia! Diferente da grande parte da nossa sociedade hipócrita que se tranca nos seus condomínios fechados, dando a mínima para os problemas da cidade, não querendo participar de nada da sua rotina, e depois quando um desses excluídos invadem sua casa e lhes apontam uma arma, querem um pouco daquilo que nossa sociedade lhe recusou, querem JUSTIÇA!

  4. Sensacional esse promotor! Atitude corretíssima!
    É isso mesmo! Aqui em Pinheiros desde que me mudei sinto uma certa higienização pairando no ar. Na minha rua que é próxima a uma futura estação do metrô estão lançando prédios mal-feitos a cada dia com um preço mais absurdo. Havia um que estava prestes a ser concluído, e na frente dele tinha um mendigo que todas as noites estacionava seu carrinho de feira na frente e dormia, até que quando estava terminando a obra aparentemente eles tinham que se livrar desse “problema” e levaram o homem preso. Algumas vezes eu ainda o vejo pelo bairro, mas não volta mais nessa rua. Não me surpreende nem um pouco esse abaixo-assinado absurdo.

  5. E isto ai! primeiro foi o pessoal de Higienopolis que não quizeram a estação de metro no bairro. Alias antes dela o pessoal da Chacara Klabim (vl.mariana) tambem nao queriam a estação do metro nas proximidades.Estes movimentos são assim ninguem quer mas todo mundo usa.Não seria o caso de perguntar porque tantos moradores de rua na cidade as eiras e beiras das ruas centrais da cidade estão lotadas a noite de pessoas dormindo sob seu precario tom protetor já viram? por certo que não gente bem vivida nascida e morada nao tem tempo para estas coisas mesmo!!!

  6. Vamos começar analisando que são fatos e perfis diferentes do episódio da criação de uma estação de metrô em que muitos seriam beneficiados. A “gente diferenciada” que pegaria o metro no bairro Higienópolis é bastante diferente do perfil de um morador de rua que dorme num albergue.

    Quem mora na região de Pinheiros sabe, no entanto, que existem muitos moradores de rua que dormem ao relento, nas calçadas. Como o leitor acima, Claudio Tavares, muito bem colocou, dar pitaco pela internet é fácil. Quero ver é colocar a mão na massa. Na mesma medida, é fácil um promotor (quanto deve ser o salário base de um promotor em SP hoje? Uns R$ 22 – 25.000) tomar uma atitude dessas e a notícia sair de forma super enviesada por aqui.

    Como moradora de casa e não de um apartamento com guarita, dois seguranças 24hrs/dia olhando quem entra e quem sai, tento esclarecer por aqui que o buraco é um tanto mais embaixo. Sem generalizar, porém não é um fato incomum que esses moradores de rua sejam alcoólatras, esquizofrênicos que passam o dia se arrastando e à noite revirando todos os lixos em busca de algo (esse algo pode ser pra comer, reciclar ou sintoma da doença) . Nem todos são “comedores de criancinhas”, mas também nem todos são figuras angelicais que você quer na porta da sua casa quando você sai para o trabalho ou quando você chega super tarde e não sabe se é uma pessoa do bem.

    Outro ponto a ser observado é a questão da gestão da cidade. Juntos, governo estadual e municipal fecharam mais de 2.000 vagas de albergues nos últimos dois anos em São Paulo. Experimente passar nesse minuto na Teodoro Sampaio ou na Cardeal Arcoverde. Se quiser uma amostragem maior, pegue a linha azul e pare na Sé e aí sim a imagem de descaso com o ser humano será escancarada.

    Cadê a atuação do promotor ou dos promotores? Blogueiros, batucadas e manifestações.

    Entendo que colocar a sujeira embaixo do tapete não pode ser uma boa solução. Tão pouco categorizar “OS MORADORES DE PINHEIROS” com uma amostra de 1000 assinaturas. É sempre bom ponderar os fatos.

    • Negrinha,

      Verdade que os 1000 moradores do abaixo-assinado não são uma boa amostra, mas este seu comentário me faz pensar que você pensa exatamente como eles e teria assinado o manifesto.

      Moro em Pinheiros, numa CASA (não apto. com 2 seguranças) e, comumente, dormem moradores de rua por aqui. Nunca causaram qualquer problema. Para que não revirem o lixo em busca de comida, basta perguntar a eles se querem uma refeição (e entregar, claro). Ver quais são as necessidades prementes delas (roupas, por exemplo). Oferecer a torneira de sua casa para elas. Explicar coisas básicas.

      Falar com pessoas em situação de rua é muito importante para elas, e o que se faz em SP é fingir que elas não existem. E, claro, empurrá-las para bem longe.

  7. E eu que achava que o grande charme de Pinheiros era ser “diferenciado”, no bom sentido: um bairro onde todas as tribos convivem pacificamente.

    O futuro albergue será a uma quadra da minha casa. E sabe o que eu acho disso? Nada. Se não fosse esse abaixo assinado absurdo, eu nem me daria conta que tinha um albergue ali. Assim como eu não sabia que existia um na Cardeal, num lugar onde passo quase que todos os dias.

    A diversidade é o que nos faz paulistanos e brasileiros.

  8. Que legal esse promotor. O engraçado é que essas coisas nunca são na frente da casa dele ou de gente como ele, porque se fosse o discurso seria outro. É muito bonito falar de como os moradores são ruins enquanto é nos olhos deles que cai a pimenta. Claro, não é na frente de ninguém aqui que vai ficar gente parada o dia todo, muitos que nem são realmente necessitados, e ninguém poder fazer nada porque estão “esperando o albergue abrir”.

    Engraçado, porque tirar o albergue de longe das residências para colocar em frente a elas? E se o motivo é “ser maior” porque não levar pra frente da casa do ex-governador Serra por exemplo, é um pouco mais longe mas também é Pinheiros, e ele daria um belo exemplo pra essa gente malvada que não quer o albergue perto. Ou porque não aproveitam os vários terrenos fora de área residencial onde só existe depósito clandestino de entulho? Gente bem vivida não moa naquela região. Gente bem vivida mora nas casas de um quarteirão onde nem padaria tem perto porque eles não querem, e lá também mora promotor que gosta de aparecer que nem esse mas não gosta de “gente diferenciada” também.

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